Investigação sobre lixo hospitalar pode se tornar um impasse diplomático

infográfico da FOLHA

A perícia do lixo hospitalar importado dos Estados Unidos, feita pelo Instituto de Criminalística de Pernambuco, só deve ficar pronta em 40 dias. Embora o adido do FBI no Brasil, Richard Cavalieros, tenha acompanhado na quinta-feira (20/10) o início dos trabalhos de identificação do nível de contaminação nos materiais apreendidos, um impasse diplomático começa a se desenhar. A cônsul dos Estados Unidos para o Nordeste, Usha Pitts, declarou que a legislação norte-americana permite a exportação do material. “É prematuro falar sobre a legalidade do caso e afirmar se houve alguma falha do governo americano. Neste caso específico, ainda estão sendo investigadas as responsabilidades”, afirmou Pitts.

Na contramão da lei norte-americana, a legislação brasileira proíbe a importação desse material. Por esse motivo, a Polícia Federal instaurou um inquérito para apurar as responsabilidades pelo desembarque de contêineres com lixo hospitalar vindos dos Estados Unidos, que apontam para a prática de crimes de contrabando e ambiental, além do uso de documento falso. A investigação pretende rastrear a compra do material e saber se o produto foi distribuído em outras partes do Brasil.

Em outra linha de investigação, o Ministério Público do Trabalho confirmou a prática de trabalho infantil na empresa Na Intimidade, cujo nome fantasia é Império do Forro de Bolso, que teve 46t de lixo hospitalar apreendidas no Porto de Suape, na semana passada, e outros depósitos lacrados pela Vigilância Sanitária. Embora os dois empregados identificados no caso tenham 16 anos, idade mínima para contratação estabelecida na Constituição, eles não poderiam atuar em atividades perigosas ou insalubres, de acordo com a procuradora Ana Carolina Ribemboim.

Perícia
Os desdobramentos do caso dependerão, em parte, dos achados da perícia. Segundo a gerente interina do laboratório do Instituto de Criminalística de Pernambuco, Flávia Valéria Santiago dos Santos, a lei determina que o laudo saia em 10 dias, podendo ser esse prazo prorrogado por igual período. No entanto, dependendo do andamento das investigações sobre o caso, o laudo pode demorar ainda mais. De acordo com Flávia, o material já começou a ser periciado por farmacêuticos, bioquímicos e biomédicos. “Fizemos a parte pericial, ou seja, as fotografias, a descrição dos materiais e a medição. Agora, os tecidos estão em análise química para descobrirmos se há sangue ou outras substâncias.”

Autoridades recolheram, nesta semana, lençóis importados dos Estados Unidos e que estavam sendo reutilizados no Hospital Regional Belarmino Correia, na cidade de Goiana, em Pernambuco. Quatro lojas foram fechadas em Santa Cruz do Capibaribe (PE) por venda irregular dos tecidos usados por hospitais americanos. No comércio da cidade, que faz parte do polo de confecções do estado, o segundo maior do país, o caso virou piada. Além de vender roupas pelo avesso, aos vendedores se acostumaram com o alerta dos clientes: “Não quero bolso americano, não”, em referência aos forros feitos de descarte hospitalar.

Exames de saúde
A Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco vai submeter os funcionários da Império do Forro de Bolso a um inquérito epidemiológico a fim de obter informações sobre os trabalhadores que tiveram contato com os resíduos hospitalares, as formas de manuseio das peças, as precauções tomadas e se algum deles apresentou problema de saúde após o contato. Caso seja necessário, os empregados serão submetidos a exames, como a coleta de sangue.

Fonte : Correio braziliense

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