Muito além da fachada

Os desafios das construtoras para criar projetos residenciais realmente sustentáveis em um mercado dominado pela maquiagem verde

Num grande centro urbano, comprar um imóvel de um empreendimento que promete plantar uma árvore para cada futuro morador parece uma ideia simpática. Se houver lugar para as lixeiras de recicláveis, melhor ainda – afinal, quem não se preocupa com o meio ambiente? Vendidos como iniciativas verdes em inúmeros lançamentos residenciais no país, detalhes como esses podem agradar, mas estão longe de fazer desses edifícios construções efetivamente ecoeficientes. “Ressaltar a sustentabilidade de um único aspecto do projeto é o primeiro sinal de que existe greenwashing [argumento que distorce ou falseia a ideia de baixo impacto ambiental visando a venda]”, explica Paola Figueiredo, diretora do grupo SustentaX, empresa pioneira na assessoria para certificação ambiental.

E enquanto as grandes empresas não poupam recursos tecnológicos e financeiros para obter algum selo verde para prédios comerciais, as construtoras e incorporadoras brasileiras ainda batem na trave e aplicam muitos conceitos de greenwashing em edifícios residenciais. Mas o assunto está longe de ser ignorado pelo setor.

Alguns empreendedores já esboçam reação e se esforçam para contemplar os três pontos fundamentais da chamada tríade verde: ter impacto ambiental reduzido, trazer benefícios sociais para todos os envolvidos na obra (dos operários aos usuários) e ser economicamente viável. O projeto Spazio Acqua, concebido pela Cosil em Aracaju, é um bom exemplo. Muito bem avaliado pelo Programa Obra Sustentável do Santander (leia quadro na pág. 121), a iniciativa é um reflexo de uma nova mentalidade adotada pela empresa há três anos, quando a construtora contratou a SustentaX para operar uma verdadeira transformação em seu canteiro de obras: seguindo as novas diretrizes, substituíram aço e vidro comuns por outros com percentual de reciclagem, passaram a comprar cimento CP III (que usa uma quantidade menor de calcário na fabricação e por isso emite menos CO2) e a usar produtos regionais (distantes até 800 km da obra), o que diminui os gastos de logística e emissão de gases. Uma segunda construtora que está empenhada é a Even. Há dois anos, ela é a única representante da construção civil no Índice de Sustentabilidade Empresarial da BM&F Bovespa, indicador formado por ações de até 40 empresas comprometidas em alto grau com tais ideais.

Também foi uma das primeiras a publicar o Relatório de Sustentabilidade do GRI, apontado como um dos dez melhores do país pela consultoria inglesa SustainAbility. Ultimamente, o maior esforço da incorporadora tem sido o de divulgar o trabalho de bastidores da construção civil. “Estamos aprimorando os descritivos para que o cliente consiga diferenciar os produtos. Muitas vezes quem compra um apartamento não pergunta nem sobre o tipo de madeira usada, e os vendedores raramente destacam tais aspectos”, ressalta Silvio Gava, diretor de sustentabilidade da Even. Outras escolhas acertadas que fazem a diferença, mas ninguém vê, vão desde fôrmas para concreto feitas de plástico, que garantem 100 reutilizações, em vez das 18 permitidas nas de madeira e tintas com baixo nível de compostos orgânicos voláteis (COV), a tubulações hidráulicas não embutidas, para facilitar futuras reformas e diminuir resíduos.

CUSTO OU INVESTIMENTO
Um dos quesitos que caracterizam um edifício como sustentável ainda aparece como entrave à multiplicação de empreendimentos do gênero: a viabilidade econômica.