Sem planejamento, bairros em Manaus são formados em lixões

Galhos de árvores, restos de construções e até eletrodomésticos impossibilitam a formação de gases subterrâneos nestas áreas, segundo o presidente do Ipaam, Antônio Stroski.

Manaus – Todas as áreas onde funcionavam antigos lixões na cidade de Manaus estão hoje ocupadas e representam riscos para a saúde das pessoas pela instabilidade e contaminação do solo. “Não se recomenda o consumo de alimentos que tenham sido cultivados nestas regiões da cidade, por causa do acúmulo de materiais químicos”, avalia o engenheiro agrônomo e diretor-presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Antônio Stroski.

Para Stroski, a ocupação destas áreas mostra a falta de planejamento na gestão dos resíduos sólidos. “Trata-se de um problema nacional e que também afeta o Amazonas, seja na capital ou, especialmente, no interior do Estado”, frisou.

O bairro Novo Israel, zona norte, foi totalmente construído em cima de um lixão. O surgimento do bairro coincide com a desativação da área de deposito de lixo e a inauguração do lixão no quilômetro 19 na rodovia AM-010, onde atualmente está instalado o aterro controlado de Manaus.

Na zona norte de São Paulo, a Companhia Ambiental do Estado (Cetesb) tenta desocupar um conjunto residencial construído em cima de um antigo lixão. Segundo a Companhia, a área corre risco de explosão por causa da presença de gás metano na região. “Em Manaus não há área residenciais construídas regiões com possibilidade de explosão por causa da existência de gás subterrâneo. Nos antigos lixões da cidade, não havia apenas resíduos orgânicos, mas também eletrodomésticos, galhos de árvores, entulho de construção civil e esta situação diluiu a quantidade de lixo orgânico e evita o acúmulo de gás”, explicou.

De acordo com Stroski, no caso de São Paulo, o lixão onde atualmente há risco de explosão era depósito apenas lixo doméstico, em que metade era lixo orgânico, maior produtor do gás.

Para o professor do curso de Engenharia Ambiental do Centro Universitário Luterano de Manaus (Ceulm/Ulbra), Paulo Frias, o caso de São Paulo é muito diferente dos lixões em Manaus. “A quantidade de lixo naquela região de São Paulo é muito maior do que qualquer outro lixão em Manaus e ocupa também uma área muito maior. Por isso é necessário que se faça um trabalho preventivo para evitar acidentes”, ressaltou.

A comerciante Elza Marques da Silva é uma das primeiras moradoras do bairro Novo Israel  e ela conta a resistência dos órgãos ambientais quando começou a invasão que deu origem ao bairro. “Eles diziam que a gente não podia ficar aqui porque tinha gás e era perigoso. Isto foi em 1986. As famílias resistiram, mesmo com o depósito de lixo que existia próximo à (Avenida) Torquato Tapajós”, lembra a comerciante que reside na Avenida Chico Mendes.

Áreas onde funcionavam antigos lixões da cidade de Manaus se tornaram bairros de classe média alta e regiões em desenvolvimento na capital. O Horto Municipal, no bairro Aleixo, zona centro-sul, foi um dos primeiros lixões da cidade, explicou Stroski. “A cidade terminava nas imediações da Avenida Álvaro Maia, então aquela era uma região fora da cidade. Com o crescimento da área urbana, ele se tornou uma zona residencial. O mesmo aconteceu com outros lixões que vieram depois”, explicou.

A área onde, atualmente, está instalada a Vila Olímpica de Manaus, no bairro Dom Pedro, zona centro-oeste da capital, também já foi um deposito de lixo. “Os materiais eram deixados na parte mais baixa de onde ficam as instalações da Vila Olímpica. Mas, em geral, eram provenientes de mutirões de limpeza realizados na cidade: galhos de árvores e restos de construções eram os principais materiais despejados naquele local”, explicou o diretor-presidente do Ipaam.

Gestão

A partir de 2 de agosto de 2012, todos os municípios brasileiros devem  apresentar um plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos. Segundo a Lei 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, os municípios que não tiverem o plano aprovado nos órgãos ambientais não terão crédito do governo federal.

Este trabalho é essencial porque através dos planos de gestão se faz um diagnóstico dos lixões, sistemas de coletas, a infraestrutura que os municípios dispõem, assim  como a qualificação e a quantificação dos resíduos.

O plano de gestão deve ser revisto a cada quatro anos, de acordo com a legislação.

“Uma das importâncias deste plano é porque o destino destes resíduos deve ser aproveitado com racionalidade e inteligência. Um dos maiores erros cometidos nos lixões do interior do Estado é a realização de queimas destes resíduos”, disse Strosk.

Infelizmente as pessoas pensam que colocar fogo no lixo resolve o problema. Ele está é poluindo a atmosfera”, avalia.

A Associação Amazonense de Municípios (AAM) comunicou ter firmado um convênio de R$ 1 milhão com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS), em março deste ano,  para investimentos em suporte, treinamento e coordenação das atividades em 61 municípios do Estado voltadas para a elaboração de seus respectivos Planos Municipais de Resíduos Sólidos até março de 2012, como determina a Lei 12.305.

Segundo técnicos da SDS, o município de Carauari (a 788 quilômetros a oeste de Manaus) não está incluso no projeto por ser o único em todo o Amazonas que possui instalações adequadas para os produtos descartados por sua população.

Fonte : PortalD24am

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