Córregos Vivos: outros olhares sobre as águas urbanas

Fruto do trabalho coletivo entre pesquisadores e moradores da Bacia do Cercadinho, em BH, mostra apresenta filme, rádio, pinturas e proposta de banco comunitário — e a urgência em colocar os rios como centrais nas cidades

Mostra Córregos Vivos. A partir do dia 9 de dezembro. Veja a programação no site (https://www.corregosvivos.com.br/). Realização: Terra Comum (Grupo de pesquisa em arte e arquitetura/UFMG)

por Outras Palavras

A partir de 9 de dezembro, acontece a 1ª Mostra Córregos Vivos, apresentada em plataforma virtual. Desenvolvido na Bacia Hidrográfica do Cercadinho, localizada na região Oeste de Belo Horizonte, o projeto Córregos Vivos questiona o princípio de ocupação territorial da cidade, pensado a partir do traçado das vias e do parcelamento da terra, onde córregos foram tamponados e violentados ao longo da história, restando assim poucas nascentes, córregos e ribeirões a céu aberto, como espaço social e ecológico.

A mostra cultural é o resultado do processo de trabalho desenvolvido por seis grupos temáticos, entre os meses de setembro e novembro, que propõe formas de proteção e revitalização da Bacia do Cercadinho. Os grupos constituídos por artistas, arquitetos, antropólogas, ambientalistas, professores, historiadores, bióloga e moradores da região e da cidade foram formados a partir de convocatória e selecionados para atuarem nos contextos: histórias locais, nascentes e matas, jardins viventes, morar na bacia, economia dos afetos e pinturas de territórios. O processo articula memória, experiências e imaginários, incluindo a produção de filme, exposição de pinturas, Rádio Cercadinho e banco comunitário de desenvolvimento da bacia do Cercadinho.

Córregos Vivos é desenvolvido pelo grupo de pesquisa em arte e arquitetura, Terra Comum, da UEMG (Escola Guignard) e UFMG (Escola de Arquitetura), que busca outros modos de ocupar e usar a terra, o ar e o subsolo, para além do princípio estrutural da propriedade pública ou privada.

De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belo Horizonte, hoje são mais de mil nascentes cadastradas na capital mineira. A bacia do Cercadinho já foi o principal manancial da cidade, com 12,6 Km² de área de drenagem e dois córregos principais – Cercadinho e seu afluente Ponte Queimada – que permanecem em seu leito natural em alguns trechos, embora sejam desconsiderados e maltratados. O Cercadinho e as outras águas da bacia são afluentes do Ribeirão Arrudas, que corta o município no sentido Oeste/Leste. Em 1990, uma área de proteção ambiental foi criada por decreto estadual para proteção da bacia, entretanto, as nascentes e áreas de proteção ambiental sofrem constante pressão do mercado imobiliário. 

Imagem: Divulgação

Como trabalhar com essas duas forças? O que é possível propor? O que seria pensar as águas e as matas como elementos estruturantes de uma cidade, para além da lógica de áreas de proteção que excluem a vida cotidiana? Segundo a coordenadora do projeto, artista e arquiteta, professora Louise Ganz (Escola Guignard/Uemg), Córregos Vivos atua, nesse contexto, como laboratório de investigação, experimentação, debate e proposição, a fim de apresentar propostas que articulem imaginários, espaços e populações da região das nascentes, margens e redondezas dos córregos que abrangem os bairros Buritis, Estoril, Estrela Dalva, Havaí, Palmeiras e Marajó.  “A gestão das águas representa uma problemática em dimensão local, nacional e global. Historicamente, no Brasil, a maioria das nascentes, córregos e rios urbanos são canalizados, enterrados, associados aos esgotos, e as margens usadas para vias de trânsito rápido”, afirma a artista, ao defender que “as bacias hidrográficas deveriam ser o ponto de partida para a vida cotidiana, ambiental e cultural”. 

Mostra

Os projetos foram desenvolvidos entre os meses de setembro e novembro, por seis grupos temáticos, com os moradores da região, via mídias digitais ou presencialmente, respeitando-se as medidas de segurança, durante a pandemia de Covid-19. Foram realizados também debates, com a presença de convidados especialistas e ativistas, que podem ser acessados na plataforma virtual do projeto. Também integra a Mostra o projeto Correspondências que consiste na troca de histórias, percepções, conhecimentos, imagens e outros entre pares de pessoas convidadas, a partir das experiências relacionadas às águas. Os convidados são artistas, membros de movimentos ambientais e comitês de bacia hidrográficas, geólogos, geógrafos, arquitetos, moradores ribeirinhos, historiadores, escritores, jardineiros e criadores de peixes. São disponibilizados no site catálogo impresso e materiais pedagógicos do projeto. 

Grupos temáticos

Cartaz do filme, que será exibido na Mostra

Histórias Locais – A partir de conversas com moradores do bairro Marajó, as trocas ocorreram via WhatsApp e visitas, durante as quais foram realizados registros visuais e sonoros de paisagens e pessoas. As fotografias feitas no local e da década de 1970 – recebidas de um dos moradores – foram manipuladas, a fim de criar uma sobreposição de camadas de tempo, uma fantasmagoria que traz os impactos do passado no presente. As imagens, junto às transcrições dos áudios, compõem um livro sobre as histórias locais. Em um programa da “Rádio Cercadinho”, disponível em podcast que pode ser acessado no site do projeto, integrantes do grupo e pessoas do local narram as histórias, junto a grandes acontecimentos da cidade, em uma perspectiva macro que parte das histórias locais.

Nascentes e Matas – Um curta-metragem conta a lenda do “Escafandrista do Cercadinho”, personagem que representa o avaliador da qualidade das águas dos córregos da região que aparece na beira do Cercadinho e do Ponte. A proposta é provocar discussões, a partir da ficção e do conjunto de imagens do escafandrista-cientista ao longo do córrego, despertando questionamentos: “O que contribui para a contaminação e descontaminação das águas desde suas nascentes?”; “O que acontece ao longo do percurso dos córregos?”; “O que são as análises realizadas?”; “Quais possibilidades de continuidade elas podem ter?”; “Quais parâmetros de avaliação surgem por meio do convívio com as águas? ”. O curta é composto por retratos de paisagens da região, cenas com falas dos moradores e equipe. Especialistas, técnicos e cientistas contribuíram com o desvendamento da lenda do Escafandrista por meio de encontros virtuais. O elenco convocado por chamada pública virtual é composto por moradores locais e a estreia foi realizada na casa da moradora Maria dos Santos Almeida que participou do filme exibido on line, seguido de debate com elenco e convidados.

Jardins Viventes – A noção de jardim é ampliada para uma simbiose biorrelacional e a bacia é entendida como uma outra cosmologia, e não apenas como uma área por onde se delineiam caminhos de águas. Foram produzidos “Jardins-Episódios da Bacia do Cercadinho”, combinando conteúdo coletado e reflexões relacionadas à natureza urbana, ecofeminismo, colaboração interespecífica, etnobotânica. Poesia e prosa, fabulação e documentário, performance e escuta se fundem, associando textos, fotografias, ilustrações, grafismos e áudios, em vídeo cuja história é narrada por meio de uma estética do fragmento e produção pela colagem. Uma publicação ilustrada reúne narrativas e pequenos curtas baseados nos escritos.

Morar na Bacia – As bacias possibilitam manter os biomas e atividades da vida cotidiana e econômica. Quais modos de morar existentes ou que podemos projetar para o futuro possibilitariam relações, combinando águas e matas, e não sua separação ou exclusão? Nesse contexto de atuação, impressões sobre as relações que se estabelecem no habitar a bacia foram produzidas. As descobertas permeiam os eixos temáticos: construção; da nascente à foz; terra e vizinhança. Devido à pandemia, o Google Earth foi usado como ferramenta de pesquisa visual e territorial, além de pesquisas de vídeos, reportagens e histórias sobre, por exemplo, enchentes e desabamento de construção em áreas de encosta. Caminhadas nos bairros Estrela Dalva e Havaí, seguindo as medidas de proteção adequadas, incluíram visita a campo com o objetivo de andar por parte da extensão dos córregos Cercadinho e Ponte Queimada, à moradora Maria, ribeirinha que tem uma nascente canalizada no seu quintal, e Mateus, Guilherme e Samuel, adolescentes criadores de peixes que moram no bairro Havaí. Além dos registros do grupo, câmeras analógicas foram entregues a duas moradoras do Conjunto Estrela Dalva, para que registrassem suas impressões desse habitar.  

Economia dos afetos- Renda básica e cidadã, economia solidária e moeda social apontam para uma economia baseada não em valores monetários abstratos, mas afetos próximos e locais compartilhados. Pensando as águas da bacia do Cercadinho, como vivente carregado de afetos produzidos, quais valores podem ser negociados? Quais moedas e imagens podem ser pensadas? A mobilização social visa à criação de um banco comunitário de desenvolvimento da bacia do Cercadinho e de uma moeda social. A proposta é, a partir do fomento do comércio local, a geração de meios para incentivar e sustentar projetos de preservação e revitalização do córrego. O processo foi desenvolvido por meio de reuniões virtuais com representantes das associações de bairro e membros de coletivos e movimentos locais, como a Frente de Resistência Oeste e o Parque JÁ, realização de lives com coordenadores de três bancos comunitários e pesquisadores, assembleia virtual (25/10) e criação de página do Banco Cercadinho nas redes sociais: https://www.facebook.com/bancocercadinho .

Pinturas de território – Foram realizadas pinturas relacionadas à bacia do Cercadinho em torno das temáticas “alentos” e “aflições”, com a criação do “Gabinete de criação pictórica desejante sensório-artesanal de apreensão de impulsos perspectivos de fatos imponderáveis da vida”. Artistas do projeto realizaram encomendas de pinturas aos artistas locais, moradores dos bairros Havaí e Estrela Dalva. Cleber Santana, pintor e escultor, vive no bairro Palmeiras. Para a Mostra, preparou esculturas, a partir de isopor e cimento, de pássaros que vê cotidianamente no córrego Cercadinho, uma família de saracuras-do-brejo e uma garça. Fábio Silva, pintor “aventureiro”, como ele mesmo se apresenta, e violinista, morador do bairro Estrela d’Alva, tem o costume de tocar seu violino à beira do córrego. No processo de elaboração da mostra, participou com Olívia Viana, integrante do grupo, de um diálogo pictórico, partindo de fotografias da paisagem da região tiradas pela artista. Agnaldo Canuto, pintor, mora no Morro das Pedras e, durante a infância, frequentava o córrego Cercadinho com as tias que lavavam roupa naquelas águas. Feitas em sua maioria especialmente para a Mostra, suas pinturas abordam memórias da relação com o córrego e entorno.  As artistas do projeto exploraram o eixo entre as aflições e alentos, desde ocupações agressivas à exploração sem limites – paisagens terríveis, até as possibilidades de paisagens fantásticas, utópicas e de cura. Além das produções próprias, receberam encomendas das expedicionárias do grupo Jardins Viventes, para retratar paisagens avistadas durante suas viagens. Os trabalhos das pintoras do projeto e artistas locais integram exposição projetada em um muro do bairro Estrela Dalva, durante a Mostra.

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