Dos lobistas do café a Jair Renan, a face política do agronegócio capixaba

Retrospectiva do De Olho nos Ruralistas mostra face capixaba do agronegócio; Jair Renan Bolsonaro ganhou carro elétrico dos pecuaristas Thomazini; no Congresso, bancada se une a Minas nas negociações em prol de seus financiadores, os cafeicultores

Por Luís Indriunas, eDe Olho nos Ruralistas

Entre doações de pecuaristas e cafeicultores, a bancada ruralista e o agronegócio do Espírito Santo se alinham ao bolsonarismo. Vem do território capixaba o carro elétrico que o filho zero quatro do presidente Bolsonaro, Jair Renan, ganhou. De Olho nos Ruralistas apontou em março que “Grupo Thomazini, que doou carro para Jair Renan, também faz fortuna na pecuária”. Os interesses comuns são claros. Jair Renan tem uma empresa de feiras de agronegócio, a família Thomazini roda o país vendendo seu gado super reprodutor justamente em feiras agropecuárias.

Lobby em defesa dos produtores de café é marca da bancada capixaba”, apontou o observatório antes das eleições de 2018. No ano anterior, dois ruralistas capixabas, o então senador Ricardo Ferraço, na época do PSDB, e o deputado federal Evair de Melo (PSL) trabalharam para evitar a diminuição dos impostos sobre importação de café, pressionando o planalto. Mostramos essa articulação: “Temer manda Maggi conversar com ‘bancada do café’ sobre importação”. Ferraço não venceu a reeleição, mas o agronegócio continua ativo com Evair de Melo reeleito e mais duas parlamentares, a senadora Rose de Freitas (MDB) e a deputada Soraya Manato (PSL), somando-se ao lobby.

Espírito Santo é o sétimo estado brasileiro que apresentamos no conjunto de matérias que traz uma retrospectiva dos cinco anos do De Olho nos Ruralistas. A balanço começou pelo sul: na ordem, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A série continuou na região Sudeste, com São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A série continuará com Nordeste, Norte e Centro-Oeste.

RURALISTAS SEM PROPRIEDADE: QUE BENS POSSUEM OS CAPIXABAS?

Ao lado de parlamentares mineiros, Evair de Melo, que é vice-líder do governo na Câmara, faz parte do que pode ser definida como a “bancada do café”. Em 2017, ela se mobilizou contra a disposição do governo de abrir o mercado para a importação de café. Melo chegou a criar um movimento contra a importação do produto.

Entre os doadores de Evair em 2014, quando se elegeu pela primeira vez, estavam a Unicafé Comércio Exterior, que exporta o produto. Na época, outras empresas do agronegócio doaram para o deputado capixaba, como a Fibria Celulose e a Fertilizantes Heringer.

Mesmo sem a reeleição de Ferraço, Evair não é o único integrante do Espírito Santo na Frente Parlamentar da Agropecuária. No Senado, Rose de Freitas (MDB), dona de dois sítios no Espírito Santo, também faz parte da FPA. Sua atuação coincide com a pauta dos doadores, como a Fibria e a Cooper Trading, empresa de comércio de insumos e equipamentos para agropecuário, cujo dono é seu suplente Luiz Pastore (MDB). Só a empresa de Pastore foi responsável por um quinto dos R$ 5 milhões que a senadora teve como incentivo na campanha de 2014.

Rose de Freitas foi relatora do projeto de lei 05/21 que prorrogou por quinze anos incentivos fiscais do ICMS concedidos ao comércio atacadista e às vendas e transporte de produtos agropecuários, ramo de Pastore.

O empresário e suplente da senadora foi também financiador da campanha de Ferraço, que acabou perdendo. O ex-senador saiu do PSDB para ingressar no DEM, aproximando-se do bolsonarismo. O senador é o potencial candidato do presidente para concorrer às eleições de 2020.

Mas a FPA não ficou exatamente desfalcada de capixabas. Em um dos casos ela teve uma simples troca de parentes: o ex-deputado Carlos Manato foi candidato a governador do Espírito Santo pelo PSL. Perdeu a eleição, mas conseguiu emplacar sua mulher, Soraya Manato, como deputada pelo mesmo partido, substituindo o marido na frente parlamentar.

Soraya é outra ruralista sem terras declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas que trabalha para o agronegócio. Ela apresentou um projeto de lei que aumenta a pena em dois terços para os crimes de furto e de roubo praticados em área rural. Soraya é uma bolsonarista ativa nas redes sociais e em defesa do presidente.

POR QUE O FILHO DE BOLSONARO GANHOU CARRO DE EMPRESÁRIOS?

Jair Renan Bolsonaro, conhecido como o filho zero quatro do presidente, recebeu um carro elétrico de R$ 90 mil da Neon E. Motors. Foi presente da família Thomazini. De Olho nos ruralistas colocou uma lupa na face agropecuária da família, esquecido pelo jornal O Globo, que destacou a atuação do grupo na mineração e na construção civil.

Os Thomazini têm a Fazenda 3JR, especializada no gado caribenho senepol, cujo touro é caracterizado por uma forte libido. Os Thomazini rodam o país em eventos do setor, promovendo as crias. A empresa que possui o maior rebanho da raça no Espírito Santo é comandada por Jhonatan Thomazini, o mesmo empresário por trás da concessionária de veículos, que deu o carro para Jair Renan.

Jair Renan é o único sócio da Bolsonaro Jr Eventos e Mídia — ou RB Eventos e Mídia Eireli, que promove leilões e feiras agropecuárias pelo país. O caçula dos Bolsonaro atua para que empresas do grupo Thomazini tenham acesso ao governo. Em uma ocasião, pelo mesmo, os empresários se reuniram com o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Fora da agenda oficial, seria para apresentar um projeto de casas populares. Os Thomazini também atuam em mineração e construção civil.

A Fazenda 3JR não é uma empresa qualquer no setor: em julho de 2020, por exemplo, comprou por R$ 26 milhões uma fazenda que pertencia ao ex-deputado federal Camilo Cola (MDB-ES), quase centenário. E que tinha sido avaliada pela família, há dez anos, por R$ 105 mil.

EM CINCO ANOS, OBSERVATÓRIO EXPÕE OS DONOS DO BRASIL

A comemoração dos cinco anos do De Olho nos Ruralistas tem ainda várias peças de divulgação, visando a obtenção de mais 500 assinaturas, por um lado, e levar as informações a um público mais amplo, por outro. É urgente a necessidade de o país conhecer melhor o poder dos ruralistas e de formar no Congresso uma bancada socioambiental, um conjunto de parlamentares que defendam direitos elementares, previstos na Constituição e nos pactos civilizatórios internacionais dos quais o Brasil é signatário.

| Luís Indriunas é editor do De Olho nos Ruralistas. |

Fonte: https://deolhonosruralistas.com.br/2021/10/18/dos-lobistas-do-cafe-a-jair-renan-a-face-politica-do-agronegocio-capixaba/