Energias Renováveis: demanda por terras-raras pode ultrapassar oferta

As terras-raras são um grupo de elementos químicos muito utilizados na produção de tecnologias renováveis, como turbinas eólicas e carros elétricos. Mas com a expansão dessas tecnologias e as metas de substituição das fontes fósseis pelas renováveis, surge uma dúvida: haverá terras-raras o suficiente para suprir essa crescente demanda?

Infelizmente, segundo um novo estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) publicado pelo periódico Environmental Science and Technology, a resposta não é nada animadora.

De acordo com a pesquisa, se as atuais tecnologias renováveis forem realmente implementadas para cumprir as metas de redução de emissões de gases do efeito estufa (GEEs), a oferta de alguns elementos das terras-raras, como neodímio e o disprósio, teria que aumentar entre 700% e 2600% nos próximos 25 anos. Isso significaria um crescimento anual de 8% a 14% ao ano; atualmente esse índice é de 6%.

Um dos problemas desse aumento é que atualmente a China é a fornecedora de mais de 90% das terras-raras comercializadas no mundo, o que faz com que a oferta e os preços desses elementos dependam basicamente das exportações do país.

“O resto do mundo basicamente desistiu das terras-raras há dez anos”, comentou à Reuters Ian Chalmers, diretor de gestão da mineradora Alkane Resources. E isso pode dificultar os esforços para desenvolver as tecnologias renováveis, já que nos últimos anos os chineses têm reduzido suas cotas de terras-raras para exportação.

No último ano, a China decidiu limitar em 35% a exportação desses elementos para seus parceiros comerciais, alegando que “décadas de exploração excessiva” das suas reservas reduziram drasticamente o tamanho destas e causaram prejuízos ambientais e para a saúde dos habitantes das cidades próximas às minas de extração.

Os prejuízos ambientais são uma das grandes desvantagens das terras-raras, já que para extraí-las é necessária a abertura de grandes minas, o que pode levar à contaminação de rios e terras e, consequentemente, causar doenças como o câncer. De fato, o fechamento de muitas mineradoras no Ocidente ocorreu devido a acusações de que a contaminação de alguns rios teria levado a casos de câncer e leucemia em comunidades próximas aos locais atingidos.

“Acreditamos que há preocupações ambientais legítimas na questão da mineração de terras-raras, e muitas ações tomadas pelo lado chinês, como fechar as minas ilegais, são baseadas em tais preocupações. Grandes consumidores de terras-raras como os Estados Unidos, a UE e o Japão deveriam ver isso como uma responsabilidade compartilhada e deveriam parar de apenas apontarem os dedos para a China”, refletiu Ma Tianjie, ativista do Greenpeace.

No entanto, muitos parceiros comerciais da China alegam que a desculpa do país é injustificada, e que na verdade a limitação nas exportações é uma estratégia dos chineses para promover sua indústria interna.

“Tem havido muitos casos nos quais companhias dependentes das terras-raras chinesas tiveram que mandar suas empresas de fabricação para a China, o que, de uma perspectiva econômica chinesa, é um resultado forte”, afirmou David Nolan, presidente da mineradora Hastings Rare Metals.

“Pequim usa o controle de exportação e sua posição monopolista como produtora como a base de uma estratégia para construir companhias de classe mundial que criam empregos. De certa forma, Pequim está modelando as firmas nacionais”, disse David Abraham, analistas de recursos independente.

Esse impasse econômico está fazendo com que algumas mineradoras ocidentais estejam voltando a investir nas terras-raras em seus países. As empresas alegam que, agora, as questões ambientais já podem ser resolvidas. “Os padrões ambientais e a tecnologia melhoraram muito. A indústria é capaz de operar de uma maneira muito mais ambientalmente responsável agora”, declarou Chalmers.

No entanto, muitos ambientalistas e críticos da extração de terras-raras ainda se mostram céticos com a obtenção destas, apesar dos progressos nas tecnologias de processamento e controle de poluição desenvolvidas nos últimos tempos para lidar com estes casos.

“Há evidências sólidas na China, nos Estados Unidos e mesmo na Malásia de que o processamento de terras-raras contamina o meio ambiente e põe em risco a saúde”, observou Ronald McCoy, presidente da organização Médicos da Malásia para a Responsabilidade Social.

Autor: Jéssica Lipinski   –   Fonte: Instituto CarbonoBrasil