Nossos pets e o aquecimento global



Está bem difícil a vida de quem mora no Rio de Janeiro e precisa andar na rua. Termômetros digitais mostram uma temperatura que o corpo da gente não registra: a sensação térmica é muito mais alta. Dia desses, vinha caminhando, tentando respirar e, ao mesmo tempo, poupar um pouco as energias para chegar ao meu destino, quando encontrei uma moça, numa sombra de árvore, tentando estimular seu buldogue francês, esparramado com a barriguinha no chão, a se levantar e andar. Olhei o relógio, que marcava pouco mais de 11h. Ao lado do bichinho, já com meio palmo de língua para fora da boca, tinha uma cumbuca cheia de água, que a moça tentava oferecer ao animal e que, naquele momento, estava sendo inútil.

Parei um pouco, sugeri que ela jogasse a água sobre a cabeça do cão, o pegasse no colo e corresse com ele para casa. O risco de intermação (mal causado pela exposição excessiva ao calor, que em alguns animais pode levar à morte, como se vê nesta triste reportagem, é grande, sobretudo para raças que têm o focinho muito grudado na boca, chamadas braquicéfalas.

Buldogue francês — Foto: Pixabay

Buldogue francês — Foto: Pixabay

Felizmente a moça ouviu minhas sugestões, e espero que o bichinho tenha se recuperado. Quando nos despedimos, usei um tom lúdico para chamar-lhe a atenção sobre o perigo que seu animal correra e fiz com que ela me prometesse que nunca mais sairia com ele àquela hora no verão:

“Eu sei, ele tem ficado em casa, sem sair, por causa deste calor. Não consigo acordar cedo…”, confessou-me ela.

De volta à casa, olhei para meus dois Shih tzus quase prostrados, que se arrastam durante o dia e só começam a ter mais energia à noite (inclusive para comer) e fiquei pensando em recorrer a uma especialista, não só para dar sugestões sobre como proceder com os cães neste calor das arábias. Minha ideia também foi expandir pensamentos e compartilhar com vocês. Afinal, estudos recentes mostram que há mais de 132 milhões de pets no Brasil e este mercado já movimenta cerca de R$ 25 bilhões ao ano. Para que não se transforme cães em commodities, é preciso um olhar cuidadoso.

Sabe-se que a grande maioria dos nossos pets são criaturas criadas pelo homem para servi-lo, quer seja como armas para sua segurança ou para serem companhias. Minha questão pode parecer absurda, mas vale como reflexão: será que já não estariam criando uma raça resistente ao aquecimento global?

Grand Bassett Griffon Vendeens é apresentado — Foto: Lucas Jackson/Reuters

Grand Bassett Griffon Vendeens é apresentado — Foto: Lucas Jackson/Reuters

Rita Ericsson, veterinária que tem um site com dicas sobre cuidados com cachorros e gatos, disse-me que nunca ouviu falar em tal iniciativa. A conversa se estendeu e ela me contou como surgem as raças de cachorro — que ela chama de “seleção genética feita pelo homem”:

“É como fazem com o gado, por exemplo. Se querem um gado que seja leiteiro, vão cruzar a melhor vaca leiteira com o filho de outra vaca leiteira que também seja top de linha. O que acontece é que, com relação a bichos de porte pequeno, na maioria das vezes eles surgem por motivos fúteis, tipo querer um cachorro bonitinho de cara achatada. Algumas, no entanto, fogem a esta regra e foram criadas com motivos, digamos, mais nobres: o salsicha, por exemplo, é caçador de bicho de toca, por isso tem uma pata curta e corpo comprido para ele entrar bem dentro da toca”, contou-me Rita.

Labradoodle — Foto: Pixabay

Labradoodle — Foto: Pixabay

Ultimamente andam fazendo umas misturas: Maltês com Poodle, por exemplo, que fez surgir o Maltipoo, e Labrador com Poodle, que deu o Labradoodle. Mas nenhuma dessas misturas tem um motivo que seja funcional. Muito menos se pensou em criar alguma raça que consiga sobreviver ao calor excessivo. Pergunto à Rita que tipo de raça seria mais interessante para se ter em casa nas grandes e calorentas megacidades:

“Raças de pelo curto e com pouca gordura corporal. O Galgo italiano, por exemplo. Tem outros, como o Boxer. O Labrador tem pelo curto, mas a gordura funciona como um isolante térmico para a temperatura fria”.

Boxer — Foto: Pixabay

Boxer — Foto: Pixabay

De novo, olho para os meus Shih tzus, raça de país frio (Tibet) e me dá pena, porque o fato de estarem dentro da minha casa é de absoluta responsabilidade minha, eu os confino. Assim, tomo todas as precauções e, sim, às vezes é preciso dar prioridade a eles. Estou sempre controlando seu desconforto, tenho um minispray para borrifar água na fuça quando lá fora está pegando fogo. Nem penso em sair com eles quando o chão ainda está quente ou quando começa a esquentar. Se vou deixá-los sozinhos por mais de quatro horas, a chave fica com uma vizinha, que vem em casa e supervisiona, por mim, a situação. Dão trabalho, sim, mas devo isso a eles.

E quanto ao excesso de pelos? Se estivessem soltos na natureza, conta-me Rita, haveria seleção natural e estes, com muito pelo, não sobreviveriam ao calor. Há quem diga que é melhor tosar, outros acreditam que o pelo serve como isolante.

“Ninguém consegue me convencer de que o cachorro não se beneficia com a tosa num calor desses. Mas sempre que me perguntam sobre isso eu respondo que é melhor observar o cão depois da tosa. Se ele está mais relaxado e menos ofegante é sinal de que foi bom para ele”, diz Rita.

Labrador — Foto: Pixabay

Labrador — Foto: Pixabay

E por que os cachorros ficam ofegantes, pergunto à veterinária?

“É como eu explico no meu site: eles não conseguem perder calor através do suor justamente porque têm o corpo coberto por pelos. Eles precisam arfar e trocar o ar quente e úmido pelo ar mais frio que é inspirado. Por isso ficam tão ofegantes. Acontece que, no verão muito forte, o ar que entra é quente. Chama-se intermação o que matou aquele buldogue francês. Temos casos como este todos os anos. Na maioria das vezes, acontece quando as pessoas decidem levar o cão para passear muito tarde, ou quando ‘se esquecem’ dele dentro do carro”.

Não dá para imaginar, mas acontece, conta-me Rita. Muitas pessoas consideram cachorro como “filho” quando é pequenino e ainda não está dando muito trabalho. Depois que aparecem os primeiros problemas, eles viram “cachorro” e passam a ser um fardo em casa.

E os gatos? Rita me diz que estes têm sua origem no deserto e são os bichos mais adequados para enfrentar altas temperaturas:

Gato azul russo — Foto: Pixabay

Gato azul russo — Foto: Pixabay

“É capaz de você ver gatos, neste calor, debaixo de um cobertor ou se aquecendo sob o sol. Eles não ficam ofegantes. O problema é que eles não bebem água. Na natureza, são capazes de comer uma presa que tem 70% de água no organismo e ficam bem. Por isso a gente sugere aos donos de gatos que deem ração úmida todo o dia e que espalhem mais de um bebedor pela casa”.

Seja como for, a decisão de ter um bicho em casa deve ser tomada com muito cuidado, botando na balança todos os prós e os contras. Para mim, haverá sempre mais prós.

https://g1.globo.com/natureza/blog/amelia-gonzalez/post/2019/01/25/nossos-pets-e-o-aquecimento-global.ghtml