A crescente crise socioambiental e o pouco tempo que nos resta

Perda de biodiversidade, pandemias e horizontes: “O tempo agora trabalha contra nós”, avalia Luiz Marques

Por Jonas Jorge da Silva, IHU

Amparado em dados científicos, convicto da transversalidade da crise socioambiental e de que as respostas aos seus problemas estruturais só podem ser alcançadas por decisões tomadas democraticamente, Luiz Marques, professor livre-docente do Departamento de História, da Universidade Estadual de Campinas, apresentou um amplo panorama das causas da atual crise pandêmica. Na verdade, colocou-a em seu devido lugar no amplo leque das ameaças à sobrevivência de nossa espécie.

Sua exposição se deu no marco do debate [online] Crise sanitária: da perda de biodiversidade à era das pandemias, quarto encontro da série de debates Crise sistêmica, complexidade e desafios planetários, realizado no último dia 19 de junho.

A iniciativa conta com a parceria e o apoio de diversas instituições: Instituto Humanitas Unisinos – IHUNúcleo de Direitos Humanos da PUCPRConselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLBComunidades de Vida Cristã – CVXObservatório Nacional Luciano Mendes de Almeida – OLMA e Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Maringá.

Marques, autor do livro Capitalismo e colapso ambiental, 2015, 3ª edição, 2018, iniciou sua exposição com uma frase do entomologista estadunidense Edward Wilson: “Destruir uma floresta tropical para obter ganho econômico é como queimar uma pintura do Renascimento para cozinhar uma refeição”. E avaliou a atual destruição das florestas como um suicídio para a humanidade.

Fazendo menção à sexta extinção em massa, enfatizou que não há precedentes na história em relação ao impacto que a ação humana provoca na biodiversidade do planeta. Nesse sentido, fez uma síntese do artigo Underestimating the Challenges of Avoiding a Ghastly Future [Subestimando os desafios para evitar um futuro pavoroso], publicado por 17 pesquisadores, em janeiro desse ano, no periódico Frontiers in Conservation Science, levantando nove constatações:

1. A biomassa da vegetação terrestre foi reduzida em 50%, nos últimos 11.000 anos (Holoceno);

2. Houve perda de mais de 20% de sua biodiversidade original;

3. O Homo sapiens alterou mais de 70% da superfície terrestre da Terra;

4. Houve extinções de mais de 700 espécies de vertebrados documentados e cerca de 600 espécies de plantas, nos últimos 500 anos;

5. O tamanho da população de espécies de vertebrados monitoradas diminuiu em média 68%, desde 1970, com certos grupos populacionais em declínio extremo;

6. Cerca de 1 milhão de espécies eucarióticas podem se extinguir, nos próximos poucos decênios (IPBES 2019);

7. Cerca de 40% das plantas estão em perigo de extinção;

8. A biomassa global de mamíferos selvagens é menos de 25% daquela estimada para o Pleistoceno Superior (355.000 a 82.800 mil anos AP);

9. Os insetos estão desaparecendo rapidamente em muitas regiões (90% da vitamina C de que precisamos provém de frutas, verduras, óleos e sementes polinizados por insetos).

Diante desse panorama, segundo Marques, a situação é tão grave que Robert Watson, diretor da IPBES [Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos], em uma entrevista, reconheceu que “o tempo para a ação era ontem ou anteontem” e que “proteger a biodiversidade é tão importante quanto combater as mudanças climáticas”.

De fato, de acordo com as informações da IPBES, “1 milhão de espécies ou 12,5% das 8 milhões de espécies (Eukariota) estimadas na Terra podem se extinguir nas próximas poucas décadas”. Marques chamou a atenção, por exemplo, para os riscos relacionados à extinção dos polinizadores, que pode comprometer seriamente a produção de alimentos no mundo.

Sendo assim, apresentou alguns dados em relação à nossa dependência dos polinizadores: das 141 espécies de plantas cultivadas no Brasil, cerca de 60% (85 espécies) dependem da polinização animal; 90% da vitamina C provém de frutas, verduras, óleos e sementes polinizados por insetos; e os polinizadores também melhoram ou estabilizam as colheitas de três quartos das culturas agrícolas, ou um terço das colheitas por volume.

Outro elemento preocupante é o uso intensivo de agrotóxicos nas plantações. De acordo com informações de Luciana de Oliveira e Rikardy Tooge, em reportagem para o G1, só em 2019, o Brasil aprovou o registro de 474 agrotóxicos, o maior número registrado pelo Ministério da Agricultura, desde 2005, quando começou a fazer essa divulgação. Para um melhor aprofundamento sobre o tema, Marques recomendou o trabalho de Larissa Mies Bombardi, intitulado Geografia do uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, de 2017.

Para exemplificar como a perda da biodiversidade está acelerada, Marques comparou a Terra a uma bateria. Para isso, recorreu ao artigo Human domination of the biosphere: Rapid discharge of the earth-space battery foretells the future of humankind [Dominação humana da biosfera: a rápida descarga da bateria do espaço terrestre prediz o futuro da humanidade], dos pesquisadores John RSchramskiDavid KGattie e James HBrown, publicado na revista científica estadunidense PNAS.

De acordo com os pesquisadores, “a Terra é uma bateria química onde, ao longo da evolução, com uma carga lenta de fotossíntese usando energia solar, bilhões de toneladas de biomassa viva foram armazenadas em florestas e outros ecossistemas e em vastas reservas de combustíveis fósseis”. A questão é que o sistema econômico globalizado está descarregando essa bateria de forma muito rápida.

Entre tantos outros elementos problematizados, Marques deu grande ênfase ao desmatamento e suas consequências. Conforme apontou, “o desmatamento tropical global vem aumentando desde 2014, data da assinatura da Declaração de Nova York sobre as Florestas. Com a exposição de gráficos e estatísticas, lamentou a aceleração da destruição das florestas brasileiras, sem deixar de mencionar os responsáveis, passando pelos militares e os subsequentes governos civis, com suas coalizões políticas dominadas pelo agronegócio. “Em apenas 50 anos (1970-2020), quase 2 M de km2 da cobertura vegetal brasileira” foram destruídas, mencionou.

Com dados do IPCC 2007, Marques também lembrou que “as mudanças no uso do solo (principalmente desmatamento nos trópicos) são responsáveis por até um terço do total de emissões antrópicas de CO2”. Nessa direção, a pecuária é responsável por 80% do desmatamento da Amazônia brasileira.

Nos últimos anos, o desmatamento da Amazônia vem batendo recordes. De acordo com dados de monitoramento por satélite, divulgados em julho de 2020 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, houve um aumento de 34% no desmatamento da região amazônica, nos últimos 12 meses. Soma-se a essa problemática os incêndios na Amazônia, em sua grande maioria provocados por fazendeiros, e o aumento das secas na mesma região.

Marques fez menção a três graves secas vividas na região amazônica, nos anos de 2005, 2010 e 2015/16. “A floresta perdeu 38% mais biomassa na seca de 2010 do que na seca de 2005. A seca de 2010 foi 1,6 maior que a de 2005. Quanto à seca de 2016, sua gravidade é sem precedentes”, destacou. Percebe-se, portanto, um agravamento das secas.

Com anos cada vez mais secos e uma disparada no desmatamento, assiste-se a uma diminuição dos “rios voadores”, com o visível impacto na quantidade de chuvas que chegam ao sudeste e sul do Brasil, o que demonstra a forte conexão e dependência entre todos os biomas. Nesse sentido, os impactos sobre a agricultura e a produção de alimentos também se veem agravados, com previsões nada otimistas sobre os plantios.

Além disso, Marques também explicitou como por trás do desmatamento tropical temos o forte financiamento do sistema bancário, ressaltando que os bancos brasileiros são os principais credores do desmatamento. Citando estudos da organização Global Witness, revelou que “mais de 300 bancos e investidores apoiam seis dos mais destruidores agronegócios do mundo, no valor de 44 bilhões de dólares”: 1) JBS S.A (Brasil), 2) Marfrig Global (Brasil), 3) Minerva Foods (Brasil), Halcyon Agri Corp (Singapura), Grupo Olam (Singapura) e Grupo Rimbunan Hijau (Malásia).

Por fim, após apresentar todos esses aspectos da crise ecológica, chegou ao tema das pandemias e zoonoses, favorecidas pela perda de biodiversidade. Entre os fatores que favorecem as doenças zoonóticas, citou o desmatamento e outras mudanças no uso do solo, a intensa produção agrícola e pecuária, o comércio ilegal ou irregular de animais silvestres, a resistência antimicrobiana e a mudança climática, a partir de dados do Relatório Fronteiras 2016, do PNUMA.

Na avaliação de Marques, “mais pandemias resultam da ação combinada do aquecimento global, o desmatamento e o aumento dos rebanhos”. Sendo assim, fez referência a um fragmento do livro “La prochaine peste” (2012), de Serge Morand, que já indicava: “Desde 1960, humanos, animais e vegetais sofrem o que eu chamo uma epidemia de epidemias. Há cada vez mais epidemias por ano, cada vez mais enfermidades diferentes, que são cada vez mais compartilhadas entre os países e se tornam, portanto, pandemias. Cerca de 70% dessas novas epidemias estão associadas aos animais selvagens e domésticos, a mesma proporção das epidemias históricas. Mas o que muda e cria as condições de sua explosão é a combinação de três fatores: perda de biodiversidade, industrialização da agricultura – que acentua essa perda – e o aumento disparado do transporte de mercadorias e pessoas”.

Fortalecendo esse argumento, também citou o jornalista e divulgador científico David Quammen, que em artigo intitulado “We made the Coronavirus Epidemic”, de janeiro de 2020, também sentenciava: “Invadimos as florestas tropicais e outras paisagens selvagens, habitats de tantas espécies de animais e plantas – e dentro dessas criaturas, tantos vírus desconhecidos. Derrubamos árvores; matamos animais ou os enjaulamos e os enviamos aos mercados. Desorganizamos ecossistemas e arrancamos os vírus de seus hospedeiros naturais. Quando isso acontece, eles precisam de um novo hospedeiro. Frequentemente somos esse novo hospedeiro. Devemos lembrar, quando a poeira assentar que a covid19 não é um evento novo ou infortúnio que se abateu sobre nós. Foi e é parte do padrão de escolhas que nós, os humanos, estamos fazendo”.

Por fim, também fundamentou a análise com o estudo intitulado COVID-19 Stimulus Measures Must Save Lives, Protect Livelihoods, and Safeguard Nature to Reduce the Risk of Future Pandemics [Medidas de estímulo econômico para minimizar efeitos da COVID-19 devem salvar vidas, proteger meios de subsistência e salvaguardar a natureza para reduzir o risco de futuras pandemias], de Peter Daszak, Josef Settele, Sandra Díaz e Eduardo Brondizio. Nele, os autores avaliam que “as pandemias recentes são uma consequência direta da atividade humana – particularmente de nosso sistema financeiro e econômico global baseado num paradigma limitado, que preza o crescimento econômico a qualquer custo”.

Também é preciso lembrar que o aquecimento global propicia um ambiente favorável às pandemias, pois, por exemplo, com temperaturas muito altas há uma perca da eficiência do sistema imune dos mamíferos, além de se constatar um maior raio de ação de vetores de epidemias, como são os casos da denguezika e chikungunya, entre outros fatores citados.

Marques reforçou que “a covid19 é a maior crise sanitária global dos últimos 100 anos (após a gripe espanhola de 1918-1919)”. Mesmo assim, reconheceu que a crise sanitária passará, mas o que “não passará e só piorará é a ação conjugada das ameaças sistêmicas à sociedade e à espécie humana”: 1) a emergência climática, 2) a aniquilação da biodiversidade, 3) a intoxicação industrial dos organismos.

Tendo em vista que o debate estava ocorrendo no mesmo dia em que segmentos da sociedade civil conclamavam as pessoas a irem às ruas para pedir a saída de Bolsonaro da presidência, Marques ofereceu quatro motivos para o seu impeachment, definidos no seu estímulo a quatro crises sistêmicas: a aceleração do aquecimento global, a destruição da biodiversidade, a poluição (sobretudo através dos agrotóxicos) e a pandemia.

Durante o debate com os participantes, Marques mencionou que a humanidade não está desarmada do ponto de vista científico e sabe o que fazer: abandonar os combustíveis fósseis, redefinindo suas expectativas de consumo de energia.

Em sua avaliação, os combustíveis fósseis deram à humanidade um progresso excepcional, mas que agora, por causa de sua grande exploração, há um desequilíbrio em nossa era geológica, que conduz a humanidade em um caminho de desestabilização do sistema climático.

Para pensar em saídas viáveis, Marques defendeu um aprofundamento da democracia. É preciso que democraticamente sejamos capazes de decidir o que faremos com os nossos recursos estratégicos. Hoje, estamos sofrendo as decisões de grupos que estão agindo em prol de lucros imediatos, nada preocupados com a sustentabilidade de nossas condições de sobrevivência.

A solução de diversos problemas, entre eles a desigualdade, dependerá de nossa capacidade política, pois os políticos, mesmos os que estão à esquerda, estão muito atrasados em relação aos desafios apontados pela ciência. Para vencer as resistências dos interesses econômicos, o debate socioambiental precisa se dar em termos de estratégias em prol da própria sobrevivência da humanidade.

A bandeira da luta por justiça social, defendida por amplos setores da sociedade, precisa estar associada ao modo como nos relacionamos com a natureza. Segundo Marques, não é possível resolver os problemas socioambientais que nos cercam, caso não toquemos nas estruturas da sociedade. É preciso mudar a nossa relação com a energiadesmontar a indústria química e a indústria do petróleo.

Enfim, em sua avaliação, o tempo agora trabalha contra nós, sendo assim, o imperativo é agir.

Matéria Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/23/a-crescente-crise-socioambiental-e-o-pouco-tempo-que-nos-resta/