Fenômeno El Niño eleva chance de ocorrência de conflitos civis armados

El Niño e La Niña são alterações significativas de curta duração (12 a 18 meses) na distribuição da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico, com profundos efeitos no clima. Estes eventos modificam um sistema de flutuação das temperaturas daquele oceano chamado Oscilação Sul e, por essa razão, são referidos muitas vezes como OSEN Seu papel no aquecimento e resfriamento global é uma área de intensa pesquisa, ainda sem um consenso.

Fatores econômicos, políticos e sociais sempre foram os estopins de conflitos armados ao redor do mundo. Agora, cientistas afirmam que outro aspecto parece ter forte influência sobre esses episódios, principalmente nos países menos desenvolvidos: o calor. De acordo com um estudo publicado na edição mais recente da revista científica Nature, pesquisadores do Instituto da Terra, da Universidade de Columbia (EUA), descobriram que a presença do fenômeno climático El Niño — que aumenta a temperatura e reduz a quantidade de chuvas em 90 nações tropicais — pode ajudar a explicar um quinto das guerras civis ocorridas nas últimas cinco décadas. Também conhecido como El Niño Oscilação Sul (Enos), o fenômeno afeta grande parte da África, do Oriente Médio, da Índia, do sudeste da Ásia, da Austrália e da América Latina.

O grupo de especialistas examinou os ciclos climáticos e os confrontos ao redor do mundo ocorridos nos períodos de 1950 a 2004, a fim de estabelecer uma relação entre ambos. “Notamos que, quando os países tropicais estavam sob o fenômeno La Niña, eles tinham 3% de chances de começar um novo conflito civil. Em comparação, quando estavam sob o mais quente e seco El Niño, as chances aumentavam para 6%”, descreve o líder do estudo, Solomon M. Hsiang, em entrevista ao Correio. “Isso sugere que alterações no clima tiveram algum papel em 21% de todas as guerras civis desde 1950”, destaca.

Os períodos de calor e seca mais intensos estariam ligados indiretamente aos confrontos. Primeiramente, porque nessas épocas a produção agrícola é menor, o que pode afetar a distribuição de alimentos entre a população e a economia do país, caso parte da riqueza da nação venha desses produtos. Desse modo, a insatisfação da sociedade com os governantes devido à economia enfraquecida pode levar a tentativas de tirar líderes do poder.

O pesquisador ressalta que os efeitos das mudanças climáticas sobre os conflitos são maiores em nações mais pobres, embora não tenha certeza de por que isso acontece. “É possível que esses países simplesmente não tenham os recursos necessários para se proteger dessas mudanças. No entanto, também é possível que sejam pobres porque têm conflitos persistentes desencadeados pelo clima. Talvez seja um problema que se retroalimenta”, estima o norte-americano. Ele cita Peru, Chade, Sudão, Omã, Mianmar e Indonésia entre os países que tiveram pelo menos um conflito civil na época do Enos desde 1950.

Ele diz que os resultados que ligam as mudanças de temperatura e umidade aos confrontos não se aplicaram a países como a Austrália, que, embora esteja na área de atuação do El Niño, nunca passou por uma guerra civil. Mas além da questão financeira, há fatores psicológicos. “Uma hipótese vinda da psicologia afirma que os indivíduos realmente ficam mais agressivos quando expostos a temperaturas mais elevadas. Inclusive, eles ressaltam que, no verão, aumenta a incidência de crimes violentos ao redor do mundo”, comenta Hsiang.

Prevenção
Para o cientista, a parte mais interessante da pesquisa foi comprovar a importância dos ciclos climáticos para determinar padrões globais de conflito. “Eu já tinha lido muitos livros de história que sugerem a relevância do clima nessa questão, mas nenhum deles havia conseguido quantificar isso”, diz Hsiang. Entre os autores que popularizaram na última década o conceito de que o meio ambiente pode influenciar a violência estão Brian Fagan, Mike Davis e Jared Diamond.

“Descobrir que 21% das guerras desde a década de 1950 foram afetadas de alguma maneira pelo Enos é um número muito maior do que eu imaginava”, admite. “No mundo moderno, nós normalmente pensamos que as sociedades não estão mais vulneráveis às variações do clima. Mas nosso trabalho sugere que a estabilidade de grandes populações ainda é extremamente influenciada por quaisquer alterações no meio ambiente.”

Mark Cane, coautor do estudo, ressalta na pesquisa que a intenção do grupo não é mostrar que só o clima inicia as guerras. “As variações de temperatura e umidade não são o único fator para o começo de guerras. Evidentemente, deve-se levar em consideração a política, a economia e todo o panorama social do país”, alerta. “Pode ser impossível acabar com os conflitos, mas, sinceramente, minha equipe e eu esperamos que nossos resultados ajudem os governos e instituições internacionais a se preparar melhor para crises humanitárias que normalmente estão associadas a conflitos civis”, ressalta Hsiang. “Atualmente, é possível prever o El Niño com dois anos de antecedência, então esperamos que isso seja usado para reduzir as perdas humanas resultantes das mudanças climáticas naturais.”

Contestação
Apesar da grande quantidade de cientistas que vêm analisando o assunto, há um grupo de especialistas em conflitos civis que vê essas pesquisas com desconfiança. O cientista político Halvard Buhaug, do Instituto de Pesquisa da Paz em Oslo, na Noruega, não está convencido da conexão entre o clima e a violência nas nações tropicais. Autor de uma pesquisa de 2010 intitulada O clima não é o culpado pelas guerras civis africanas, ele criticou em entrevistas à imprensa o estudo de Hsiang. “O estudo falha em ampliar nosso entendimento das causas dos conflitos armados e não se esforça em explicar a alegada associação entre os ciclos do Enso e os riscos de guerras”, afirmou. “Não é o aquecimento da atmosfera que provoca as guerras. É o contexto geopolítico.”

Para Buhaug, a pesquisa norte-americana praticamente ignora o contexto climático de cada país a curto e longo prazo, itens que poderiam dar sentido à ligação entre conflitos, temperatura e umidade. “Correlação sem explicação leva à especulação”, determinou. Outro estudioso de guerras, o economista Marshall Burke, da Universidade da Califórnia, comentou que os autores mostraram “evidências muito convincentes” dessa ligação. “Mas as pessoas podem responder diferentemente a choques de curto prazo e a mudanças de longo prazo na temperatura média e na precipitação”, ponderou Burke, que considerou a pesquisa uma base esclarecedora para futuros trabalhos.

Oceano aquecido
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento intenso das águas da superfície do Oceano Pacífico tropical. O termo técnico para esse fenômeno é El Niño Oscilação Sul (Enos), que representa a interação entre atmosfera e oceano, ligada a mudanças nos padrões da temperatura da superfície do mar e dos ventos na região do Pacífico, entre a costa peruana e a região da Austrália. O fenômeno oceânico-atmosférico com características opostas ao EL Niño é o La Niña, que se caracteriza pelo resfriamento das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical. O El Niño e a La Niña tendem a alternar-se a cada 3 a 7 anos.

 

Fonte : Tais de Luna / Correio Braziliense