À beira do colapso

O Brasil tem hoje cerca de 6,5 habitantes por veículo. Nos Estados Unidos, a proporção chega a 1,2 habitante por veículo. Está claro que, nos dois países, o problema dos congestionamentos ocorre pelo excesso de carros. O Brasil, porém, carece de investimentos em vias. Nos últimos 50 anos, os americanos investiram em média de 2,5% a 3% do PIB em transporte. Nas últimas décadas, a China também vem mantendo investimentos no setor em torno de 3% do PIB. Aqui, se observada a média dos últimos 40 anos, investimentos em transporte não alcançam 0,5% do PIB.

A frota brasileira cresce a cada dia, e é evidente que mesmo os investimentos em metrôs, muitas vezes apontados como solução para o trânsito de grandes cidades brasileiras, não acompanham essa expansão. São Paulo, a cidade com a maior malha de trilhos subterrânea do país, tem apenas 61 quilômetros de metrô. Londres tem 415 quilômetros, e a Cidade do México, 201 quilômetros. São Paulo deveria ser uma cidade metroviária, mas está longe disso. E não por falta de demanda: há 61 000 passageiros por quilômetro de trilhos, ante 14 000 em Nova York e 7 000 em Londres. É de esperar que uma expansão das malhas de cidades como Rio de Janeiro e Belo Horizonte crie demanda semelhante.

Os moradores de São Paulo gastam, em média, 2 horas e meia no trânsito todos os dias. No Rio de Janeiro, a média é de 1 hora e 50, e em Belo Horizonte, de 1 hora. O problema está longe de ser exclusividade das cidades brasileiras. Moradores de Los Angeles, na Califórnia, chegam a enfrentar 4 horas de congestionamento diariamente. Mas, diferentemente do que ocorre por aqui, essa é uma opção consciente de quem faz questão de usar o carro como meio de transporte. Existem alternativas: com o metrô, por exemplo, tal trajeto pode ser percorrido em 1 hora. Nos Estados Unidos, investe-se na ampliação das vias para que o automóvel seja uma opção de transporte viável. Mas é preciso haver alternativas para os que quiserem deixar o carro em casa. É por isso que em cidades como Chicago, Nova York e Los Angeles há mais investimento em transporte público do que no aumento das vias.

O problema do trânsito pode ter solução, e há na história exemplos de viradas. Na década de 80, a Cidade do México esteve à beira de um colapso: o transporte metropolitano chegou a um estado de lentidão permanente, com congestionamentos nas 24 horas do dia. A emissão de poluentes era maior do que na Pequim de hoje — e isso com rodízio de veículos com placas pares e ímpares. E o que eles fizeram para resolver essa situação? Simples: investiram pesadamente em transporte coletivo. Da década de 90 até o meio da década atual, os mexicanos chegaram a picos médios anuais próximos de 5% do PIB. São investimentos em ciclovias, ônibus, metrô. Hoje, como em muitas cidades americanas, andar de carro na Cidade do México se tornou uma opção pessoal.

É hora também de começarmos a discutir a restrição de acesso de automóveis a determinadas regiões das cidades. Um carro particular ocupa um espaço maior das vias e também tem impacto maior no meio ambiente. Isso tudo tem um preço. Há alguns anos, cidades ao redor do mundo começaram a adotar o pedágio urbano como uma maneira de equilibrar essa equação. Londres é o exemplo mais bem-sucedido dessa ideia. Além de atacar o problema do congestionamento, o fechamento de algumas vias pode servir de proteção do patrimônio urbano em locais como os centros históricos de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Olhe pela janela de onde estiver. Veja quantos prédios estão sendo construídos. Cada um desses edifícios gera um tráfego de dezenas, centenas, milhares de carros. Parte da solução do problema do trânsito passa por um melhor planejamento urbano de nossas cidades.

A Cidade do México tem hoje uma lei de ocupação do solo bastante avançada. Empreendimentos como shoppings ou prédios comerciais são estudados do ponto de vista do impacto que poderão ter sobre o tráfego da cidade. O que aquilo vai provocar em termos de congestionamentos? Na Europa, iniciativas desse tipo existem desde a década de 70. O Brasil hoje é um antiexemplo disso. Em muitos países, o governo dá incentivos para a construção de empreendimentos de grande impacto no trânsito. Assim, é possível desafogar o fluxo. Estudos recentes mostram que sete em cada dez pessoas preferem ficar em casa nos fins de semana em cidades brasileiras a enfrentar o estresse dos congestionamentos. Em 2005, a proporção era de quatro entre dez pessoas. Já é hora de optarmos pela convivência urbana em condições melhores.

*Paulo Resende é coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral

Foto: Patricia Patriota / Local: Montmartre, Paris

Foto: Patricia Patriota / Local: Montmartre, Paris

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