No Vale do Ribeira, patrimônio natural da humanidade, comunidades tradicionais afirmam: defender natureza pode ser modo (não moda) de vida

Eles vivem entre duas das metrópoles brasileiras mais ricas e modernas – São Paulo e Curitiba – mas convivem com realidades típicas das regiões mais pobres do país. O IDH de seus municípios só é comparável aos de Estados muito mais pobres, como Maranhão e Piauí. O acesso a escolas, internet, equipamentos culturais ou mesmo telefones é, em muitos casos, inexistente ou muito irregular. Parte deles tem como único meio de transporte garantido a água dos rios e embarcações precárias. Como se estas agruras fossem poucas, vieram, nos últimos anos, as ameaças de despejo. Primeiro, pelo governo paulista, que se ampara num falso discurso ambiental. Agora, em consequência da possível construção de quatro hidrelétricas – a mais importante das quais atenderá, exclusivamente, aos interesses do Grupo Votorantim.

Eles compõem dezenas de comunidades tradicionais: índios, quilombolas, caiçaras, pescadores e ribeirinhos. Vivem em municípios esquecidos, pequenas cidades ou na zona rural. Sofrem ameaças e, em casos não raros, estranhos desaparecimentos de lideranças. Estão no Vale do Ribeira – um Patrimônio Natural da Humanidade (ONU, 1999) que abrange o extremo sul de São Paulo e extremo leste do Paraná, estende-se do litoral à serra do Mar e abriga tesouros ambientais: entre eles, 61% da Mata Atlântica remanescente no país e a maior concentração brasileira de cavernas em rochas carbonárias.

Em 10 de junho, eles deslocaram-se a uma audiência pública, nos salões acarpetados (e de gosto duvidoso) da Assembleia Legislativa paulista. Expuseram uma proposta que merece ser examinada e debatida – por ser ao mesmo tempo sensata e incomum. Expressa num documento firmado por oito entidades e grupos, que juntos se denominam “Comunidades Tradicionais do Vale do Ribeira”, o texto apresenta 25 reivindicações, relacionadas a garantia de permanência no território, posse na terra e condições de vida dignas.

A leitura cuidadosa do texto revela: os que o assinam almejam uma nova noção de “progresso” que valorize sua proximidade com a natureza. Não querem autoestradas, automóveis, indústrias poluentes, agrotóxicos e viadutos – muito menos barragens que desalojariam milhares de famílias. Ao mesmo tempo, rechaçam uma visão que, apropriando-se do discurso ambientalista, quer expulsá-los de suas terras, supostamente em favor a natureza. Em alternativa às duas ameaças, formulam uma frase-síntese de suas ideias: “meio ambiente com gente”.

Reportagem de Luís F. C. Nagao

http://www.outraspalavras.net/2011/07/08/elas-nao-usam-4×4/

Foto: Patricia Patriota / Local, Hermosa Beach, CA

Foto: Patricia Patriota / Local, Hermosa Beach, CA