Apenas 0,17% dos resíduos sólidos coletados no Recife são reciclados

Na semana do aniversário de 475 anos do Recife, comemorado no dia 12 de março, o G1 circulou pela cidade e registrou uma enorme quantidade de lixo, que suja ruas, entope bueiros e mancha cartões postais. De acordo com a Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), cerca de 2 mil toneladas de lixo são produzidas diariamente na capital pernambucana. Com uma população de 1,5 milhão de pessoas, a conta dá, aproximadamente, 1,3 kg de lixo per capita todo dia – índice que está perto da média brasileira, que é de 1 kg.

Não é só o recifense que produz a sujeira. Muita gente trabalha na capital e dorme em outra cidade, deixando aquele copo de suco, papel do bombom, folheto de propaganda no chão. Ainda por cima, o lixo é mal aproveitado. O último levantamento da Emlurb aponta que só 0,17% dos resíduos sólidos coletados são reciclados.

Em períodos de férias, é somado mais 200 toneladas à média diária. A praia do Pina e de Boa Viagem, destinos muito procurados nessa época, sofrem. Em dias normais, são coletadas 15 toneladas de lixo. Em fins de semana e feriado, aumenta para 20. Até 60 garis trabalham catando material da areia e dois caminhões “peneiram” a terra da beira-mar todas as noites. O custo do serviço é de R$ 400 mil. Outro ponto turístico, o Rio Capibaribe, também padece com a falta de cidadania. Em janeiro deste ano, foram recolhidos 3.811 sacos de 100 litros de sujeira das águas, em torno de 24 toneladas. Neste período, foram encontrados 18 sofás no leito do rio. O trabalho é feito por duas embarcações de segunda a sábado.

Nos últimos meses de outubro, novembro e dezembro, 66,85% do lixo coletado pela prefeitura municipal era doméstico (aquele que se produz em casa); 30,98% volumoso (entulho); 1,93% poda (corte de árvore, capinação); 0,17% da coleta seletiva e 0,07% resíduos sólidos hospitalares. A Região Político-Administrativa 6, que engloba oito bairros da Zona Sul, é a que mais gera lixo. “Isso é fácil de explicar: Boa Viagem, por exemplo, têm muitos prédios, ondem vivem muitas famílias, então, produz mais que lugares com predominância de casas”, disse o gerente de Fiscalização de Limpeza da Emlurb, Avelino Pontes.

Varrição
Já o centro do Recife é o local que mais precisa ser varrido, segundo Avelino. Na Rua Sete de Setembro e as avenidas Conde da Boa Vista e Guararapes há, pelo menos, sete varrições ao dia. Para o gari Antônio Monteiro, que trabalha no ramo há 25 anos, essa frequência não é suficiente. “Mesmo se passasse 20 vezes, sempre ía ter lixo para varrer. E tem gente que olha o nosso carrinho e joga coisa no chão, olha a gente com cara feia, diz que a gente não faz nada”, conta. Em outras vias, o cronograma de varrição varia de uma vez ao dia a duas e três vezes por semana – este último cronograma fica em áreas residências, com pouco movimento.

Vandalismo
Há duas mil lixeiras em todo o Recife. E é também no centro da cidade onde está a maior concentração delas, pois é lá que está o coração do comércio e a maior circulação de pessoas. Locais de preservação histórica e apelo turístico também têm sua cota de lixeiras. Além de muita gente ser indiferente a elas, ainda há vândalos que destroem o patrimônio público. A Emlurb informou que, em média, 70 são quebradas por mês. Cada uma custa cerca de R$ 110. Os alvos preferencias dos mal educados ficam nas avenidas Conde da Boa Vista e Caxangá.

Destino
Segundo a Emlurb, 100% do município está coberto com a coleta de lixo. Ao todo, são 90 caminhões operando. Em alguns lugares, o veículo passa diariamente. Em outros, três dias por semana. Nos locais em que ele não entra, a coleta é manual. O gari recolhe e deposita os resíduos dentro de um saco plástico, colocando-os em pontos estratégicos para o caminhão apanhar. Só a coleta e transporte custam, por mês, cerca de R$ 70 mil aos cofres públicos.

Há cerca de seis meses, tudo que é coletado na cidade vai para o aterro privado CTR Candeias, que fica no bairro da Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. O contrato é de R$ 12 milhões para coletar, transportar e tratar o lixo. Para a professora de Ecologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Karine Magalhães, o problema não é a quantidade de resíduos gerada, mas o que se deixa de aproveitar dele. “Existem estudos que revelam que, pelo menos, 70% do lixo podem ser reaproveitados ou reciclados. O volume no aterro diminuiria e o governo ainda economizaria dinheiro”, explicou. No CTR Candeias, custa R$ 32,50 para tratar resíduo doméstico e R$ 24,68, resíduo volumoso.

Coleta Seletiva
Hoje, o programa de coleta seletiva da Prefeitura do Recife opera em três frentes. O primeiro é o Ponto de Entrega Voluntário (PEV’s), que conta com 80 contêineres distribuídos em espaços públicos. São aqueles latões coloridos, onde o cidadão deposita plástico, vidro, metal e papel. “A proposta nasceu em 1993 e foi ampliada em 2001. De lá para cá, aumentou o número de PEV’s porque a população têm participado. Infelizmente, ainda há muita depredação. Hoje, os que mais participam são moradores da Beira Rio e Jardim São Paulo. Pode observar que não é uma questão de classe social, mas de consciência ambiental”, disse a articuladora social da Gerência de Coleta Seletiva da Emlurb, Sandra Magnata.

Os outros dois eixos englobam a coleta de porta a porta, onde dois caminhões passam diariamente em 45 bairros, escolhidos pelo potencial gerador de lixo, e a coleta institucional, no qual dois veículos recolhem resíduos de empresas. Segundo Sandra Magnata, ainda não há previsão para a ampliação de bairros atendidos pela coleta seletiva. Ela também explicou que há cinco organizações de catadores de lixo apoiadas pelo governo municipal, situados nos bairros de São José, Torre e Imbiribeira. Elas recebem o material coletado pela Emlurb.

Um deles é a Esperança Viva, que fica próximo à estação central do Metrô do Recife. Eles separam e revendem o produto. Também “puxam carroça” na rua, catando papelão, papel branco e plástico – os três materiais mais encontrados. A labuta é das 7h às 21h. Cada um ganha um salário mínimo. “Mesmo legalizados, ainda sofremos para conseguir vender as coisas, não temos equipamento de proteção. Também sentimos preconceito das pessoas, que pensam que a gente é ladrão”, falou a presidente da cooperativa, Dinalva Lima, 62 anos.

Exemplo
Para eles, o “presente” deixado pelos cidadãos vale ouro. Mas não pensem que eles querem a cidade suja. Ao contrário, são incentivadores da separação do lixo, o que facilitaria o trabalho deles. São poucos os recifenses que por livre e espontânea vontade têm essa iniciativa. Há cinco anos, moradores de um prédio na Boa Vista decidiram fazer a coleta seletiva. Entraram em contato com a prefeitura, receberam orientação e compraram alguns tonéis para separar o lixo seco do orgânico. Uma vez por semana um carroceiro credenciado recolhe o material. “Além de ajudar financeiramente os carroceiros, ainda contribuímos com a sustentabilidade do planeta”, disse a médica Nélia Lima. “É uma ação simples, nem dá trabalho, só faz ajudar”, disse a empregada doméstica Lêda Alves.

Esse, sim, é o verdadeiro presente que o Recife precisa receber: cidadãos conscientes e cooperativos. “Hoje, há poucas lixeiras na cidade para o tamanho da população. A coleta seletiva ainda é insuficiente. E pessoas mal educadas geram custos e transtornos. Mas, acho que, aos poucos, a situação está melhorando. A prefeitura precisa investir mais em educação ambiental. Desde trabalhos em escolas a propaganda nas grandes mídias. A gente não compra coisas que vê na televisão? Por que não comprar essa ideia também?”, opinou a professora Karine Magalhães, que já está fazendo a parte dela com a criação do programa Recicla Rural. A ideia é reciclar os resíduos gerados pela universidade.

Fonte: G1 PE