Republicano faz cruzada antiaquecimento

Bob Inglis é frequentemente citado na política americana como “baixa de guerra” em um país ultrapolarizado.

Em 2010, após 12 anos no Congresso (metade deles na década de 1990), o deputado da Carolina do Sul foi derrotado na disputa interna do Partido Republicano pela vaga à reeleição por Trey Gowdy, uma cria do movimento ultraconservador Tea Party.

Hoje, Inglis faz de uma das razões de sua queda a bandeira de sua cruzada: quer mostrar aos conservadores que a questão climática requer atenção e persuadir jovens correligionários de que a cartilha conservadora pode enfrentar o problema.

“Os conservadores têm a resposta para os desafios de energia e ambiente”, disse Inglis àFolha, no sotaque cadenciado do sul dos EUA.

“É uma oportunidade para os livre-empreendedores, se forem corrigidas as distorções no mercado causadas pela omissão do custo oculto dos combustíveis fósseis.”

Inglis não é progressista, como alguns adversários sugerem. A Associação dos Conservadores Americanos, que distribui notas aos deputados pelo alinhamento de seus votos à ideologia conservadora, deu a ele 93,5 (de 100).

A solução que propõe não fugiria a essa regra: “A melhor abordagem é o livre-empreendimento, que abre o campo para compararmos de verdade o custo dos combustíveis, os fósseis e os renováveis”, afirma. “Para isso, é preciso cortar subsídios.”

BILHÕES E BILHÕES

Neste ano, o governo americano gastou ao menos US$ 4 bilhões com esse tipo de subsídio. A gasolina custa R$ 2,15 por litro.

O ex-deputado quer que o consumidor veja na bomba do posto os gastos militares em proteger oleodutos em zonas geopoliticamente instáveis, o custo de combater os gases-estufa e o preço para tratar seus efeitos na saúde.

A plataforma já foi mais aceita entre seus pares. Ficou célebre o vídeo em que Newt Gingrich, republicano que presidiu a Câmara nos anos 1990 e acaba de concorrer à candidatura à Casa Branca, defende uma força-tarefa com os democratas contra o aquecimento global.

Com a crise de 2008, porém, tudo mudou. Propor qualquer solução que passe pelo aumento da gasolina virou proposta camicase até para os democratas, que patinam em cima de metas de cortes de emissão modestas se comparadas a outros países.

O cenário turvou com a ascensão do Tea Party nas Legislativas de 2010, e o debate perdeu profundidade.

“Há atualmente essa rejeição populista, que extrapola o rechaço à ciência e refuta também as instituições, nas quais deixamos de confiar durante a Grande Recessão.”

Mirando 2016, Inglis fundou, na Universidade George Mason (Virgínia), a Iniciativa pela Energia e Empreendedorismo (E&EI, na sigla em inglês). “Energia” é a palavra-chave para atrair o olhar conservador para o assunto.

A E&EI propõe trabalhar com clubes de universitários republicanos pelo país para divulgar a causa e propor soluções –inclusive impostos mais altos para poluidores.
“Há muita desinformação sobre o assunto”, lamenta.

O maior desafio, diz, é construir uma rede de apoio no país para que as autoridades eleitas percebam que há abertura para um “diálogo mais honesto”. “Poucos membros do Congresso aceitariam arriscar sua cadeira hoje para atuar contra a mudança climática”, constata.

Ao menos, defende o ex-deputado, os conservadores deveriam ver na reformulação do mercado de energia uma oportunidade, como fazem as grandes petroleiras.

Empresas como a Shell e a Exxon Mobil não abandonaram o petróleo, mas passaram a investir paralelamente em combustíveis alternativos e, sobretudo, na exploração de gás, considerado um combustível de transição nos EUA por ser abundante e menos “sujo” do que o petróleo.

Sem esquecer que é político, Inglis faz uma ressalva e alfineta os rivais à esquerda: o que não funciona nos EUA, diz, é culpar os fundadores do país e a população por terem queimado carvão. “Ninguém queimou carvão por mal, era uma fonte energética importante. Mas agora sabemos o custo disso”, afirma.

Fonte: Folha.com

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