Solidariedade: biologia, ética, política – das formigas ao Homem

A Science de 14 de Dezembro dá notícia duma investigação conduzida por Ugelvig e Cremer, na Universidade de Regensburg, Alemanha (Ugelvig LV, Cremer S: Social prophylaxis: group interaction promotes collective immunity in ant colonies. Curr biol 2007; 17:1967), com resultados interessantíssimos: quando os investigadores introduziram formigas infectadas por um fungo numa colónia, as formigas saudáveis da colónia não rejeitaram as doentes, antes aumentaram a actividade de limpeza do ninho e das próprias doentes, removendo-lhes esporos do fungo.

De seguida, verificou-se que a incidência da infecção fúngica não aumentou nas formigas saudáveis que receberam e trataram as doentes, mas, pelo contrário, a população receptora ficou mais resistente ao fungo.

Numa coincidência curiosa, neste mesmo dia, ao arrumar os jornais e revistas portugueses das últimas semanas, passei os olhos por uma entrevista com a escritora Lídia Jorge (Notícias Magazine de 4 de Novembro), onde ela dizia: “Quando a solidariedade não é praticada isso significa que há uma corrupção daquilo que é o nosso princípio de coexistência e até de sobrevivência. É uma regra biológica, antes de ser regra ética, política ou moral, às vezes esquecemo-nos disso. Alguém que é absolutamente egocêntrico está a pôr em perigo todo um sistema e a sua própria sobrevivência”.

Voltando à notícia científica: não foi nela que a Lídia Jorge se inspirou (ver datas das publicações), mas este cruzamento de dados mostra que até para isto a ciência é valiosa, conduz os nossos olhos de volta à sabedoria, de que a Natureza é fonte absolutamente inesgotável! E não se pense que a ciência só demonstra benefício para a saúde no comportamento solidário dos animais.

Um estudo conduzido com homens e mulheres, ainda mais interessante que o agora publicado sobre as formigas, com uma coorte de casais idosos da área de Detroit, USA, observados ao longo de cinco anos (Brown SL e col: Providing social support may be more beneficial than receiving it: Results from a prospective study of mortality. Psychological Science 2003; 14:320), mostrou que, como o título da publicação indica, é melhor para a saúde ser dador do que receptor de cuidados.

E a solidariedade referida não dizia respeito apenas a cuidar de doentes mas a todo o tipo de ajudas entre familiares, vizinhos, outros, incluindo ajudas materiais, gentilezas, pequenos ou grandes favores. É a atitude de dar que é muito mais saudável que a de receber – ler, por favor, o trabalho antes de julgar a minha reflexão…

Fonte : Jornal da Ciência, Tecnologia e Empreendedorismo  

Isabel Azevedo *

*Directora do serviço de Bioquímica da Faculdade de Medicina e ex-vice-reitora da Universidade do Porto.