PF faz operação, mas garimpeiro acusado de matar dois Yanomami continua foragido

Por Izabel Santos | Amazônia Real

PF faz operação, mas garimpeiro acusado de matar dois Yanomami continua foragido
No conflito em Roraima dois jovens foram mortos com tiros de arma de fogo dentro do território, que está invadido por mais de 20 mil garimpeiros
(Foto de Chico Batata/Greenpeace/2019)

Manaus (AM) – A Polícia Federal em Roraima deflagrou nesta quinta-feira (29) a Operação Ábdito para cumprir dois mandados de prisões temporárias e quatro de buscas e apreensões contra garimpeiros suspeitos das mortes a tiros dos indígenas Original Yanomami, 24 anos, e Aracona Yanomami, 20 anos. O principal acusado pelos crimes, o maranhense Eurivan Farias Lima, 36 anos, que também teve a prisão decretada, está foragido da Justiça. Os nomes dos dois presos não foram divulgados.

De acordo com as investigações, as mortes dos indígenas aconteceram em 12 de junho, na comunidade Xaruna, que fica região da Serra do Parima, no município de Alto Alegre, na Terra Indígena Yanomami. Conforme a denúncia do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Y’ekuana (Condisi-Y), publicada em reportagem da agência Amazônia Real, as mortes dos dois jovens desencadeou mais insegurança no território, que atualmente é invadido por mais de 20 mil garimpeiros.

No dia 3 de julho, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, prometeu ao líder indígena Dário Kopenawa a retirada imediata dos garimpeiros ilegais da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. Na ocasião, a Hutukara Associação Yanomami denunciou os assassinatos dos dois jovens. Até o momento, a operação não aconteceu. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), a pedido do Ministério Público Federal (MPF), também determinou a retirada dos garimpeiros da Terra Indígena Yanomami. “Esperamos que o Sr. Vice-Presidente cumpra o prometido e a decisão judicial”, afirmou a Hutukara na ocasião.

Juiz destaca acirramento

Missão do governo faz atendimento médico em comunidades Yanomami
(Foto: Agência Saúde)

As prisões dos garimpeiros envolvidos nos crimes foram decretadas pelo juiz Helder Girão Barreto, da 1ª Vara Federal Cível e Criminal de Roraima, em 6 de julho. Segundo o despacho, ao qual a reportagem teve acesso, os acusados estavam escondidos em um mesmo endereço em Boa Vista, capital de Roraima, aguardando uma oportunidade de fugir. “A providência faz-se imprescindível até para serenar os ânimos acirrados entre indígenas e garimpeiros na região, acirramento que pode chegar a conflito generalizado”, justificou o magistrado sobre as prisões temporárias.

Segundo a investigação da PF, os dois indígenas foram assassinados no dia 12 de junho, e não 14 como o Condisi-Y anunciou inicialmente. Na ocasião, o estado de Roraima já estava enfrentando o isolamento social por causa do aumento dos casos de Covid-19. Mas na Terra Indígena Yanomami os garimpeiros continuam a invadir o território.

A movimentação de um helicóptero, conforme relato de testemunhas, nas proximidades da comunidade Xaruna chamou a atenção dos indígenas. Eles saíram para verificar a situação em um grupo de cinco pessoas, quatro com arco e flecha e um com uma espingarda calibre 20. Ao se aproximarem, viram dois garimpeiros em uma clareira perfurando o solo com ferros. Quando perceberam a presença dos indígenas, os garimpeiros fizeram disparos de espingarda e mataram a primeira vítima, Original Yanomami. Em seguida, os Yanomami perseguiram os invasores, que atiraram novamente e mataram a segunda vítima, Aracona Yanomami, o que fez o grupo de indígenas recuar.

O garimpeiro foragido, Eurivan Farias Lima (Foto Polícia Federal)

Conforme a polícia, após os crimes os garimpeiros fugiram do território. No local onde ocorreu as mortes foi encontrada uma carteira de reservista do garimpeiro Eurivan Farias Lima. Segundo a Polícia Federal, há indícios de que os garimpeiros estavam realizando atividade de pesquisa para uma nova frente de garimpo. Também foi encontrado um acampamento e cartuchos de espingardas deflagrados.

Depois das duas mortes, no dia 19 de junho indígenas yanomami da região do Alto Mucajaí, em Roraima, destruíram um avião Cessna de pequeno porte (modelo 182K Skylane, matrícula PT-CZC), que supostamente voltava de área de garimpo. Com pouco combustível na aeronave e sem GPS, o piloto pousou em uma pista próxima à comunidade dentro da Terra Yanomami. Os indígenas o detiveram e ele foi entregue às autoridades federais”, diz a notícia do site “Amazônia Latitute”.

Sobre a Operação Ábdito (significa remoto), a Polícia Federal diz que a ação também busca desarticular os ‘apoiadores’ e investigar a participação dos acusados em crimes como associação criminosa e favorecimento pessoal. Durante a operação, agentes federais encontraram na casa de um acusado e um hotel, dinheiro, armas e 30 gramas de ouro. 

Os indígenas Yanomami atribuem a invasão de garimpeiros ao aumento dos casos de malária e Covid-19 na terra indígena. Leia aqui. O nome da operação, de acordo com a PF, faz justamente referência à situação de isolamento dos indígenas, da localidade dos crimes e quanto à ocultação dos suspeitos.

Procurado pela reportagem, o Ministério Público Federal em Roraima informou que não se pronunciará sobre operações e inquéritos ainda em fase de investigação. A Polícia Federal e o Conselho da Amazônia também não responderam aos pedidos de manifestação da reportagem.

Histórico de invasões

Terra Indígena Yanomami em Roraima (FotoChico Batata/Greenpeace/2019)

Desde a década de 1980 os Yanomami têm suas terras invadidas por garimpeiros, que provocam doenças, morte e destruição do meio ambiente. Segundo a Hutukara Associação Yanomami e o Condisi-Y, 22 mil garimpeiros estão dentro da Terra Indígena. A situação já foi alvo de diversas denúncias, mas até agora nada foi feito para expulsar os invasores do local.

Um levantamento do Instituto Socioambiental (ISA), feito em março de 2019, 42,57% da TI Yanomami é alvo de 534 pedidos de pesquisa para exploração mineral, o maior número de requerimentos do tipo no Brasil. Eles são feitos por mineradoras interessadas nas terras e que têm a expectativa da regulamentação de uma lei que legalize atividade nessas áreas. No entanto, até o momento, isso não aconteceu e os requerimentos ficam parados na Agência Nacional de Mineração (ANM). Mesmo assim, o ISA identificou, à época, 4.250 requerimentos minerários para exploração de pelo menos 66 substâncias terras indígenas em todo o país, o ouro é a principal delas.

Enquanto isso, os Yanomami continuam lutando para sobreviver à pandemia e ao descaso generalizado que atinge a saúde indígena.

A situação fica ainda pior com o apoio notório do presidente Jair Bolsonaro (Sem partido) às atividades de mineração em terras indígenas. O vice-presidente da República Hamilton Mourão, presidente do Conselho da Amazônia, já foi questionado sobre a situação, mas faz pouco caso. A reportagem da Amazônia Real enviou e-mail à assessoria de comunicação da entidade, mas até o momento não foi respondida.

Os garimpeiros têm tanta certeza de que nada os impedirá de explorar as terras Yanomami que já construíram vilas com casas, pistas de pouso para aviões e têm balsas nos rios. Rios esses cuja água é usada pelos indígenas, verdadeiros donos das terras. Os rios mais visados são Uraricoera, Mucajaí, Apiaú e Alto Catrimani.

Na Terra Indígena Yanomami, existe o registro de, pelo menos, sete povos em isolamento voluntario da sociedade nacional. O território tem 9,6 milhões de quilômetros quadrados e abriga mais de 26 mil pessoas das etnias Yanomami e Y’ekuana, entre os estados do Amazonas e de Roraima.

As mortes dos jovens Original Yanomami, 24 anos, e Aracona Yanomami, 20 aos reacendeu o medo de um novo conflito no território como o massacre da aldeia Haximu, que aconteceu em 1993. Na ocasião, 16 indígenas yanomami foram assassinados por garimpeiros. Conforme artigo do antropólogo Bruce Albert, escrito há 27 anos, era 15 de julho daquele ano quando um grupo de seis rapazes da aldeia chegou a um barracão na área de garimpo para pedir comida, bens de troca “e, quem sabe, levar de volta a espingarda, conforme recomendação de seus parentes mais velhos. Recebem apenas alguma comida e um bilhete para ser entregue em outro barracão rio acima, com a promessa de que lá eles obteriam mais coisas”. Leia a íntegra do artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo. (Colaborou Emily Costa (RR))

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