A formiga, o xamã e o cientista

Quando Mariano apontou para o tronco da árvore e disse que as cicatrizes eram de queimadas feitas por espíritos invisíveis da floresta, eu não tinha ideia de que esta observação levaria a uma nova descoberta na ecologia tropical. Mariano, o mais velho xamã Matsigenka da aldeia Yomybato, Parque Nacional Manu, no Peru, já tinha me mostrado as enigmáticas clareiras formadas em torno de aglomerados de Cordia nodosa, um arbusto tropical cheio de espinhos parente da borragem (Borago officinalis), uma espécie de planta medicinal.

Tanto os Matsigenka quanto os biólogos reconhecem a relação especial que existe entre a Cordia e as formigas do gêneroMyrmelachista: a palavra no idioma Matsigenka que representa esta planta é “matiagiroki”, significa “arbusto de formigas”.

Mariano vestindo uma túnica de algodão com desenhos ensinados para ele pelos Sangariite nas visões que teve ao ingerir ayahuasca. Foto: © G.H. Shepard

Para os cientistas, as clareiras no sub-bosque em torno dos arbustos de Cordia são causadas por uma relação de reciprocidade com as formigas. As plantas de Cordia fornecem, à colônia das formigas, nós em ramos ocos para fazer ninhos. Pêlos em galhos e folhas servem como corredores blindados para sua proteção. Em troca, as formigas usam suas mandíbulas e secreções ácidas para retirar e envenenar a vegetação concorrente. Para os Matsigenka, essas clareiras são o resultado do trabalho de espíritos benéficos da floresta conhecidos como Sangariite, “seres invisíveis”, “puros”.

Xamãs Matsigenka como Mariano vão às clareiras e ingerem plantas alucinógenas como pasta de tabaco, ayahuasca (Banisteriopsis) e jurema (Brugmansia). Com a ajuda dessas “plantas de poder,” o xamã percebe a verdadeira natureza destas clareiras na floresta: são as aldeias dos espíritos Sangariite que não podem ser contatadas sob estado normal de consciência. Em transe, o xamã entra na aldeia e trabalha no desenvolvimento de relações com amigos espirituais ou aliados entre os Sangariite. Eles podem dar ao xamã conhecimentos esotéricos, poder de cura, trazer notícias de lugares distantes, benzer com sorte na caça e até mesmo fornecer novas variedades de alimentos ou plantas medicinais.

Como prova da existência destas aldeias invisíveis, Mariano aponta para as cicatrizes em troncos de árvores que ficam perto dos vastos e densos trechos deCordia. “As cicatrizes são causadas por incêndios provocados pela Sangariite para limpar seus jardins a cada verão”, explica.

Corte transversal de um tronco de árvore esfoliado por formigas Myrmelachista. Foto: © M. Frederickson

Douglas Yu, especialista em interações entre formigas e plantas, estava pesquisando populações Cordia nas florestas ao redor do Yomybato. Contei-lhe sobre as práticas xamânicas Matsigenka envolvendo aldeias Sangariite e apontei as cicatrizes nas árvores do entorno. Em anos de pesquisa, Yu nunca tinha observado essas cicatrizes. Intrigado, cortou um tronco e encontrou ninhos cheios de formigas Myrmelachista que pareciam estar formando galhas no tronco para criar novas casas. Conforme detalhado no American Naturalist , publicado em 2009, esse é o primeiro exemplo registrado de formigas criando galhas em plantas, embora a prática ocorra entre outros tipos de insetos.

Minhas contínuas colaborações em etnobotânica com Yu e outros biólogos em comunidades indígenas dos trópicos têm destacado a importância em prestar atenção ao rico e muitas vezes depreciado conhecimento das populações locais sobre os ecossistemas florestais: às vezes até mesmo elementos do folclore que parecem curiosos ou “não-científicos” contêm perspicazes percepções sobre os processos naturais.

Glenn H. Shepard é antropólogo, etnobotânico e cineasta especializado nos povos indígenas da Amazônia. Publicou mais de cinquenta artigos científicos e fez um documentário para a Discovery Channel, “Spirits of the Rainforest”, ganhador do Emmy. Pesquisa Etnologia Indígena no Museu Paraense Emilio Goeldi, no Pará e é autor do blog Notes from the Ethnoground.
Pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi conta história da descoberta de formigueiros em troncos de árvores no Peru. Foto: © G.H. Shepard |

Pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi conta história da descoberta de formigueiros em troncos de árvores no Peru. Foto: © G.H. Shepard |

Foto: Patricia Patriota

Foto: Patricia Patriota

 

Glenn H. Shepard Jr.
07 de Novembro de 2011