O Agronegócio Brasileiro É Incapaz De Produzir Cereais (Alimentos De Base)

por José Martins, Crítica da Economia.

Neste boletim resumimos algumas observações e conclusões de inúmeros boletins anteriores acerca da realidade agrícola brasileira e da ideologização do problema pelas classes dominantes brasileiras e seus economistas.

Por exemplo: frente à irresponsável ociosidade das terras agriculturáveis pelos proprietários fundiários no Brasil, os ideólogos do agronegócio procuram se defender fazendo uma fortíssima e solene afirmação: “Embora as lavouras ocupem uma pequena porcentagem do território brasileiro, o País é uma potência agrícola e um dos líderes na produção global de alimentos”.

Vejamos mais detalhadamente o que eles querem esconder com esse tipo de propaganda. Um bom começo é observar alguns números que medem o ranking mundial dos produtores de cereais. A fonte de dados é o relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sobre a produção agrícola mundial, janeiro 2018. É a mais completa e segura fonte de estatística agrícola internacional existente.

OS DEZ MAIORES PRODUTORES MUNDIAIS DE GRÃOS (2018)

 PRODUÇÃO (milhões de toneladas)PARTICIPAÇÃO (%) NO TOTAL MUNDIALPRODUÇÃO PER CAPITA. (ton./habitante) SUPERFÍCIE DO PAÍS (x1000 km²)
Mundo2.606,0100,000,342
China501,019,920,3609.600
EUA472,018,111,4179.400
União Europeia298,011,400,5854.324
Índia241,09,240,1883.287
Rússia127,04,800,86917.098
Brasil116,04,450,5578.514
Argentina69,02,641,6042.792
Ucrânia66,02,501,534   576
Canadá57,02,181,7279.984
Austrália51,01,952,1257.692
G-101.997,076,600,50273.267
Fonte: Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), janeiro de 2018.

Importante observação técnica: a norma do USDA (sigla em inglês para Departamento de Agricultura dos EUA) e demais congêneres internacionais, assim como no mercado agrícola internacional quotidiano, bolsas de mercadorias, etc. – é considerar como grãos (ou cereais) apenas os três alimentos de base do mundo: trigo, milho e arroz. Não existe nenhum outro alimento de base no mercado mundial além destes três cereais.

Essa classificação tem fundamentos teóricos e práticos. Não se trata da natureza do valor de uso (utilidade) destes três alimentos agrícolas. Trata-se do fato de eles serem os mais produzidos, mais transacionados, mais consumidos (direta ou indiretamente) e ocuparem a maior área plantada no globo terrestre.

Trata-se, finalmente, de um problema de valor e de preços, além da renda fundiária (absoluta e relativa). Seus preços de produção e de atacado nacionais são, portanto, regulados pela estrutura (composição orgânica da terra-capital) dos seus ramos produtores em dimensão global. A totalidade determina a evolução das partes.

São, portanto, esses três produtos que são considerados no relatório do USDA e na tabela acima. Veremos mais abaixo (nas “anotações à margem do tema”) outras considerações acerca de outros gêneros agrícolas que não entram na categoria de grãos ou cereais propriamente ditos, como a oleaginosa soja, amendoim, feijão, etc.

Primeira observação substancial sobre os números da tabela acima: a produção mundial dos três principais alimentos de base no mundo – 2.606 milhões de toneladas métricas anuais – é largamente insuficiente para se eliminar ou mesmo diminuir a fome da população mundial.

Como descrito em outros boletins da Crítica, para alimentar em quantidade e qualidade a população mundial – aproximadamente 7,5 bilhões de pessoas, em 2016 – seria necessária a produção anual de aproximadamente 13 bilhões de toneladas dos três alimentos de base listados na tabela acima, cinco vezes mais do que foi produzido na safra 2016/2017.

Mesmo assim, mesmo participando desta já insuficiente oferta mundial o Brasil se destaca negativamente: é um dos países onde se produz menos alimentos de base no mundo – apenas 4,45% do total mundial.

Mesmo que a superfície do país (8,514 milhões de km²) seja aproximadamente a mesma de EUA e China, aqui se produz pouco mais de um quinto do que se produz em cada um destes outros dois países lideres da produção mundial.

Enquanto no Brasil se produz míseros 116 milhões de toneladas anuais de grãos, na China se produz 501 milhões e nos EUA 472 milhões. Para alcançar estes resultados as áreas ocupadas nos EUA e China com essas estratégicas culturas são muitas vezes superiores à ocupada no Brasil.

Na opinião dos ideólogos dos ideólogos do agronegócio brasileiro, EUA e China são “gastadores de terras”.  O agronegócio brasileiro, nas palavras dos seus próprios ideólogos, é um virtuoso “poupador de terras”.

O fato é que essa mísera produção e participação do Brasil no total mundial de grãos já é um primeiro de forte desmentido daquele ufaníssimo “grande potência agrícola mundial” da propaganda. Logo nos primeiros minutos de jogo já se revela em números redondos a realidade daquela fantasiosa virtude da burguesia agraria brasileira de grande “poupadora de terras”.

Infortúnios da virtude? Em nome de uma fantasiosa bondade de preservar as florestas, os rios e a natureza em geral, a burguesia agrária brasileira produz uma miserável quantidade de alimentos, absolutamente insuficiente para alimentar a população trabalhadora do país. Alguma coisa está errada nesta estranha equação.

Continuemos nossa investigação dos fatos. A realidade agrícola brasileira se revela ainda mais impiedosa com os trabalhadores quando se mede a produção per capita, quer dizer, a produção de alimento de cada país por habitante (Coluna III da tabela).

Por que essa medida é importante? Porque é o primeiro indicador disponível da produtividade da agricultura de grãos em cada país. E o que ele nos revela? Que no Brasil a produção de grãos por habitante é uma das mais miseráveis do mundo.

Dentre os dez maiores produtores de grãos registrado na tabela acima, só a China e a Índia, os dois países mais populosos do mundo, apresentam uma produção por habitante inferior à do Brasil.

Essa criminosa base fundiária capitalista nas economias dominadas do sistema imperialista mundial é o fator mais determinante da imensa miséria e fome dos trabalhadores nestes países. Mas é também da inferioridade produtiva destas economias  no mercado mundial.

Baixa produtividade na produção do alimento de base é um dos fatores econômicos mais importantes para a predominância da mais-valia absoluta – sinônimo de baixa produtividade do trabalho nestas economias dominadas e, ao mesmo tempo, do desenvolvimento desigual e combinado na ordem imperialista global.

A calamitosa realidade agrária brasileira fica ainda mais evidente quando comparada com a da Argentina, que também não é nenhum paraíso de desenvolvimento econômico e social. Ao contrário, está cada vez mais próxima do inferno social brasileiro.

Mesmo assim, como se pode verificar na mesma coluna II da tabela, a produtividade no país vizinho, mesmo sofrendo sua ingloriosa decadência, é três vezes superior à do maravilhoso agronegócio “poupador de terras” brasileiro.

Antes de procurar outras formas de medir a produtividade na produção de grãos, lembremos mais uma solene afirmação dos ideólogos do agronegócio no Brasil, já registrada em boletim anterior, quando eles tentam explicar como foi construída isso que eles chamam de “grande potência agrícola”.

Vale a pena repetir: “A explicação principal está nos ganhos de produtividade, centrados, no caso brasileiro, no volume produzido por hectare… Em outras palavras, a agricultura brasileira tornou-se uma atividade poupadora de terra. A produção de grãos é o exemplo mais visível dos ganhos de produtividade”.

Uma afirmação dessa vale mais que uma delação premiada. Para comprovar se essa parte fundamental do discurso é verdadeira, nada mais saudável do que continuar investigando outros dados presentes no mesmo relatório do USDA em referência.

Relembrando importantes fundamentos teóricos e práticos da economia agrícola: o milho é o alimento de base das Américas. E sua produção no continente se aproxima de 600 milhões de toneladas. Isso é o equivalente a 56% do total mundial.

Além das ações políticas dos governos, a produção e os preços de atacado dos três alimentos de base em cada economia nacional isolada – como para qualquer mercadoria capitalista amplamente comercializada internacionalmente – são regulados pelos preços de produção desses alimentos na economia líder do ramo, na agricultura estadunidense.

Portanto, enquanto existir mercado e regime capitalista as condições produtivas de milho nos EUA determinarão a dinâmica das demais produções nacionais deste cereal. Esta é uma regra econômica muito importante para se analisar as possibilidades e limites da produção agrícola brasileira.

A China é o único pais fora das Américas que tem uma quantidade produzida significativa de milho: 220 milhões de ton. Cerca de 20% do total mundial. É surpreendente que a produção de milho na China é maior que a de arroz (145 milhões de ton.) e a de trigo (130 milhões de ton.).

Chama a atenção essa grande produção de milho na China porque o arroz é o principal alimento de base na totalidade da área asiática. Isso foi definido já por Adam Smith, que desenvolveu a mais completa teoria do alimento de base – depois amplamente aproveitada e ampliada por Marx.

Esse tipo de fundamento tão importante para a teoria econômica não é ensinado em nenhuma escola de Economia do mundo. A teoria do alimento de base não é mencionada nem pelo menos nos manuais de História do Pensamento Econômico. Ignorância e vulgarização total. Venha para o mundo do capital!

Notável também aquela equilibrada repartição entre os três alimentos de base na mais populosa economia do mundo. Isso merece um estudo a parte. Do mesmo modo a geneticamente deformada agricultura brasileira, onde, pelo motivo oposto ao da China, o que se verifica é uma repartição absolutamente desequilibrada entre os três alimentos mundiais de base.

O maravilhoso e altamente produtivo agronegócio brasileiro apresenta uma desprezível produção de trigo (6,73 milhões de ton.) e de arroz (7,82 milhões de ton.). Deve ser “para poupar terras”, como eles dizem, que o agronegócio brasileiro não produz cereais.

Mas a fiel torcida (mais faminta do que fiel) de mais de 200 milhões de habitantes da maior economia do mundo ao sul do equador bem que agradeceria a esses beneméritos senhores “poupadores de terras” um pouquinho mais de arroz e feijão no seu prato.

A gravidade do problema aumenta quando se revela que esse agronegócio preservador da natureza, dos rios e das matas e florestas virgens é que ele é um péssimo produtor também de milho, o seu verdadeiro alimento de base.

Veja a radiografia dos maiores produtores mundiais deste estratégico cereal.

PRODUÇÃO MUNDIAL DE MILHO (principais produtores)

 Produção (milhões de ton. métricas)Área (milhões de ha)Produtividade (ton./ha)
MUNDO 1075            185,57               5,80
Estados Unidos38535,1110,96
China21936,765,97
Brasil9817,605,60
Argentina414,908,37
México277,453,70
Canadá131,339,96
Fonte; Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), janeiro de 2018.

Observa-se assim que o agronegócio brasileiro é um grande irresponsável até no seu alimento de base. E muito incompetente. O que seus ideólogos deveriam responder nesta altura do jogo é o seguinte: por que o Brasil produz 98 milhões de toneladas de milho e os EUA, com aproximadamente o mesmo território e população que o Brasil, produz 385 milhões de toneladas?

Eles não são capazes de responder a essa pergunta. Procuremos então nós mesmos a resposta. Observe na tabela que a “grande potência agrícola mundial” de dona Kátia Abreu, Tereza Cristina et caterva não é apenas uma catastrófica “poupadora de terras” – utiliza exatamente a metade das terras que nos EUA são destinadas à produção do milho. No “poupador” Brasil 17,60 milhões de hectares. Nos “gastadores” EUA 35,11 milhões.

Mas eles tinham um álibi aparentemente muito sólido. O que eles diziam na sua propaganda? Vamos repetir. Uma propaganda é para ser repetida milhões de vezes: “Embora as lavouras ocupem uma pequena porcentagem do território brasileiro, o país é uma potência agrícola e um dos líderes na produção global de alimentos”.

E como se dá exatamente esse milagre? Simples, dizem eles: “A explicação principal está nos ganhos de produtividade, centrados, no caso brasileiro, no volume produzido por hectare… Em outras palavras, a agricultura brasileira tornou-se uma atividade poupadora de terra. A produção de grãos é o exemplo mais visível dos ganhos de produtividade”.

Produtividade? Volume produzido por hectare? Fomos conferir essas medidas mais refinadas na tabela do USDA acima. E o que verificamos? Que o maravilhoso agronegócio brasileiro produz 5,60 ton/ha. E o irresponsável e gastador EUA? Exatamente 10,96 ton/ha. O “gastador de terra” tem o dobro da produtividade por hectare do que o benemérito “poupador de terra”.

Isso quer dizer o que? Simples: utilizando a metade de terras utilizadas pelos EUA e, ao mesmo tempo, alcançando apenas a metade da produtividade do seu “grande irmão” do norte o maravilhoso agronegócio brasileiro não passa de uma miserável e totalmente improdutiva agricultura.

Propaganda enganosa! A propaganda dos ideólogos do agronegócio brasileiro, que estamos repetindo em incontáveis boletins anteriores, revela-se então totalmente enganosa. Inventaram um falso álibi para esconder sua genética impotência produtiva. O propagandeado maravilhoso agronegócio brasileiro na verdade ostenta a pior produção por hectare dentre as principais economias mundiais produtoras de grãos.

Aliás, o glorioso “poupador de terras” só não fica na lanterna absoluta deste desastroso campeonato por causa do malfadado México – como os próprios mexicanos dizem, tão perto dos EUA e tão longe de Deus.

O que ainda existia da tradicional cultura de milho no México foi totalmente destruída com a assinatura do acordo de livre comércio da América do Norte (NAFTA), recentemente aprofundado e atualizado pelo governo Donald Trump. Todo o milho para suas cada vez mais escassas tortilhas vem dos EUA e do Canadá.

ANOTAÇÕES Á MARGEM DO TEMA – Como já anotado anteriormente, a contabilização de culturas de oleaginosas – soja, feijão, amendoim, girassol, mamona, etc. – não se confunde com a de grãos ou cereais contabilizados pelo USDA na tabela e nos cálculos acima.

Mas o governo brasileiro (Conab), os economistas do agronegócio e a mídia do país misturam irresponsavelmente a cultura da soja na contabilização dos cereais. Isso é totalmente incorreto. Esses senhores são incapazes de tratar com método e com seriedade importantes assuntos econômicos do país. Uma forma de esconder sua incapacidade produtiva.

É como se fossem contabilizados como grãos também o café, a cana de açúcar, a laranja, etc.

Curiosamente, só três países produzem soja de maneira sistemática em todo o globo terrestre, dados de 2018: EUA (120 milhões de toneladas anuais); Brasil (108 milhões) e Argentina (57 milhões) centralizam mais de 82% da produção mundial desta commoditie agrícola. O resto é residual.

Mas só no Brasil a cultura dessa oleaginosa é tratada como uma coisa muito importante – exatamente para a burguesia agrária compensar na ideia a sua incapacidade prática de produzir eficientemente grãos e cereais, como visto nos números apresentados acima.

A produção de soja no Brasil é um caso particular de enclave agroexportador totalmente inorgânico e independente da dinâmica das culturas nacionais de grãos ou cereais. Para se entender por que isso acontece tem que começar primeiro a estudar aquela teoria do alimento de base de Smith e de outros economistas sérios que o sucederam.

Mais de dois terços da produção brasileira de soja é exportado. É uma forma adequada e rigidamente localizada do moderno imperialismo agrário exportador no Brasil, Argentina e outros mini enclaves no Paraguai e Bolívia. Os EUA exportam apenas 20% da sua produção de soja. O restante 80% é para consumo interno.

A América do Sul é a única área geoeconômica dominada em todo o mundo em que as empresas globais estadunidenses, tradings do agronegócio, instalaram e administram esses enclaves agroexportadores de soja. Monitoram toda a dinâmica e organização tecnológica, comercial, financeira, armazenamento, e preços destes enclaves agroexportadores localizados no cone sul da América Latina.

É notável, também, que o Brasil seja o maior produtor e grande exportador de frutas do mundo. E o segundo maior de soja, atrás de EUA. As coisas estão ligadas. Mas produzir frutas, para exportação ou não, também não transforma o país em uma “potência agrícola”. Problema histórico das especializações e vantagens comparativas de Ricardo que travam a periferia do sistema.

O que se verifica é que, contraditoriamente, o fato de este infeliz país aumentar cada vez mais sua posição de grande agroexportador de frutas e o segundo de soja aumenta na verdade sua impotência na produção doméstica dos alimentos de base e, consequentemente, também a miséria da sua população trabalhadora. Isso transforma a totalidade da economia em uma desclassificada e dominada no cenário internacional.

Não é por acaso que a paupérrima região nordeste do país, que historicamente era a maior produtora de cana de açúcar do país, nas últimas décadas passou a ser também a maior produtora nacional de frutas, em geral e, mais recentemente, de soja. Muita soja na Bahia, no Maranhão, no Piauí…

Recentemente, a soja passou a ocupar e superar, finalmente, o corrosivo papel de subdesenvolvimento nacional que até poucas décadas atrás era liderado pela cana de açúcar e álcool. A funesta função histórica da cana de açúcar para o subdesenvolvimento econômico brasileiro é exatamente a mesma que agora é travestida pela produção de soja e de frutas.

Finalmente, para concluir esse quase interminável boletim, mais um pouco de realidade e teoria. Essa determinação imperialista do país ser um grande agro exportador de frutas e de soja não oferece nenhuma influência positiva para aumentar a produtividade do trabalho na totalidade do sistema econômico nacional, na natureza e dinâmica da indústria de manufaturas, etc. Esse efeito benéfico só poderia ocorrer com uma potente produção e produtividade dos três alimentos de base mundiais.

O que acontece na realidade agraria nacional é que graças ao efeito nefasto do parasitário agronegócio brasileiro e sua natureza particular de renda fundiária na produção de alimentos, o valor da força de trabalho na totalidade da economia brasileira será sempre muito elevado, em termos absolutos, e muito superior ao valor da força de trabalho em economias dominantes como EUA, Alemanha, Japão, etc. O país estará sempre em desvantagem, pois a força competitiva no mercado mundial é determinada pelo alto ou baixo custo unitário (determinado a produtividade) da força de trabalho.

O nível absoluto e relativo da força de trabalho nacional determina o valor da moeda e os diferentes salários reais e relativos entre as nações dominadas, onde predomina a mais-valia absoluta, de um lado, e, de outro, as nações dominantes, onde predomina a mais-valia relativa. Determina fundamentalmente a força ou a fragilidade das diversas economias no pesadíssimo jogo comercial e financeiro mundial.