Cidade para pessoas

“Cansei de morar em uma cidade refém”

Hoje, folheando um livro lançado no ano passado que se chama Desenhando São Paulo – Mapas e Literatura (1877-1954), da Maria Lúcia Perrone Passos e Teresa Emídio, publicado pela Editora Senac, encontrei um texto sobre São Paulo de 1907 com o título “Modernos Melhoramentos”. Dizia o seguinte:

“A cidade de São Paulo, capital do Estado, teve em um quarto de século sua população dez vezes aumentada. A povoação de 20 mil moradores tornou-se um florescente centro comercial e educacional, com uma população de mais de 250 mil habitantes.
[…]
A cidade é uma das maiores e mais atraentes do Brasil, sendo notável por seus belos edifícios públicos, parques bem conservados e lindos bairros. 
As partes mais antigas da cidade ainda preservam sua identidade como produto da civilização portuguesa: ruas estreitas, com casas de modesta construção e fachada de azulejos formando desenhos variados. 
Um soberbo viaduto liga a cidade velha à nova; é chamado Viaduto do Chá, devido às grandes plantações de chá que existiam no vale, sob a atual ponte. Chácaras e pomares substituíram as plantações de chá e agora o panorama visto do viaduto apresenta-se como cenário bem rural, mas atraentemente diversificado. 
A maior parte da cidade é de construção moderna, com ruas largas e bem pavimentadas, cruzando-se em ângulos retos; quarteirões com belos edifícios comerciais, palacetes, colégios circundados por belos jardins gramados e cottages aninhados sob frondosas árvores. 
[…]
As várias estações ferroviárias e os hotéis estão localizados na área mais central. Um completo sistema de transportes une todas as partes da cidade, estendendo-se até os bairros. 
Outros modernos melhoramentos que satisfazem as necessidades dos moradores são: os benefícios da luz elétrica e do gás, um ótimo serviço de águas e de drenagem e os serviços telefônico, telegráfico e postal.”

Ao ler esse texto hoje, em 2012, quando a população da região metropolitana de São Paulo beira os 20 milhões de pessoas, não consigo deixar de confrontá-lo com oartigo (brilhante) da Ermínia Maricatto sobre especulação imobiliária e o projeto da Nova Luz. Nesse texto, ela se debruça sobre o projeto Nova Luz, as investidas da polícia de São Paulo na cracolândia para tentar expulsar os dependentes químicos da região e a desapropriação do Pinheirinho (feita em nome do proprietário Naji Nahas, que devia 15 milhões em IPTU ao governo de São José dos Campos) para mostrar como São Paulo cresceu refém do mercado imobiliário e continua a se desenvolver norteada por ele.

“Aceita-se que os pobres ocupem até áreas de proteção ambiental: as Áreas de Proteção dos Mananciais, as encostas do Parque Estadual Serra do Mar, as favelas em áreas de risco, mas não se aceita que ocupem áreas valorizadas pelo mercado, como revela a atual disputa pelo centro.”, diz Ermínia em seu artigo.

E me pus a pensar em contra-sensos como o fato de o Brasil ser hoje a 6a. economia maior do mundo, mas ter 45% dos seus moradores de favela concentrados em três de suas maiores cidades: São Paulo, Rio de Janeiro e Belém. Foi a lógica da especulação imobiliária que transformou cidades aprazíveis como a São Paulo de 1907 descrita acima em conglomerados caóticos de milhões de pessoas que mal se relacionam rodeados por manchas de pobreza.

A conclusão disso tudo é clara. Eu posso listar milhares de boas ideias que apurei com o Cidades para Pessoas para melhorar a gestão de lixo, a mobilidade, a limpeza dos rios, o saneamento básico, etc, e inclusive me engajar em colocá-las em prática o mais rápido possível. O problema é que quem sairia ganhando MESMO com essas melhorias seria o mercado imobiliário.

Pense na nova linha amarela do metrô, por exemplo. Essa melhoria pública valorizou as propriedades privadas da região, que foram vendidas e destroçadas pelas empresas construtoras para virarem enormes empreendimentos imobiliários. Resultado: as pessoas que se beneficiariam dessa melhoria são expulsas do local em que ela foi feita e obrigadas a se mudar para regiões mais afastadas, criando uma nova demanda por transporte público.

Veja bem, eu quero que as melhorias aconteçam. Eu quero que o Rio Pinheiros seja despoluído e que eu possa nadar nele um dia. Mas quero, principalmente, que minha cidade me deixe ter acesso a ele (inclusive para morar lá perto, se eu quiser).

Autora: Natália Garcia

Fonte: Planeta Sustentável

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