Sobre a virose que nos deixa enfermos e nossa ‘obrigação de suportar’

Uma virose me derrubou, e fico sabendo que muita gente está na mesma situação, resultado da mudança de tempo. Começou na quinta-feira à noite, quando acordei tiritando de frio, com dores no corpo, e foi seguindo seu processo. Causou-me dor na garganta, que me exigiu um spray de própolis. Tirou-me o apetite, deixou-me zonza, sensação de impotência. Na noite de sábado, veio a febre e esperei para ver até onde chegaria. Foi aos 38 graus, e lancei mão de toalhas molhadas para baixá-la. Hoje estou melhor do que ontem, mas ainda no “modo letárgico”. O que não me impede de refletir.

Neste processo, dois ou três amigos me ofereceram remédios ferozes, obviamente com ótimas intenções. Uma trouxe dos Estados Unidos algo que “só se compra lá” e tira a sensação ruim da garganta em segundos: “É botar a pastilha na boca e pronto. Você está curada”. Outra tinha uma poção mágica contra o mal-estar do corpo e ofereceu-me a substância que consegue “levantar até defunto”, também importada. Eu agradeci e declinei. Com afeto e respeito, elas não tiveram papas na língua e me consideraram “uma louca varrida, que gosta de sofrer”.

Talvez não por acaso, um livro que tem me acompanhado nesses dias de relativa enfermidade é o “Dossiê Abrasco – um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde”, editado em 2015 por várias organizações, entre elas a Fiocruz. É um calhamaço de ensinamentos, sobre o qual já escrevi aqui no blog, que nos informa sobre a trajetória que o mundo vem traçando no sentido de buscar, com auxílio de substâncias químicas produzidas em laboratórios, soluções para o desejo de transpor limites para a expansão do capital. Neste caminho, o homem foi deixando de lado a proteção de si próprio contra os impactos químicos.

A primeira pessoa a perceber isto, e que conseguiu dar uma forma literária às suas descobertas científicas foi a bióloga norte-americana Rachel Carson, que lançou em 1962 o livro “Primavera Silenciosa”, onde se pergunta:

“Estamos correndo todo esse risco para quê? Precisamos urgentemente acabar com essas falsas garantias, com o adoçamento das amargas verdades. A população precisa decidir se deseja continuar no caminho atual, e só poderá fazê-lo quando estiver em plena posse dos fatos. Nas palavras de Jean Rostand: a obrigação de suportar nos dá o direito de saber”.

O livro de Carson é o melhor no gênero e vale a pena ter na estante. Como não podia deixar de ser, a cientista foi atacada pela indústria química, que a culpou inclusive pelas mortes causadas por malária ou dengue naquela época, já que sua descoberta resultou no banimento do DDT nos Estados Unidos. Carson descobriu que a tecnologia usada para fazer agrotóxicos tinha origem na indústria bélica. Ainda hoje há quem encontre em seus estudos uma forma subversiva contra o capitalismo. Morreu em 1964, depois de brigar muito contra um câncer de mama.

A história de Carson e o afã demonstrado pelos meus amigos para me livrarem do desconforto causado por minha enfermidade temporária têm conexão. No fim e ao cabo, a humanidade no período pós-moderno foi se rendendo ao conforto e trocou, com rapidez e euforia, as vestes do caçador-coletor pelos tecidos sintéticos. Os bens naturais, com os quais os homens ainda estavam aprendendo a conviver, passaram a ser coadjuvantes na luta pela vida.

Neste ponto, preciso ser clara: não estou pregando um retrocesso, tampouco abro mão de aplaudir a ciência e a tecnologia, que tanto nos têm livrado de males. Se não fossem os antibióticos e todas as drogas que vimos inventando, certamente a população do mundo não estaria na casa dos sete bilhões. Devemos parte da vida à química, portanto.

Mas a balança pendeu e estamos exagerando, sim. Sentir desconforto é possível e pode ser necessário. Dar chance ao corpo para que ele se organize e lance seu próprio exército contra o vírus invasor nos faz, a um só tempo, lembrar que é preciso parar um pouco. Tomar limão, mel, chá de alho e descansar. Lembrar que a febre é um sintoma que não precisa ser atacado imediatamente, a menos que ela avance demais. São detalhes sutis, totalmente impróprios para uma vida corrida como a que temos. Há sempre a sensação de que vamos perder uma coisa importante se nos deixarmos fechar os olhos e repousar um pouco em plena luz do dia. Perderemos a conexão com o mundo digital no qual mergulhamos da manhã à noite. E também, infelizmente, a capacidade de perceber o sensível.

A conexão com os agrotóxicos é um pensamento inerente nesta linha de reflexão. Para ganhar muito dinheiro no setor de alimentos foi preciso criar redes, comprar terrenos, pequenos produtores e transformá-los em funcionários. Foi preciso ainda criar sementes em laboratório, plantá-las junto uma das outras para facilitar o transporte. Com isso, é preciso tentar se livrar de pragas, com certeza. Entram em cena os “remédios” que são aplicados, muitas das vezes, antes mesmo de os males tomarem conta. Rápido, fácil, num passe de mágica. O resultado é a produção em massa de alimentos, vendidos para uma massa de pessoas que, de verdade, pouco contato fazem com aquilo que estão consumindo.

Não falta informação, mas pode faltar vontade de se informar. Sob o signo do conforto, a humanidade vai também se habituando, tornando difícil fazer mudanças de paradigma tão necessárias no momento que vivemos. E, sobretudo, buscando soluções mágicas para incômodos que, muitas das vezes (nem sempre, claro) carecem apenas de cuidado.

É sempre bom compartilhar reflexões neste espaço.

https://g1.globo.com/natureza/blog/amelia-gonzalez/post/2019/03/25/sobre-a-virose-que-nos-deixa-enfermos-e-nossa-obrigacao-de-suportar.ghtml