Biodiversidade no triângulo dos corais

Foto:Bali,"paraíso tropical", na Indonésia- Divulgação

Da noite para o dia, a suíte de hotel a beira-mar é transformada em laboratório de biologia. Ao redor da cama de lençóis brancos, no centro do quarto, surgem pequenas estações de trabalho: uma para triagem, duas para fotografia, três para amostragem e preservação de espécimes. De dentro das malas dos cientistas saem roupas de mergulho, redes, microscópios, pinças, tambores de etanol e milhares de copinhos e tubinhos plásticos transparentes que, três dias mais tarde, retornariam para casa recheados de caranguejos, camarões e outras amostras da incrível – porém ainda pouco conhecida – biodiversidade marinha do Triângulo dos Corais.

Estamos em Pemuteran, às margens do Mar de Java, na costa noroeste de Bali, a ilha mais turística da Indonésia. A areia preta das praias e a sombra dos vulcões pontiagudos no horizonte são indícios de uma região inquieta, em constante transformação, onde processos biológicos e geológicos formam uma combinação explosiva para a geração de novas espécies. Uma parceria evolutiva de sucesso que, ao longo de milhões de anos, ajudou a produzir e continua a sustentar alguns dos ecossistemas marinhos mais diversificados do planeta.

Para os turistas das suítes vizinhas, um destino ideal para relaxar, observar peixinhos coloridos e admirar belas paisagens. Para os cientistas, um laboratório natural perfeito para desvendar os mistérios da biodiversidade do triângulo.

Os peixinhos coloridos, nesse caso, são o que menos interessa. A equipe, composta por cerca de 40 biólogos americanos e indonésios, está de olho num grupo de organismos muito mais abundantes e diversificados que os peixes, mas que pouquíssimas pessoas já tiveram o privilégio de contemplar na região.

Liderada pelos renomados biólogos Paul Barber, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e Chris Meyer e Nancy Knowlton, do Instituto Smithsonian, a expedição tem como objetivo realizar os primeiros inventários de biodiversidade em “cabeças” (ou blocos) de corais mortos do triângulo. Uma estratégia que pode soar contraditória, mas não é. Quando uma colônia de corais morre, seu esqueleto calcário que fica para trás, permeado de frestas, túneis e cavernas, transforma-se num hábitat perfeito para muitas espécies de invertebrados que, assim como os insetos na superfície, compõem a maior parte da biodiversidade dos oceanos.

“Há muito mais coisas vivendo num recife além de peixes e corais”, observa Meyer, um especialista em caramujos. E a maioria delas vive dentro dos recifes, escondida dos olhares curiosos de turistas e cientistas.

Se o objetivo é amostrar o maior número de espécies com o menor volume de material possível, portanto, não há coisa melhor debaixo d”água que um pedaço de coral morto. Logo que os primeiros blocos chegam à superfície, fica fácil entender o porquê.

Armado de martelo e talhadeira, Meyer começa a quebrar um deles sobre uma bandeja. Ao redor da mesa, alunos e professores se espremem como crianças, de olhos arregalados, disputando ombro a ombro um espaço para ver o que sairá dali de dentro.

A cada martelada de Meyer, a vida parece jorrar de dentro do coral morto. Caranguejos, camarões, caramujos, lesmas, vermes, estrelas-do-mar, ouriços e até pequenos peixes e polvos fluem para dentro da bandeja amarela, de onde são rapidamente coletados com pinças e separados em copinhos plásticos transparentes.

“Foi surpreendente. Nunca imaginei que tivesse tanta coisa lá dentro”, confessa Defy Pada, de 28 anos, um dos alunos indonésios com mais experiência de mergulho no grupo.

A maioria dos organismos não tem mais que alguns centímetros. Ou até milímetros. Mas não importa. Tudo o que se move na bandeja é coletado. Não demora muito, começa a faltar espaço para tantos copinhos.

Laboratório improvisado. Como não há infraestrutura de pesquisa no local, o laboratório precisa ser improvisado no hotel. Ao redor da elegante cama de casal, forma-se uma linha de produção e processamento de amostras. Cada espécime passa por identificação preliminar, recebe um número de controle, é fotografada, catalogada, preservada em álcool e tem amostras de tecido colhidas para análise de DNA. Informações que, mais tarde, permitirão aos cientistas estudar em detalhe a composição, a estrutura e a história evolutiva desses organismos e de seus ecossistemas.

A euforia dos pesquisadores com a inundação de copinhos é evidente. Até mesmo entre os cientistas mais graduados, que já quebraram blocos de coral em várias partes do mundo, mas nunca no Triângulo dos Corais. “A diversidade de vida aqui é realmente incrível. De início, achamos que encontraríamos umas 200 espécies, mas vai ser muito mais que isso. Talvez umas 400 ou 500”, empolga-se Barber. “Garanto a você que tem mais espécies de crustáceos nesses copinhos que de peixes ali na praia.”

Ao fim de dois dias de trabalho intenso, 20 blocos de coral morto deram à luz mais de 2 mil espécimes de invertebrados – uma média de mais de cem animais por bloco (cada um deles não muito maior que uma caixa de sapatos). Sem contar as esponjas, algas e outros organismos que vivem agarrados ao esqueleto coralino. Nem as centenas de ouriços, vermes, caramujos, pepinos e estrelas-do-mar que foram devolvidos ao mar, por não serem o foco do estudo.

Processar, preservar e identificar tudo seria uma loucura, por isso os pesquisadores optam por manter apenas os organismos decápodes (com dez pernas), representados pelos caranguejos, camarões e lagostas – metodologia padrão para esse tipo de estudo.

É provável que vários dos organismos coletados sejam espécies novas. Mas não é isso o que mais interessa aos pesquisadores. O objetivo principal da pesquisa não é saber necessariamente “quais” espécies vivem ali, mas “quantas” – e de que tipo, com qual abundância e quais padrões de distribuição.

Sabendo isso para os decápodes, é possível fazer uma série de inferências maiores sobre a biodiversidade e o estado de saúde do ecossistema como um todo. O que importa é a diversidade do coletivo, mais que a identidade de seus indivíduos.

Fora dos padrões. O número exato de espécies só será definido mais adiante, com base numa combinação de análises genéticas e morfológicas. Mas os cientistas já não têm dúvidas de que encontraram algo fora dos padrões.

Bastava passar os olhos sobre os copinhos para perceber a incrível diversidade de formas, cores e tamanhos dos animais. Como num jogo de memória, era difícil encontrar figurinhas repetidas. Muitas espécies estavam representadas por apenas um ou dois indivíduos. “Um sinal de verdadeira diversidade”, ressalta o biólogo Seabird McKeon, da Rede de Ciências Marinhas do Instituto Smithsonian.

“De cada 100 indivíduos, 70 parecem ser diferentes, únicos”, espanta-se Meyer. “A quantidade de vida pode até ser a mesma de outros lugares, mas a diversidade de espécies representada nela é muito maior.”

Depois de duas madrugadas processando amostras, os pesquisadores ainda têm o trabalho de instalar 18 Estruturas Autônomas para Monitoramento de Recifes (Arms, em inglês), instrumentos submersos que funcionam como recifes artificiais para o recrutamento de larvas e pequenos animais (mais informações nesta pág.). Após um ano, eles serão recolhidos e examinados, dando aos cientistas mais uma amostra da biodiversidade “invisível” do triângulo.

“Vai ser muito interessante comparar os resultados daqui com os de outras partes do mundo”, observa Nancy, que pesquisa recifes de coral há mais de 40 anos e, mesmo assim, saiu de Pemuteran maravilhada. “Nunca vi tanta diversidade em tão pouco tempo.”

O último dia da expedição é dedicado a arrumar as malas e desfazer a metamorfose do laboratório. Saem os microscópios e livros de biologia; voltam os abajures, decorações e revistas de celebridades. Saem os cientistas, voltam os turistas. No livro de visitas que fica sobre a cabeceira da cama, o filho de Meyer deixa uma mensagem para os próximos hóspedes: “Vocês não imaginam a ciência que foi produzida aqui.”

 

Fonte : O Estado de São Paulo