Violência contra indígenas, receptação, grilagem e trabalho escravo: as outras acusações contra quem desmata o Pantanal

Lista dos maiores sancionados pelo Ibama por desmatar o bioma nos últimos 25 anos inclui a filha de um dos réus pelo assassinato do líder indígena Marcos Veron; muitos deles estão ligados à alta sociedade e à política em nível local e nacional

Por Leonardo Fuhrmann | De olho nos ruralistas

Foto: Marcos Veron foi assassinado em Juti; família do réu é acusada de desmatamento: https://deolhonosruralistas.com.br/wp-content/uploads/2020/10/marcosveron.jpg

As pessoas físicas e donos de empresas que integram a lista dos que receberam multas milionárias por desmatamento não descumprem apenas a legislação ambiental no Pantanal. Seus antecedentes passam por acusações de destruição da flora em outras regiões e outros crimes ambientais — como pesca ilegal e uso irregular de herbicidas — a envolvimento na morte de indígenas e receptação de gado roubado.

Multado em R$ 10.015.000 em agosto de 2010, em Coxim (MS), Roberto Pedro Tonial é acusado em um processo por receptação qualificada de gado roubado. O outro réu envolvido no caso, Helcio Cândido Sandim, é acusado de furto qualificado, estelionato e falsidade ideológica. O processo ainda está em tramitação e teve início em 2014. A vítima no caso é o engenheiro espanhol Gabriel Lopez Mosquera, sócio da Lopez Marinho Engenharia.

No processo contra Tonial, chama a atenção também quem são seus advogados de defesa: Assaf Trad Neto e Ricardo Trad Filho integram uma família tradicional da política e do direito no Mato Grosso do Sul. O primo deles, Marquinhos Trad (PSD), é o atual prefeito de Campo Grande, candidato à reeleição. Irmão de Marquinhos, Nelsinho Trad (PSD) é senador e já foi prefeito da capital do Estado. um outro irmão, Fábio Trad, é deputado federal, cargo que já foi ocupado pelo pai deles, Nelson Trad. Nelsinho, Fábio e Marquinhos são primos do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Todos eles são ou foram ligados à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

EMPRESA TEM TRABALHO ESCRAVO EM SUA CADEIA DE PRODUÇÃO

A Simasul, que tem José Afonso Gonçalves como sócio-administrador, recebeu uma multa de R$ 9.498.880,50 em julho de 2008, em Aquidauana (MS). Siderúrgicas como a Simasul, a MMX, de Eike Batista, e a Urucum, ligada à Vale, em geral, são multadas por adquirir carvão vegetal além da cota permitida ou por falta de documentação que certifique que o produto adquirido não seja proveniente de desmatamento.

Trabalhadores flagrados em situação análoga a escravidão em carvoaria no MS (Foto: Ministério Público do Trabalho/Divulgação)

No caso da Simasul, a falta de fiscalização dos fornecedores era mais grave. Na mesma época, segundo a Repórter Brasil, dois deles estavam na lista suja do trabalho escravo: a Fazenda Engenho de Ferro, de Admir Ferreira Lino; e a Carvoaria FL da Silva, de Antonio Guilherme Maia. Um terceiro fornecedor, Paulo Rogério Sumaia, havia sido excluído pouco antes da lista.

De Olho nos Ruralistas já mostrou nesta série que Eike Batista, com uma empresa na lista dos maiores multados no bioma, possui uma farta lista de acusações de corrupção e de crimes financeiros. Silmar Magalhães Silva, que era presidente da Urucum, outra empresa no ranking do Ibama (organizado pelo observatório), é um dos réus pelo rompimento da barragem de Brumadinho (MG), no início do ano passado.

Além dos fornecedores da Simasul, o fazendeiro José Francisco de Morais esteve na lista suja do trabalho escravo em 2004. Em sua Fazenda Vó Gercy, foram resgatados quinze trabalhadores em situação análoga à condição de trabalho escravo. Ele recebeu uma multa de R$ 2.420.000, em agosto de 2019, por desmatamento em sua propriedade em Itiquira, na parte mato-grossense do Pantanal.

FAMÍLIA TEM HISTÓRICO DE VIOLAÇÃO A DIREITOS INDÍGENAS

Casada com Marcelo Bastos Ferraz e filha de Jacintho Honório da Silva Filho, Cacilda Moraes Jacintho Ferraz tem um histórico familiar de violações aos direitos indígenas: “‘Barão da carne’ avança em terra Ayoreo; no MS, família é ré no caso Marcos Veron”. Jacintho — ele é o homenageado em música homônima de Gilberto Gil — é um dos réus em julgamento do homicídio do cacique Marcos Veron, ocorrido em 2003, em Juti (MS), numa das áreas reivindicadas pelo povo Guarani Kaiowá. A família luta na Justiça contra a demarcação do território.

Uma empresa de criação de gado de Ferraz, a Yaguareté Porá, foi responsável por desmatar 1,2 mil hectares do território ancestral dos indígenas isolados Ayoreo, no Paraguai. A presença dos brancos no território também ameaça a vida dos isolados, que não têm anticorpos a doenças comuns em nossa sociedade. Cacilda recebeu uma multa de R$ 1.061.500 por desmatamento em Corumbá (MS), em setembro de 2018.

A advogada Nelir Fátima Jacoboewski Geier, multada em R$ 1.061.500,00, em setembro de 2009, no município de Lambari D’Oeste (MT), responde por desmatamento em “terra pública ou devoluta”. Ou seja, além de desmatar, ela é apontada como alguém que ocupou terras que pertencem à União.

Multado por desmatamento em R$ 1.578.500, em maio de 2005, Vagner Martins é proprietário da Fazenda Gaivota, em Poconé (MT). Ele é acusado de usar herbicidas sem receituário e da construção irregular de uma represa. Alzuir Francisco de Matos, multado em R$ 1.436.000, em março de 2018, no município de Lambari D’Oeste, também responde por pesca ilegal.

De olho nos ruralistas https://deolhonosruralistas.com.br/2020/10/22/violencia-contra-indigenas-receptacao-grilagem-e-trabalho-escravo-as-outras-acusacoes-contra-quem-desmata-o-pantanal/