Não varra o lixo para debaixo do tapete

O lixo está à frente da sua casa. O caminhão passa e leva-o embora. O problema está resolvido.

Ledo engano. Há mais coisas o entre o saco de lixo e o aterro sanitário do que a vã filosofia possa imaginar.

De cara, rejeito não é lixo. O rejeito que está na frente de casa tem resíduos que podem –e devem– ser reaproveitados. Como a coleta em domicílio é razoavelmente bem feita e o assunto não tem glamour, deleta-se prontamente.

A questão do lixo é marginalizada nas preocupações da sociedade. Toma-se o lixo como esgoto. Mas mesmo não estando à porta, o problema persiste.

A cidade de São Paulo produz 18 mil toneladas de lixo diariamente. Desse total, menos de 1% é destinado à reciclagem. Como lidamos com esse problema?

O sistema de coleta na cidade é realizado pelos consórcios Ecourbis e Loga Ambiental, que coletam o lixo comum e o reciclável, conduzindo-os aos aterros sanitários.

São Paulo conta com apenas dois aterros em atividade: CDR Pedreira e Caieiras, nos extremos norte e sul da cidade. Pouco para nossa dimensão. Além de não comportarem o volume de lixo produzido hoje, proporcionam um longo passeio a 492 caminhões lotados e pesados pelas vias congestionadas. Um “lixotour” descabido.

Para tentar diminuir a quantidade de lixo nos aterros, contamos também com 42 –quando deveriam ser no mínimo 500– e copontos de entrega voluntária de resíduos da construção civil, móveis, restos de podas de árvores e material reciclável. Um número tímido quando comparado aos 1500 pontos viciados de descarte dos mesmos tipos de resíduos. É um acúmulo de lixo, doenças e de enchentes. Geramos muito lixo para pouco espaço.

O que fazer? Primeiramente, reduzir o consumo. O que geramos é excessivo e há muito desperdício. O que é produto desejado hoje, é resíduo descartado amanhã.

Segundo, reciclar: tudo que é produzido e vendido, precisa retornar e ser destinado para a reciclagem de maneira adequada. É uma política de integração para solucionar o problema.

Para que essa destinação adequada seja possível, é preciso que as empresas informem ao consumidor, no ato da compra, como e onde descartar o produto.

É dever do fabricante informar a localização dos postos de coleta. É dever do consumidor destinar adequadamente os produtos. Separar os resíduos em recicláveis e não recicláveis.

Finalmente, é dever do gestor enxergar o problema como um todo e atuar em seus diferentes aspectos, para combatê-lo.

E combatê-lo não se resume a punir o cidadão que descarta seu entulho em um ponto viciado. É preciso ir além, buscando alternativas eficazes para que ele deixe de fazê-lo. Enxergar os pontos viciados como um mapa de áreas prioritárias para implantação de novos ecopontos.

Afinal, educar ambientalmente não é só punir pelo errado, mas dar condições para fazer o correto.

Os materiais que não vão para reciclagem são destinados aos aterros. Mais aterros são necessários, distribuídos pela cidade, principalmente em locais como a imensa Zona Leste, acoplando, na sua construção, sistemas de aproveitamento do gás metano gerado na disposição do lixo. Além de um sistema eficiente de compostagem. Gera-se energia, melhora-se a logística.

Na política de gestão integrada do lixo, um importante ator também precisa estar presente. Segundo o Instituto Pólis, existem aproximadamente 20 mil catadores de lixo na cidade de São Paulo.

É estimado que cada catador colete 500 quilos de resíduos por dia. Disso se conclui que 10 mil toneladas são encaminhadas diretamente para reciclagem, deixando de chegar aos aterros.

Apesar de serem muitos, os catadores estão organizados em poucas cooperativas. Superlotadas, muitas vezes o lixo separado pela população volta a ser misturado, tomando o mesmo destino dos rejeitos e sendo enterrado.

As políticas públicas precisam incentivar a reciclagem, principalmente por meio das cooperativas, para aliviar os aterros.

O lixo não é um problema que se esgota no consumo, no aterro nem no município. Precisa de solução integrada e que seja metropolitana.

Carecemos de uma autoridade única que gerencie a operação.

Produção, disposição, coleta e destino devem ser colocados num grande mapa da região metropolitana de São Paulo. A dinâmica tem que atingir o todo.

Cidade desenvolvida trata o lixo com carinho.

José Luiz Portella Pereira, 58, é engenheiro civil especializado em gerenciamento de projetos, orçamento público, transportes e tráfego. Foi secretário-executivo dos Ministérios do Esporte e dos Transportes, secretário estadual dos Transportes Metropolitanos e de Serviços e Obras da Prefeitura de São Paulo e presidente da Fundação de Assistência ao Estudante. Formulou e implantou o Programa Alfabetização Solidária e implantou o 1º Programa Universidade Solidária. Escreve às quintas-feiras na Folha.com.