”Corte no orçamento de ciência é um desastre”

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência inicia hoje sua reunião anual em Goiânia e traz o Cerrado para a pauta

Foto: Patricia Patriota

ENTREVISTA – Helena Nader, presidente da SBPC

Os cortes sofridos pelo orçamento público de ciência e tecnologia foram “a pior coisa que poderia ter acontecido”. É a opinião da presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader. A instituição organiza, a partir de hoje, em Goiânia (GO), o maior congresso da América Latina: a 63.ª Reunião Anual da SBPC. O tema será o Cerrado. Helena espera que as discussões influenciem a agenda pública para o bioma.

Por que escolheram o tema Cerrado para a reunião?

Nas últimas duas reuniões, tratamos de questões relativas à biodiversidade nacional. Em 2009, foi a Amazônia. No ano passado, o mar. Agora, o Cerrado seria uma alternativa natural. Uma feliz coincidência fez com que o reitor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Edward Madureira Brasil, oferecesse as instalações para sediar a reunião. E aqui estamos bem no meio do Cerrado.

Vocês pretendem divulgar algum manifesto ou estudo?

Não. Haverá várias discussões sobre o Cerrado. A principal função desses encontros é motivar a criação de grupos de trabalho. Esses grupos poderão, no futuro, redigir manifestos, estudos ou propostas. Além disso, as reuniões da SBPC costumam ser acompanhadas com interesse por gestores públicos. Dessa forma, conseguimos, indiretamente, fomentar programas ou editais (para liberação de recursos públicos em determinadas áreas de pesquisa). Foi assim com a Amazônia, em 2009, e com o mar, no ano passado. Será assim com o Cerrado.

A comunidade científica não conseguiu pautar as discussões sobre o Código Florestal.

Creio que vamos conseguir participar mais das discussões no Senado. Estamos redigindo um manifesto reiterando que o Código deve passar pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Casa. Do jeito que está, não passaria. Na semana passada, estivemos na Comissão de Meio Ambiente. A ciência não está do lado de ambientalistas ou ruralistas. Tenho orgulho da agropecuária brasileira, mas ela pode ser melhorada. Temos tecnologia para diminuir o impacto ambiental. E não é uma tecnologia importada dos EUA, mas desenvolvida aqui, com dinheiro do contribuinte brasileiro.

Como aumentar a relevância da ciência brasileira?

Em algumas áreas já competimos de igual para igual com os países desenvolvidos. Um exemplo: doenças infectoparasitárias, graças a instituições centenárias como o Instituto Oswaldo Cruz e o Instituto Butantã. Na agricultura tropical também nos destacamos. Vale a pena lembrar que a escola agrícola mais antiga das Américas surgiu em Cruz das Almas (BA). Nós a conhecemos hoje como Universidade Federal do Recôncavo Baiano. Quando a Embrapa se tornou uma referência mundial, ela já tinha uma história que a antecedia. Precisamos conquistar a mesma tradição em outras áreas. Nossas universidade são jovens. Quase todas tem menos de 100 anos. Além disso, nossos estudantes precisam dominar o inglês. Deixar de investir no inglês significa desistir de fazer ciência internacional. Por fim, precisamos definir em quais áreas queremos estar entre os primeiros do mundo. Mas isso é uma questão de política de Estado e cabe ao Estado decidir.

Qual a sua opinião sobre os investimentos em ciência e tecnologia?

Melhorou nos últimos anos, mas ainda é pouco. Neste ano, amargamos um corte de 20% a 25% no orçamento. Foi o maior desastre que poderia ter acontecido. O Marco Antonio Raupp (então presidente da SBPC) e o Jacob Palis Junior (presidente da Academia Brasileira de Ciências)participaram de várias audiências públicas pedindo que o dinheiro do pré-sal seja investido em educação, ciência e tecnologia. E o que ocorreu? Infelizmente, nada. Estamos tentando reverter o quadro no Senado.

Qual é a maior dificuldade?

A maior dificuldade é que não posso deixar de trabalhar como pesquisadora da Unifesp e ficar 100% do tempo circulando em Brasília e convencendo os parlamentares um a um. Mandamos cartas e participamos das reuniões, mas devemos chegar antes, fazer corpo a corpo constante. Discutiremos isso aqui: precisamos dividir o trabalho de convencimento.

Quais os principais entraves para a pesquisa científica?

Sem dúvida, os marcos legais. As leis para licitações, importações, acesso à biodiversidade e proteção à propriedade intelectual são muito ruins. Estamos muito aquém dos chineses. Eles estão determinados a ter algumas de suas universidades entre as melhores do mundo nos próximos cinco ou dez anos.

Fonte ESTADÃO