Bicão high-tech

Por trás do aparente despropósito de tamanho está um segredo high-tech que pode facilitar muito a vida dos construtores de aeronaves ou – quem sabe? – até de foguetes!

O pesquisador Marc André Meyers, da Universidade da Califórnia, em San Diego, especialista em comportamento mecânico de materiais eengenharia aeroespacial encontrou um esqueleto de tucano debaixo de uma árvore:”Peguei o bico que era extraordinariamente leve e, ao mesmo tempo, forte. Eu me perguntei porque, mas acabei guardando a questão lá no fundo da minha mente. Quarenta e cinco anos depois, minha curiosidade despertou novamente e consegui arrumar outro bico de tucano para estudar”, conta.

O bico do tucano, vale ressaltar, corresponde a um terço do tamanho da ave, mas a apenas 1/20 do peso total.

“Usamos as ferramentas de qualquer cientista de materiais moderno: microscópio de escaneamento e transmissão de elétrons, difração de raios-X, tomografia computadorizada, microscopia ótica, teste de tensão, teste de microdenteação, teste de nanodenteação, análises de elementos finitos e modelagem analítica matemática, uma abordagem bastante completa”, prossegue Meyers, que trabalhou durante cinco anos na orientação desse trabalho, realizado em parceria com os então pós-graduandosYasuaki SekiMatthew S. Schneider. Os pesquisadores usaram três dos mais avançados laboratórios de materiais e microscopia dos Estados Unidos: o National Center for Electron Microscopy and Imaging Research; o Nano3 Lab e o Scripps Institution of Oceanography.

A curiosidade de garoto então resultou numa pesquisa premiada: a equipe verificou que a estrutura do bico do tucano era uma combinação singular de um material externo sólido preenchido com uma rede fibrosa semelhante a uma espuma óssea. A parte externa (queratina) é menos elástica do que a parte interna (composta de proteínas ricas em cálcio). E, juntos, os dois materiais deste biocomposto têm uma força e resistência muito maior do que cada parte isolada.

Esse tipo de estrutura pode ser imitado para se fazer materiais ultraleves (mas resistentes) para a indústria aeronáutica e para transporte em geral (na embalagem e proteção de produtos transportados, por exemplo)”, acrescenta Meyers. A ciência que trata de casos assim – em que a alta tecnologia é desenvolvida a partir do estudo da natureza – chama-se Biomimética. O objetivo, no caso, é aprender com a natureza e não sobre a natureza: estudar sistemas biológicos para desenvolver ou aperfeiçoar novas soluções de engenharia.

Como se vê, o bicão dos tucanos tem muito mais serventia do que aparenta.

Fonte:planetasustentavel