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Degelo de geleiras redesenha fronteira entre Itália e Suíça

As negociações diplomáticas acerca da redefinição do território duraram três anos e foram concluídas em 2021, mas os detalhes da deliberação são sigilosos.

Por France Presse

Foto panorâmica do observatório de geleiras, no Glaciar Theodul — Foto: Wikimedia Commons
Foto panorâmica do observatório de geleiras, no Glaciar Theodul — Foto: Wikimedia Commons

No alto dos Alpes nevados, a uma altitude de 3.480 metros, as consequências das mudanças climáticas alteraram a fronteira entre a Suíça e a Itália, provocando uma disputa sobre a localização de um refúgio de montanha italiano que agora fica do lado suíço.

A linha de fronteira entre os dois países é determinada pelo fluxo de água do degelo, que corre em direção de um país ou outro.

No entanto, o recuo da geleira Theodul significa que a bacia deslizou em direção ao Rifugio Guide del Matterhorn, adjacente ao pico Testa Grigia, com 3.480 metros de altitude, passando gradualmente abaixo do refúgio.

A situação surpreende atletas e turistas, como Frederico, de 59 anos, que, ao ver o cardápio em italiano com preços em euros, em vez de francos alemães e suíços, pergunta: “Estamos na Suíça, ou na Itália?”

A pergunta é válida, e a resposta foi alvo de negociações diplomáticas que começaram em 2018 e foram concluídas no ano passado. Os detalhes do acordo permanecem em segredo.

Dormir do lado suíço

Quando o abrigo foi construído em um afloramento rochoso em 1984, suas 40 camas e longas mesas de madeira estavam inteiramente do lado italiano. Agora, dois terços do albergue, incluindo a maioria das camas e o restaurante, estão tecnicamente no sul da Suíça.

A questão voltou à tona porque a área, dependente do turismo, está localizada no topo de uma das maiores estâncias de esqui, e uma nova estação de teleférico está sendo construída a poucos metros de distância.

Um acordo foi feito em novembro de 2021, em Florença, mas o resultado será revelado apenas quando aprovado pelo governo suíço, o que não acontecerá antes de 2023.

“Concordamos em dividir a diferença”, disse Alain Wicht, chefe de fronteiras da agência suíça de mapeamento Swisstopo, à AFP.

Seu trabalho inclui guardar 7.000 marcadores ao longo dos 1.935 km da fronteira suíça com França, Itália, Alemanha, Áustria e Liechtenstein.https://1b43ac7f576974e4e995e3ffaef85c0c.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Wicht participou das negociações, nas quais ambos os lados fizeram concessões para encontrar uma solução em que “mesmo que nenhum dos lados ganhasse, pelo menos ninguém perderia”.

Linha na neve

A fronteira ítalo-suíça atravessa geleiras ao longo da bacia hidrográfica e somente a geleira Theodul perdeu quase um quarto de sua massa entre 1973 e 2010. Esse processo expôs rochas sob o gelo e alterou a divisão de drenagem, forçando os dois vizinhos a redesenharem cerca de 100 metros de sua fronteira.

Segundo Wicht, esses ajustes eram frequentes e tendiam a ser resolvidos sem envolver políticos. “Estamos discutindo sobre um território que não vale muito”, disse. Neste caso, “é o único sítio que envolvia uma propriedade”, que dava “valor econômico” ao terreno.

Seus colegas italianos se recusaram a comentar, “devido à complexa situação internacional”. O ex-chefe da Swisstopo Jean-Philippe Amstein disse que essas disputas geralmente são resolvidas com a troca de parcelas de terra equivalentes em tamanho e valor.

Neste caso, “a Suíça não está interessada em obter um pedaço da geleira”, explicou, “e os italianos não podem compensar a perda de superfície suíça”.

“O vinho é italiano”

Embora o resultado do acordo seja secreto, o zelador do abrigo, Lucio Trucco, de 51 anos, foi informado de que o local permanecerá em solo italiano.

“O abrigo ainda é italiano porque sempre fomos italianos. O cardápio é italiano, o vinho é italiano, e os impostos são italianos”, afirmou.

Anos de negociações adiaram a reforma do refúgio, uma vez que nenhuma das cidades de ambos os lados da fronteira podia emitir licença de construção.

As obras não serão concluídas a tempo da inauguração de um novo teleférico no lado italiano do Monte Klein Matterhorn, que está prevista para o final de 2023.

Algumas estações de esqui de altitude média estão se preparando para fechar as operações, devido ao aquecimento global, mas é possível esquiar no verão nas encostas de Zermatt-Cervinia, embora isso contribua para o recuo da geleira.

“Por isso temos que valorizar a área aqui, porque com certeza será a última a morrer”, comentou Trucco.

Por enquanto, nos mapas da Swisstopo, a sólida faixa rosa da fronteira suíça continua sendo uma linha tracejada ao passar pelo abrigo.

Fonte: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2022/07/26/degelo-de-geleiras-redesenha-fronteira-entre-italia-e-suica.ghtml