EUA e Brasil planejam satélite conjunto para observar ecossistemas do planeta

O satélite, batizado de GTEO (Observatório Global de Ecossistemas Terrestres), terá uma câmera infravermelha capaz de separar dados com uma precisão sem precedentes. Enquanto satélites de observação brasileiros captam esse tipo de radiação em dez faixas de frequência diferentes, o novo instrumento seria capaz de enxergá-las em 250 faixas distintas.

Cientistas do Brasil e EUA apresentaram hoje a proposta de um satélite para entender melhor a dinâmica entre a atmosfera e os ecossistemas do planeta. O projeto ajudará, no Brasil, a determinar com mais precisão como a Amazônia está reagindo ao aquecimento global e ao seu próprio encolhimento.

O satélite, batizado de GTEO (Observatório Global de Ecossistemas Terrestres), terá uma câmera infravermelha capaz de separar dados com uma precisão sem precedentes. Enquanto satélites de observação brasileiros captam esse tipo de radiação em dez faixas de frequência diferentes, o novo instrumento seria capaz de enxergá-las em 250 faixas distintas.

Segundo um relatório-proposta que os centros de pesquisa brasileiro e americano prepararam, o novo satélite seria a primeira missão global de mapeamento “biogeoquímico” da terra. O custo estimado do projeto é de US$ 250 milhões. A contraparte brasileira do projeto, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), providenciaria US$ 100 milhões, e a Nasa (agência espacial dos EUA), providenciaria US$ 150 milhões.

O documento afirma que os instrumentos do novo satélite têm precisão suficiente para “estabelecer uma medida de linha de base da composição bioquímica do ecossistema terrestre”. Os dados ajudariam a “reduzir a incerteza em prever as reações do ciclo de carbono e de ecossistemas à variabilidade climática”.

Ao enxergar emissões de radiação infravermelha com detalhamento, o satélite poderia medir aspectos da vegetação como a concentração de clorofila e de celulose nas folhas, a umidade, a concentração de nitrogênio nas copas das árvores e as emissões de carbono.

“Isso vai permitir ver o nível de estresse sob o qual a vegetação está”, diz Gilberto Câmara, diretor do Inpe. Segundo o cientista, será possível determinar com mais precisão se existe um ponto-de-virada do desmatamento — a quantidade de floresta que pode ser extraída sem que o bioma da Amazônia seja comprometido como um todo. Não existe consenso hoje na academia sobre se esse ponto existe ou não, e qual é o seu valor.

Pela proposta inicial, o GTEO decolaria em 2016 e permaneceria em órbita por dois anos. A Nasa seria a responsável por construir os instrumentos científicos do satélite. O Inpe fabricaria a estrutura do satélite e seu sistema de posicionamento. O lançamento seria feito em um foguete “de aluguel” russo.

Câmara afirma que a resposta sobre o projeto está agora nas mãos da Nasa, mas declara que a chance de aprovação é “maior do que 50%”. Segundo Robert Green, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, uma reposta deve sair até abril do ano que vem.

A agência americana, porém, ainda está se desdobrando para encaixar outros projetos em seu orçamento científico, que teve de ser refeito após um estouro de gastos com o Telescópio Espacial James Webb, o sucessor do Hubble.

Charles Bolden, administrador-chefe da Nasa, visita o Brasil na quinta-feira, onde deve falar sobre esse e outros projetos de colaboração.

Fonte : FOLHA _ RAFAEL GARCIA
DE WASHINGTON