Estromatólitos: como a forma de vida mais antiga conhecida ajudou a tornar a Terra habitável

Estromatólitos
Estromatólitos são fósseis vivos e as formas de vida mais antigas do nosso planeta. Foto: MAXPDIA/GETTY IMAGES

por Marian McGuinnes, via BBC

O teto solar e as janelas estavam abertas. Eu estava dirigindo na Indian Ocean Drive, algumas horas ao norte de Perth rumo ao Lago Thetis, na Costa dos Corais da Austrália.

Como um desenho de Escher, a paisagem se metamorfoseava de plantações agrícolas em matagais com pedras calcárias, acompanhada de moinhos de vento que extraíam água do Aquífero Yarragadee formado durante a era Jurássica.

Havia eucaliptos de troncos brancos e arbustos brotando aos montes, bandos de cacatuas negras alçando voos estridentes e, infelizmente, dezenas de cangurus que haviam sido atropelados.

Uma viagem de carro ao longo da costa do continente mais antigo do planeta não podia deixar de ser repleta de mistérios. Enquanto eu passava por placas verdes e amarelas na estrada alertando para ficar atenta a cangurus, emas e equidnas, havia outra forma de vida rara que eu estava procurando — uma que remonta ao início dos tempos.

Estromatólitos são fósseis vivos e as formas de vida mais antigas em nosso planeta. O nome deriva do grego, stroma, que significa “colchão”, e lithos, que quer dizer “pedra”. Estromatólito significa literalmente “rocha em camadas”.

A existência dessas rochas antigas corresponde a três quartos do caminho de volta às origens do Sistema Solar.

Grass trees sprout
Ao longo da Indian Ocean Drive, na Austrália, arbustos estilo punk brotam aos milhares. Foto: MARIAN MCGUINNESS/BBC

Do ponto de vista científico amador, os estromatólitos são estruturas rochosas construídas por colônias de organismos microscópicos fotossintetizantes chamados cianobactérias. À medida que sedimentos se acumulam em águas rasas, as bactérias crescem sobre eles, se vinculando às partículas sedimentares e construindo camadas milimétricas sobre camadas milimétricas até se tornarem montes.

A construção deste império trouxe consigo seu papel mais importante na história da Terra. Eles faziam fotossíntese. Usando o Sol para obter energia, produziam oxigênio, e aumentaram assim o volume de oxigênio na atmosfera do planeta para cerca de 20%, permitindo à vida prosperar e evoluir.

Estromatólitos vivos são encontrados apenas em algumas lagoas salgadas ou baías ao redor do mundo. A Austrália é internacionalmente reconhecida por sua variedade de habitats de estromatólitos, tanto vivos quanto fossilizados.

Fósseis dos primeiros estromatólitos conhecidos, com cerca de 3,5 bilhões de anos, são encontrados perto de Marble Bar, na região de Pilbara.

Como a Terra tem uma idade estimada de 4,5 bilhões de anos, é impressionante perceber que podemos testemunhar como o mundo se parecia no início dos tempos, quando os continentes estavam se formando. Antes das plantas. Antes dos dinossauros. Antes dos seres humanos.

Segui em frente pela Indian Ocean Drive. De vez em quando, em meio ao matagal, eu conseguia ver uma parte da água azul turquesa. Em seguida, fragmentos das dunas de areia brancas da cidade de Lancelin.

Este é um litoral de naufrágios e barracas que vendem lagosta, dos devastadores Roaring Forties (Vendavais da Latitude 40), ventos fortes que açoitam a zona a 40 e 50 graus de latitude a sul do Equador, e dos ventos Fremantle Doctor, conhecidos pelo alívio que trazem em uma tarde escaldante de verão. É uma costa selvagem encantada.

Eu estava quase em Cervantes, a capital da lagosta na costa norte do Parque Nacional de Nambung. Após alguns quilômetros por uma estrada de terra, cheguei ao Lago Thetis, o lar dos estromatólitos.

Parque Nacional de Nambung
Há muito para ver perto do Lago Thetis e do Lago Clifton, incluindo o Parque Nacional de Nambung. Foto: MARIAN MCGUINNESS/BBC

O Lago Thetis é pequeno, raso e triangular. Uma trilha de arbustos serpenteava por flores de pétalas azuis e folhas grossas, juncos e salicórnias vermelhas. De vez em quando, os cangurus locais levantavam a cabeça para dar uma conferida na gente.

Foi então que eu os avistei. Havia milhares de estromatólitos quase camuflados sob as ondulações, submersos como tartarugas antigas prendendo a respiração sob a água ligeiramente opaca.

Fiquei de boca aberta. Tirando a área periférica e imaginando o céu laranja metano da atividade vulcânica, é assim que a vida se parecia no início dos tempos.

O Lago Thetis tem pouco mais de 2 metros de profundidade e o dobro da salinidade do mar.

O lago ficou isolado há cerca de 4,8 mil anos, quando o nível do mar caiu durante a última grande era glacial. As áreas costeiras recuaram, e as dunas do litoral retiveram a água no interior, criando o lago. Estima-se que esses doadores de oxigênio pedregosos estejam crescendo há cerca de 3,5 mil anos.

Uma passarela de metal foi construída sobre o lago para que você possa ver os estromatólitos abaixo. Na caminhada de 1,5 km que dá a volta no lago, você pode olhar, mas não tocar, uma vez que muitas dessas relíquias antigas foram danificadas por pessoas que andaram sobre elas.

Mas há uma outra parte da família dos estromatólitos que está presente neste trecho da costa. O progresso evolutivo há cerca de 1 bilhão de anos iniciou um processo de transição lento em que os estromatólitos em camadas foram desaparecendo, à medida que outra variação emergia. Eram seus primos mais novos: os trombólitos.

Cerca de uma hora de carro ao sul de Perth, peguei a Old Coast Road no Parque Nacional de Yalgorup até o Lago Clifton, lar dos maiores trombólitos que vivem em lagos no hemisfério sul.

Trombólitos do Lago Clifton
Estima-se que os trombólitos do Lago Clifton tenham 2 mil anos. Foto: PHOTON-PHOTOS/GETTY IMAGES

Quando Brian Cox, o carismático apresentador e professor de física da Universidade de Manchester, no Reino Unido, visitou os trombólitos para sua série de documentários Wonders of the Universe (“Maravilhas do Universo”), sua admiração pelas “estranhas bolhas rochosas nas águas rasas” inspirou muitos turistas a procurar o Lago Clifton para ver “a primeira forma de vida na Terra”.

Os trombólitos derivam da mesma raiz da “trombose”, que significa “coágulo”. Os trombólitos têm aparência coagulada, enquanto os estromatólitos são em camadas.

De acordo com a falecida pesquisadora Linda Moore, da Universidade da Austrália Ocidental, os estromatólitos entraram em declínio no momento em que houve uma explosão de vida marinha mais avançada.

O ecossistema deles foi abalado quando a ameba predadora e outros organismos unicelulares chamados foraminíferos usaram suas extensões semelhantes a dedos para engolfar os estromatólitos, transformando suas estruturas finas de camadas em aglomerados.

Para sobreviver, os estromatólitos precisavam de água altamente salina que restringia outras formas de vida marinha concorrentes, enquanto os trombólitos se adaptaram. Eles sobreviveram e prosperaram em um ambiente menos salgado que o mar, e sua textura coagulada proporcionou um lar onde minúsculos animais poderiam coexistir.

Com uma impressionante ancestralidade linear, estima-se que os trombólitos do Lago Clifton tenham 2 mil anos.

Aqui, também, uma passarela passa sobre o lago, onde logo abaixo, os trombólitos podem ser observados. Olhando cuidadosamente, você pode ver minúsculos fios de oxigênio subindo para a superfície da água.

Trombólitos
Os trombólitos podem sobreviver em um ambiente menos salgado que o mar. Foto: PHOTON-PHOTOS/GETTY IMAGES

Para o povo aborígene Noongar desta região, a história do Tempo dos Sonhos (mitos e crenças mantidas vivas pelos aborígenes australianos há mais de 40 mil anos) conta a origem dos trombólitos. Com a terra seca, os Noongars oraram ao mar para que a água se tornasse potável.

Seu criador deixou o mar na forma da serpente Woggaal Maadjit. Ela passou pelas dunas de areia, criando uma enseada. Botou seus ovos (os trombólitos) e enrolou seu corpo para protegê-los (as dunas de areia protegendo o lago).

Os filhotes de serpente que eclodiram dos ovos esculpiram rios e, quando morreram, abriram túneis no subsolo formando fontes subterrâneas em seu caminho de volta para o Tempo dos Sonhos. Essas fontes forneceram água potável para o povo Noongar.

Do ponto de vista científico, os trombólitos microbianos usam a luz solar para fazer fotossíntese e obter energia e para precipitar o carbonato de cálcio (calcário) das nascentes de água doce que borbulham do aquífero subjacente.

O fluxo de água subterrânea com baixo teor de salinidade e nutrientes e alto teor de alcalinidade é essencial para seu crescimento e sobrevivência; qualquer alteração desafia sua existência.

O Lago Clifton é um ambiente frágil. Em 2009, os trombólitos foram listados como criticamente ameaçados de extinção e agora estão protegidos pela Convenção de Ramsar sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional, colocando esta área na mesma categoria que o Parque Nacional Kakadu, Patrimônio Mundial da Humanidade — o maior parque nacional da Austrália, preservando a maior variedade de ecossistemas do continente.

Trombólitos vistos de passarela sobre o Lago Clifton
Os trombólitos podem ser vistos com segurança de uma passarela sobre o Lago Clifton. Foto: MARIAN MCGUINNESS

As ações para conservação do Lago Clifton incluem a construção da passarela para evitar que esmaguem os trombólitos; monitoramento da qualidade e níveis da água; proteção da reserva de vegetação nativa que ajuda a filtrar nutrientes e poluentes; monitoramento da saúde da comunidade de trombólitos; e articulação com proprietários de terras agrícolas e urbanas para gerenciar e proteger a qualidade da água.

Eles precisam de proteção. A mudança no clima está afetando a salinidade do lago. A crescente urbanização aumentou o fluxo de nutrientes, causando a proliferação de algas que bloqueiam a luz solar e sufocam os trombólitos.

Em pouco mais de cem anos de alterações induzidas pelo homem no lago, a sobrevivência desses organismos antigos é tênue. Como a serpente do Tempo dos Sonhos, Woggaal Maadjit, cabe a nós protegê-los.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.

BBC Brasil: https://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-55905807