RS: agricultores orgânicos cobram reparação de danos em audiência pública

Avião sobrevoou assentamento em Nova Santa Rita (RS) e pulverizou agrotóxico sobre produção e moradia
Assentamento Santa Rita de Cássia 2 vai cobrar reparação por danos sofridos pela pulverização aérea sobre suas propriedades por avião de propriedades vizinhas – Divulgação

por Pedro Neves Dias, via Brasil de Fato

Produtores orgânicos do Assentamento Santa Rita de Cássia 2, de Nova Santa Rita (RS), irão denunciar a pulverização ilegal em suas propriedades por uma avião estranho que jogou agrotóxicos sobre suas plantações e moradias. Os produtores participarão da Tribuna Popular da Câmara de Vereadores de Nova Santa Rita, nesta terça-feira (1), às 18h. É possível acompanhar as transmissões no canal do Youtube do legislativo da cidade.

Os assentados relatam que a produção e moradias de cerca de 20 das 100 famílias foram afetadas, após o avião utilizado para fumigação de insumos químicos sobrevoar a região. Durante os dias 11 e 12 de novembro, diversas pessoas sentiram dor de cabeça e enjoo, sintomas relacionados à intoxicação por venenos. Além disso, os agricultores atingidos perderam os alimentos orgânicos que estavam sendo produzidos e tiveram hortas, aquíferos, pastagens, pomares de árvores frutíferas e vegetação nativa contaminados.

Segundo informam os agricultores, através de contato com a reportagem, o Assentamento Santa Rita de Cássia 2 faz divisa com a Granja Nenê, onde se planta arroz convencional e se utiliza a pulverização de agrotóxico. Logo após o avistamento da aeronave sobrevoar sua propriedade, os agricultores já perceberam os prejuízos na produção, como folhas queimadas e variedades que morreram por completo.


Agricultores agroecológicos tiveram produção danificada pela pulverização de veneno por propriedades vizinhas / Divulgação

Diversas entidades foram informadas do ocorrido e chamadas até a propriedade para verificar a situação. Foram colhidas amostras para a emissão de uma análise em laboratório, que deve ficar pronta em dezembro. Além disso, foi emitido um laudo técnico com observações visuais atestando a contaminação por agrotóxicos. Foi registrado também um boletim de ocorrência (BO) na Polícia Civil e feita denúncia na Secretaria de Meio Ambiente de Nova Santa Rita e no Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS), devido aos sintomas de intoxicação relatados pelos agricultores.

Agricultores organizados cobram reparação

Augusto Olsson é agricultor do assentamento Santa Rita de Cássia 2 e teve sua casa e produção de alimentos atingidos pela pulverização. Ele informa que sua filha teve fortes dores de cabeça e ânsia de vômito. Relata também que, inicialmente, não fez a conexão entre o sobrevoo do avião pulverizador e o mal estar de sua filha. Porém, cerca de dois dias depois, conversando com os vizinhos e identificando que diversas pessoas tiveram sintomas semelhantes, puderam identificar que ali apresentavam-se sintomas de contaminação venenosa.

Sobre o espaço cedido na Tribuna Popular do Legislativo da cidade, disse: “Temos essa audiência pública na Câmara onde vamos fazer a denúncia da pulverização área que houve sobre o nosso assentamento, temos notícias de que ocorreu em outros lugares também. O objetivo é pedir a apuração dos responsáveis”.

Além de exigir apuração dos fatos, responsabilização e indenização das famílias que perderam sua produção de subsistência e para comércio, Olsson informa que os agricultores querem propor uma lei municipal que proíba as pulverizações aéreas: “Nova Santa Rita é a terra dos orgânicos, é inadmissível que haja pulverização de agrotóxicos”.

As próprias famílias de agricultores dos assentamentos estão se organizando para colher assinaturas, com o objetivo de encaminhar um projeto de lei de iniciativa popular para atingir este objetivo. 

Existe o relato entre os assentados de que essa situação já ocorreu em anos anteriores, neste mesmo período, quando são aplicados os agrotóxicos no cultivo de arroz convencional. Desta vez, as famílias da região decidiram tomar as medidas para proteger sua saúde e a produção agroecológica da cidade.

Preocupação com a saúde da população

Olsson ainda informa que a ideia do projeto de lei é proibir a pulverização aérea de agrotóxicos na cidade, considerando que é possível a convivência entre os cultivos convencionais e o ecológico, mas ressalta: “Não é só uma questão de produção, também é uma questão de vida, nosso assentamento fica muito próximo da cidade, que certamente também está sendo atingida pelos reflexos dessa pulverização aérea. Certamente isso trará problemas de saúde para a população, porém normalmente isto não é identificado”.

Além da contaminação direta, pelo veneno jogado no ar, os produtores também alertam para os prejuízos provocados para a saúde da população em geral, pois os alimentos orgânicos, que são produzidos sem veneno, acabam sendo contaminados com as pulverizações. Os produtos orgânicos são comercializados em feiras nas cidades de Porto Alegre e de Canoas, além de beneficiar famílias de baixa renda via o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e crianças e jovens das redes públicas de educação por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Marcelo Ferreira