Mudança climática: como é viver onde faz 50ºC?

A BBC conversou com pessoas ao redor do mundo sobre como o calor extremo está mudando suas vidas.


Em casas como a de Shakeela, as temperaturas agora chegam a 46°C — Foto: BBC
Em casas como a de Shakeela, as temperaturas agora chegam a 46°C — Foto: BBC

Por BBC, via G1

A crise climática não é mais uma preocupação sobre o futuro. Em muitas partes do mundo, ela já começou.

O ano de 2021 foi o mais quente já registrado. Milhões de pessoas estão vivendo em temperaturas extremas, enfrentando uma ameaça crescente de enchentes ou incêndios florestais.

A seguir, cinco pessoas em diferentes partes do mundo explicam como as temperaturas extremas mudaram suas vidas.

‘Temos muitas noites sem dormir’

Shakeela Bano costuma colocar as roupas de cama de sua família na laje de sua casa de um andar na Índia. É que algumas noites são muito quentes para dormir dentro de casa. Mas a superfície pode estar quente demais para andar.

“É muito difícil”, diz ela. “Temos muitas noites sem dormir.”

Shakeela mora com o marido, a filha e três netos em um quarto sem janelas em Ahmedabad. Eles têm apenas um único ventilador de teto para mantê-los frescos.

Com a mudança climática, muitas cidades na Índia estão agora atingindo 50°C. As áreas densamente povoadas e construídas são particularmente afetadas por algo conhecido como efeito de ilha de calor urbana. Materiais como concreto prendem e irradiam calor, elevando as temperaturas. E não há trégua à noite, quando pode, na verdade, ficar mais quente.

Em casas como a de Shakeela, as temperaturas agora chegam a 46°C. Ela fica tonta com o calor. Seus netos sofrem de erupções cutâneas, exaustão pelo calor e diarreia.

Os métodos tradicionais para se manter fresco, como beber água com limão, não funcionam mais. Em vez disso, eles pediram dinheiro emprestado para pintar o telhado de sua casa de branco. As superfícies brancas refletem mais luz do sol e uma camada de tinta branca no telhado pode reduzir as temperaturas internas em 3 a 4 graus.

Para Shakeela, a diferença é enorme; o quarto é mais fresco e as crianças dormem melhor. “Ele não dormia durante a tarde”, diz ela, apontando para o neto adormecido. “Agora ele pode adormecer em paz.”

‘Quente como fogo’

Para evitar temperaturas acima de 45°C no verão, Sidi começou a trabalhar à noite — Foto: BBC
Para evitar temperaturas acima de 45°C no verão, Sidi começou a trabalhar à noite — Foto: BBC

“Eu venho de um lugar quente”, diz Sidi Fadoua. Mas o calor no norte da Mauritânia, no oeste da África, agora é quente demais para muitas pessoas viverem e trabalharem. O calor aqui não é normal, diz ele. “É como fogo.”

Sidi, de 44 anos, mora em uma pequena vila perto dos limites do Saara. Ele trabalha como mineiro de sal em locais próximos. O trabalho é árduo e fica mais difícil à medida que a região esquenta devido às mudanças climáticas. “Não podemos suportar tais temperaturas”, diz ele. “Não somos máquinas.”

Para evitar temperaturas acima de 45°C no verão, Sidi começou a trabalhar à noite.

As perspectivas de emprego são escassas. Aqueles que antes ganhavam a vida criando gado não podem mais fazer isso – não há plantas para as ovelhas e cabras pastarem.

Assim como um número cada vez maior de seus vizinhos, Sidi tem planos de migrar para a cidade costeira de Nouadhibou, onde a brisa do mar mantém a cidade mais fresca. Os moradores locais podem pegar uma carona lá em um dos trens mais longos do mundo, levando minério de ferro para a costa.

Na Mauritânia, Sidi tem planos de migrar para a cidade costeira de Nouadhibou, onde a brisa do mar mantém a cidade mais fresca. — Foto: g1
Na Mauritânia, Sidi tem planos de migrar para a cidade costeira de Nouadhibou, onde a brisa do mar mantém a cidade mais fresca. — Foto: g1

“As pessoas estão se mudando daqui”, explica Sidi. “Não aguentam mais o calor.”

A rota de 20 horas é perigosa. Os moradores locais podem sentar-se no topo das carruagens, onde são expostos ao calor e à luz solar durante o dia, antes que as temperaturas caiam muito à noite.

Em Nouadhibou, ele espera encontrar trabalho na indústria pesqueira. A brisa pode trazer alívio, mas, com o número cada vez maior de pessoas escapando do calor do deserto, é mais difícil encontrar oportunidades de trabalho. Sidi continua esperançoso.

Fonte: https://g1.globo.com/meio-ambiente/aquecimento-global/noticia/2021/11/03/mudanca-climatica-como-e-viver-onde-faz-50oc.ghtml