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O que se sabe sobre a varíola do macaco em homens LGBT

Estudos no Reino Unido mostram que a doença está se espalhando especialmente neste grupo populacional. Por que isso está acontecendo? E como informar sem estigmatizar, como ocorreu nos anos 1980 com o HIV?

Por Alessandra Monterastelli, via Outras Palavras

O Reino Unido foi o primeiro país europeu a confirmar casos da varíola dos macacos. Após uma série de estudos por universidades locais, reportados pela revista Science, cientistas concluíram que a doença está se espalhando predominantemente dentro da comunidade de homens que se relacionam sexualmente com outros homens: de 152 pacientes que responderam questionários a pedido da Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSA), 151 responderam que eram homens homossexuais ou bissexuais. 

O vírus causador da doença é pouco conhecido e ainda há muitas incertezas. O que se sabe é que o patógeno é diferente daquele que circulava de forma endêmica em alguns países da África e que os sintomas da doença incluem febre, dor no corpo e erupções cutâneas dolorosas. A doença é transmitida pela proximidade com pessoas infectadas, através de saliva, sêmem, suor e contato com objetos de uso pessoal. 

Os riscos de estigmatização – assim como ocorreu com o HIV, na década de 1980, são claros. Como enfrentá-los? “Sem fazer alarde e sem estigmatizar, é importante que se faça a focalização da comunicação para grupos específicos. No caso, nesse momento, homens que se relacionam com homens” explica ao Outra Saúde Juliana César, assessora de Programas Institucionais da Gestos, organização que atua na prevenção do HIV.. “O ocorrido com o HIV Isso não pode se repetir. Não deve existir a associação da doença com uma parcela da população. Qualquer pessoa pode estar vulnerável a essa infecção. O que deve acontecer é o direcionamento da mensagem a um grupo específico, uma segmentação da informação entre a população em geral e o grupo mais vulnerável”, conclui. 

Para o infectologista Jamal Suleiman, que atua no Instituto de Infectologia do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, o setor público “está chegando tarde demais” nesse processo. “A gente já sabe qual é a população mais vulnerável nesse momento e precisamos difundir a informação dentro dessa comunidade, e rápido. Já aprendemos com o HIV estratégias para atingir essa população, difundindo informações através de indivíduos chave, por aplicativos e espaços de convivencia”, relembra. Em entrevista à Science, Gregg Gonsales, epidemiologista da Escola de Saúde Pública de yale e ex-ativista anti-HIV, vai adiante: “Acho que temos que falar mais sobre sexo. Todo mundo tem sido muito claro sobre o perigo do estigma, e vem repetindo isso. O ponto é que ainda é necessário lidar com o risco de infecção dentro de nossa comunidade”, argumentou.

Mas por que o vírus está circulando especialmente na comunidade de homens que se relacionam com homens? Os estudos articulados por universidades britânicas chegaram à hipótese de que o vírus adentrou em redes sexuais altamente interconectadas da comunidade gay, o que poderia explicar o avanço da doença nesse grupo e não na população em geral. A disseminação, portanto, ocorreria por uma questão circunstancial – o que significa que outros indivíduos fora desse grupo mais afetado em um primeiro momento são igualmente suscetíveis a contrair a doença, uma vez que sua contaminação não está relacionada à forma como o sexo é praticado. 

“Não tem relação com o que você é, mas com o que você faz”, explica Suleiman. “De alguma forma, o primeiro caso afetou um indivíduo dessa comunidade e se propagou. Se tivessemos tido como primeiro caso uma mulher heterossexual que trabalha em uma boate, que tivesse relações sexuais com mais pessoas, essa seria a primeira comunidade a ser atingida. É circunstancial”, explica. Suleiman reforça que o importante é não se relacionar sexualmente com outras pessoas se houver qualquer sintoma, mesmo aqueles mais brandos. “Às vezes, se a sintomatologia é leve, o indivíduo sai para encontros e isso impede a quebra da cadeia de transmissão”, reitera.

O número de parceiros sexuais não é um fator isolado, mas deve ser analisado junto de como um determinado grupo é densamente conectado entre si, explicou à Science Lilith Whittles, pesquisadora de doenças infecciosas do Imperial College London. Ela lembra que mudar de parceiro sexual com frequência e ter vários parceiros ao mesmo tempo pode ocorrer em todas as redes sexuais – hétero ou homo. Mas no caso de uma rede muito conectada, mesmo que muitas pessoas tenham poucos parceiros sexuais, algumas têm grandes números, o que ajuda a impulsionar a transmissão porque, se infectados, eles têm maior probabilidade de infectar outras pessoas – e o vírus nunca chega a um “beco sem saída”.

Como o modelo é baseado em dados do Reino Unido, é importante frisar que as descobertas podem não se aplicar aos outros países. Além disso, cientistas que decodificaram o genoma da doença já constataram que o atual vírus sofreu um número impressionante de mutações em um curto espaço de tempo, se comparado ao seu parente mais próximo, detectado na África em 2018 – o que explica a sua transmissão ser mais intensa do que a da doença antes conhecida. 

Ainda assim, como reforça Suleiman, o medo da estigmatização não pode levar a omissão. “O que temos visto neste momento é uma completa omissão. O medo de estigmatizar deve existir, óbvio, mas temos estratégias de proteção. Não é porque estamos com receio do estigma que não tomamos atitude. Quem fica mais vulnerável é a própria comunidade”, alerta.

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