Mercado Central ganha presente de aniversário

Estrutura em bambu preparada para resistir dois séculos é erguida no Mercado Central para abrigar cozinha-escola

Foto Divulgação / em.com

Quem pisar no Mercado Central de Belo Horizonte a partir de quarta-feira vai ver e sentir, além dos cheiros exóticos, dos temperos coloridos, das verduras frescas, dos pertences de feijoada, dos queijos e das cachaças que marcam a gastronomia regional, uma obra que anuncia um novo tempo para o espaço mais tradicional dos mineiros. A escola-culinária, com estrutura em bambu, mostra que o lugar também tem ingredientes especiais para o futuro. Uma combinação perfeita entre a tradição e a vanguarda, sem perder o glamour arquitetônico.

Nas comemorações dos 82 anos do Mercado Central, em 7 de setembro, a cidade recebe um presente que antecipa o caminho da sustentabilidade social e ambiental. Oito mil varas de bambu cultivado organicamente e manejado para garantir durabilidade e resistência por pelo menos dois séculos despontam curvadas no estacionamento do mercado, para deleite de mais de 38 mil pessoas que circulam diariamente por ali – público que sobe para 59 mil no sábado, segundo o superintendente Luiz Carlos Braga.

A iniciativa faz parte da campanha da Nestlé “A cozinha está no coração dos mineiros. E é na cozinha que a gente se encontra”. Iniciada em 2010, a ação destaca a participação da empresa na cultura e no dia a dia de Minas Gerais, ao criar ações em torno da culinária, atividade reconhecidamente importante para a população mineira. “Ao marcar presença no Mercado Central, um patrimônio histórico tão emblemático para os mineiros, estreitamos ainda mais nossos laços e compartilhamos nossos valores com a região, cada vez mais importante para os negócios da companhia”, afirma Beatrice Fasquel, gerente-executiva da regional Sudeste da Nestlé. A gestão do espaço ficará a cargo de Eduardo Maya, chefe de cozinha e idealizador do tradicional evento Comida di Buteco. As aulas serão gratuitas, quatros vezes por semana, em grupos de 30 pessoas. Para participar, basta se inscrever e comprar os ingredientes no próprio mercado.

TOQUES FINAIS
 Atenta ao maçarico que enverga as últimas varas de bambu no espaço de gastronomia, a artesã Michaela Reis, de 52 anos, deixa escapar: “Genial, me lembra Juscelino Kubitschek em sua ousadia”. E lá está Lúcio Ventania, mestre bambuzeiro, de 45 anos, junto com sua equipe, a dar os toque finais. Atendendo ao chamado do designer paulista Marcelo Rosenbaum e dos mineiros Fernando Maculan e Mariza Machado Coelho, Lúcio aceitou o desafio de construir a escola culinária em quatro meses. Do Centro de Referência do Bambu e das Tecnologias Sociais (Cerbambu), instalado na Região de Ravena, em Sabará, vieram os 15 módulos do material. Lúcio comandou sua equipe de artesãos durante uma semana, sempre trabalhando de madrugada para surpreender os mineiros.

A tarefa dos arquitetos mineiros e do mestre bambuzeiro está cumprida. Segundo Fernando Maculan, parceiro de Rosenbaum em outros projetos, “o Mercado Central é o lugar do encontro e da celebração, que está no imaginário de todos os mineiros. O projeto consiste em uma abóboda cuja superfície é formada pela malha trançada de bambus. A solução faz referência aos elementos vazados – os cobogós – que recobrem as fachadas do mercado, e assim delimita o espaço da cozinha-escola com certa transparência. A escolha do bambu fortalece o vínculo com o artesanal, o feito à mão”, diz Fernando.

Ninguém melhor do que a arquiteta Mariza Machado Coelho, uma das responsáveis pelo projeto, para reconhecer a importância do mercado na vida dos mineiros. Viúva do arquiteto Álvaro Hardy, o Veveco (falecido em março de 2005), antigo habituê do espaço e amigo de Milton Nascimento, que lhe dedicou a música Vevecos, panelas e canelas, Mariza diz: “Sentamos Marcelo, eu e Fernando para conversar, fomos visitar o mercado para sentir o cheiro, provar sabores exóticos, conversar naquele cenário de cores, temperos, carnes, grãos e verduras frescas, e pensamos numa trama de bambu, uma arquitetura contemporânea, mas com material artesanal, que combinasse com o clima agradável do espaço, que é um convite à confraternização”, conta Mariza. Ela mesma vai ao mercado todos os fins de semana para comprar flores, quando quer fazer um arroz com pequi ou uma feijoada. “Aproveito para comer um fígado acebolado e tomar um chope num dos inúmeros barzinhos”, acrescenta.

Lúcio Ventania, por sua vez, aceitou o desafio de fazer uma obra desse porte em um dos lugares mais visitados e cultuados pelo povo mineiro. “Considero a obra como a vanguarda da sustentabilidade no Brasil. Apesar de o bambu expressar tanto rigor estético e de ter propriedades físicas e mecânicas comparáveis com as do aço, do ferro e do concreto, o material ainda não foi devidamente reconhecido e utilizado no país”, explica.

Mas essa realidade pode mudar em breve, transformada pelo próprio projeto para desenvolvimento da cadeia produtiva do bambu, na região do distrito de Ravena, dirigido por Lúcio Ventania. “É uma nova referência para a sustentabilidade e a inclusão definitiva do bambu como elemento de destaque para a arquitetura, engenharia, mobiliário e design. Mas também, principalmente, porque acrescenta ao conceito de sustentabilidade oportunidades reais para que a sociedade participe como protagonista na construção de um novo mundo, mais justo e mais ecológico”, define.

Fonte : Dea Januzzi / Estado de Minas