Dirigente da Cruz Vermelha defende que pequenos produtores cultivem comida

Uma política de incentivo à agricultura familiar_ No Brasil atualmente os pequenos e médios produtores podem contar com assistência técnica dos órgãos governamentais

Ao redor do mundo, todas as noites, quase 1 bilhão de pessoas vão para a cama com fome. Ironicamente, grande parte desses indivíduos são pequenos agricultores, responsáveis pela produção de metade dos alimentos consumidos no planeta. Cerca de 180 milhões de crianças de até 5 anos estão desnutridas e com retardo no crescimento e 925 milhões de pessoas sofrem de fome crônica. Ao mesmo tempo, no segundo semestre de 2010, os alimentos ficaram 30% mais caros, 10 milhões de hectares de terra foram inutilizados por conta da seca e 30% das sobras de alimentos foram perdidas. O orçamento do Banco Mundial utilizado para a agricultura caiu de 26%, em 1980, para apenas 10%, em 2000. Esses são apenas alguns números do Relatório Mundial sobre Desastres de 2010, divulgado em setembro deste ano.

No registro feito pela Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho sobre a situação da fome no mundo, os dados espelham a situação desesperadora de populações sem condições de se alimentar e a chamada “obesidade epidêmica” dos ricos. Em uma visita ao Brasil para acompanhar o lançamento da Frente Parlamentar de Apoio à Cruz Vermelha Brasileira (CVB) — iniciativa do líder da bancada do Partido Popular Socialista (PPS), Rubens Bueno, e do presidente nacional da CVB, Walmir Moreira Serra —, o subsecretário geral para a Sociedade Nacional e Desenvolvimento do Conhecimento da Federação Internacional da Cruz Vermelha e Sociedades do Crescente Vermelho (FICV), Mukesh Kapila, falou ao Correio sobre a fome no mundo, iniciativas governamentais para driblar o problema e a responsabilidade de cada um na luta contra a desnutrição.

Como uma reconfiguração do sistema alimentar global pode ser feita?
Com investimentos primários, agricultores irão cultivar alimentos na comunidade local. A maioria dos alimentos já é produzida por pequenos agricultores ao redor do mundo e isso certamente é suficiente para alimentar os continentes mais famintos. Então, por que tanto dinheiro está indo para a indústria agrícola, incluindo aqui no Brasil? O fato é que o preço para produzir nas terras é maior para os pequenos fazendeiros.

Quais as principais dificuldades que países como o Brasil enfrentam? São as mesmas enfrentadas pelo resto do mundo?
O Brasil é um país muito importante agora. Os desafios são os mesmos, na verdade: como criar um sistema justo de distribuição de recursos? Todo cidadão precisa ter acesso aos direitos humanos básicos para sobreviver e para que possa se desenvolver, como comida, água, cuidados de saúde e assim por diante. Logo, essa é a questão principal, esse é o verdadeiro desafio. A vantagem de países como o Brasil, que exportam comida, é que eles enriquecem muito rápido. E você precisa enriquecer para ter recursos para distribuir. Países como o Brasil, com grande extensão de terras e economicamente fortes, têm uma posição de liderança. A pergunta para o governo do Brasil e para os brasileiros é a seguinte: vocês estão preparados? Ou ainda: quando vocês estarão preparados para assumir fortemente essa posição de liderança no mundo? O mundo sem a liderança brasileira é um mundo que se move em velocidade média, quando poderia ir à toda velocidade. A questão do Brasil, então, é nacional — fazer o que é certo pelos cidadãos — e internacional, já que precisa assumir um lugar apropriado em um mundo em que ainda está à parte.

Segundo o World Disaster Report, 27% da população dos Estados Unidos é obesa, enquanto 925 milhões de pessoas sofrem de fome crônica. Como a especulação financeira do mercado de alimentos se relaciona com esse dado? O preço dos alimentos é o principal motivo? Quais os outros?
Isso não é surpreendente, na verdade. Acho que se houvesse investimentos em diferentes formas de agricultura, o custo da comida cairia. Os fabricantes descobriram que a presença do açúcar e do sal em excesso na comida processada faz com que ela possa ser distribuída para locais mais distantes. E ela ainda é mais barata. Logo, as pessoas pobres à procura de algo para comer naturalmente irão em busca dos alimentos mais baratos, que tendem a ser menos saudáveis. Como resultado, elas se tornam obesas e doentes. Elas não consomem a quantidade necessária de vitaminas e outro elementos nutricionais que são necessários a todos. O fato de o país mais rico do mundo ser também o mais gordo é um reflexo de uma sociedade infeliz. Pode ser porque eles estão mais tristes e não têm condições de bancar alimentos mais saudáveis. É um paradoxo mental estranho. É por isso que é preciso uma abordagem social. As pessoas devem ser educadas a confrontar o problema que as está forçando a comer alimentos prontos — que só são consumidos por serem a única opção.

Como tornar a comida saudável mais barata, então?
Esse é um problema político para todos os governos. Tudo em relação à comida é político. Nenhum governo sobrevive se não abordar aspectos políticos relacionados à alimentação. O mundo inteiro tem se tornado mais rico, e os governos precisam fazer escolhas difíceis. Basta tomar como exemplo os alimentos que não são saudáveis, como os com excesso de sal, sódio e açúcar: ele (o governo) pode tentar tarifar esses alimentos ou esses ingredientes de forma diferente, reduzir os impostos sobre os alimentos saudáveis, enfim, há maneiras para se fazer isso. Contudo, muito mais importante que tributação é a parceria que os governantes devem fazer com a sociedade e com grupos como a Cruz Vermelha, que têm como objetivo educar a comunidade, fazer com que as pessoas entendam que cada um é responsável pela própria vida. Isoladamente, o governo não pode fazer muita coisa. Apenas quando os cidadãos comuns tiverem o controle de seu próprio comportamento é que a mudança poderá ser feita. Então, não é justo culpar apenas o governo o tempo todo, como também não é certo esperar que ele resolva todos os problemas. Os cidadãos é que precisam fazer isso.

O primeiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio, da ONU, é reduzir pela metade o percentual de pessoas que sofrem de fome até 2015. Essa é uma meta viável? O que é preciso ser feito para que ela se torne realidade?
Bom, talvez. Acredito que seja possível e isso já foi alcançado em muitos países, mas acho que números como esse, estatísticas sobre quantos por cento estão melhorando ou piorando não nos dizem o suficiente sobre a questão humana que está por trás disso. As estatísticas escondem desigualdades. Na China, por exemplo, o chinês médio tem 50% mais calorias disponíveis que há alguns anos. Ao mesmo tempo, a pobreza tem aumentado. Isso significa que temos que ter muito cuidado ao interpretar esses números e estatísticas. Enquanto grande parte do mundo melhorou, uma parcela significativa da população em vários países tem ido para outra direção. A coisa mais importante para os que fazem as políticas, na minha opinião, é focar-se nos esforços mais valiosos — o que também é o trabalho da Cruz Vermelha. Os governantes precisam andar ao lado dessas organizações.

Fonte : Correio Braziliense _Claudia Chaves

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