O Velho Chico: entre a revitalização e a transposição

A presidente Dilma Rousseff anunciou ontem (4) investimentos da ordem de R$ 24 bilhões para levar água ao sertão nordestino. A notícia, que mais uma vez dá esperança ao sertanejo, na verdade denuncia a ineficácia de ações desconectadas para estancar o ferimento causado pela seca na região.

Símbolo maior da falta de resultados concretos das ações governamentais é o projeto de transposição do rio São Francisco, o Velho Chico. Quando anunciado em 2005, o governo disse que o povo ribeirinho seria o maior beneficiário da obra. Depois de concluído – e a previsão era que isso ocorresse em 2012 – o desvio do rio garantiria água a 12 milhões de pessoas de 390 cidades sertanejas, em estados como Bahia, Pernambuco e Sergipe. Mas hoje o que se observa é que isso está muito longe de se tornar realidade, com obras atrasadas, custos crescentes e degradação precoce de alguns trechos abandonados.

Diante desse cenário, talvez o pior elemento da transposição seja a própria transposição. Já em 2005, a viabilidade socioambiental do projeto foi rejeitada por Estudos sobre Impactos Ambientais (EIARIMA). Naquela época, houve uma grande mobilização popular contra o desvio, que contou com apoio de ambientalistas, jornalistas, ribeirinhos e parlamentares de todo o Brasil. O episódio repercutiu internacionalmente, e mesmo assim o governo desconsiderou os argumentos de inviabilidade socioambiental da obra.

Margem degradada do rio São Francisco. / Foto: Liliana Peixinho

Thiago Alves Porto, estudante de Veterinária, participou das manifestações naquele ano. Ele foi uma espécie de guardião do rio. Na época, montou plantão nas margens de um braço do Velho Chico, na Fazendo São Sebastião. Era sua missão impedir que milhares de pessoas não tomassem banho na área onde a água estava sendo captada em bombas para levar 700 metros acima e, assim, encher baldes e tonéis para matar a sede de uma multidão de manifestantes. Com relação à seca de agora, ele lamenta: “vi árvores gigantes caindo ao chão, pelo sol quente e sem água nenhuma para alimentar suas raízes. Desde que acompanho seca, nunca vi tanto sofrimento”.

Filhos da seca, crianças sertanejas que sofrem com a falta d’água. / Foto: AMA

Hoje, o rio está carente de cuidados e de preservação que lhe devolvam as condições de manutenção da vida do povo ribeirinho. Na região do Baixo São Francisco, por exemplo, o que se vê é uma paisagem estarrecedora. O leito está raso e os bancos de areia surgem como ilhas. A navegabilidade não é mais possível e os pescadores se queixam da dificuldade em encontrar peixes.

“Quando era menina, o rio era tão cheio que a gente fazia a travessia de Barreiras a Barreirinhas de barco. Cada ano que passa, o rio fica mais baixo, mais estreito, mais seco. Os afluentes vão se esvaziando”, conta Ester Carvalho de Amorim Brandão, que mora em Salvador, mas sempre passa férias em Barreiras (BA), uma das cidades do oeste do estado banhadas por diversos afluentes do Rio São Francisco, como o Rio Grande. “Estão tirando muita água do rio com os pivôs (equipamentos de irrigação), que estão detonando tudo para o cultivo da soja. Quem tem essa infraestrutura nem sente a falta d’água. Mas quem não tem nem caixa d’água está sofrendo um bocado”, conclui.

(Mercado Ético)

Hoje, a trasposição do Velho Chico se resume a obras atrasadas, custos crescentes e degradação precoce de alguns trechos abandonados.

Hoje, a trasposição do Velho Chico se resume a obras atrasadas, custos crescentes e degradação precoce de alguns trechos abandonados.