Um terço da humanidade já enfrenta ondas de calor insuportáveis

Na próxima segunda-feira (26), os moradores da cidade de Phoenix, localizada no estado norte-americano do Arizona, vão enfrentar uma onda de calor que até para os brasileiros é forte. Esperam-se temperaturas na faixa dos 48 graus, e o aviso, transmitido pelo Serviço Nacional do Tempo (NWS na sigla em inglês) estende o alerta aos moradores de grande parte do Arizona, Califórnia, Palm Springs. A conduta sugerida para quem mora nessas localidades quando estiverem no meio da onda de calor é velha conhecida dos habitantes dos trópicos: beber muita água, andar pela sombra e procurar reconhecer os primeiros sintomas  de que a temperatura elevada está fazendo mal ao organismo, como náuseas ou pulsação elevada.

É um calor anormal, admitem os técnicos da NWS. Faz parte das sequelas que o aquecimento global tem espalhado pelo planeta e que estão sendo recorrentemente ignoradas por Donald Trump, presidente do país em que as pessoas vão sentir, na pele, daqui uns quatro dias, parte do resultado desse descaso.

Um estudo que acaba de ser divulgado pelo jornal eletrônico Nature Climate Change mostra que um terço da população mundial já enfrenta hoje ondas de calor mortais por causa das mudanças climáticas. Muitos vão considerar apenas mais um estudo, dos tantos que já foram divulgados. O que não se pode é desprezá-lo. A pesquisa analisou mais de 1.9 mil casos de fatalidades associadas a ondas de calor em 36 países nos últimos 40 anos e concluiu que o risco global de doenças relacionadas com o calor ou a morte aumentou de forma constante desde 1980.

“As mudanças climáticas aumentaram o risco de ondas de calor em todo o mundo. Perto de 30% da população mundial agora vivem em condições climáticas que produzem temperaturas mortais em pelo menos 20 dias por ano. A acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera torna ‘quase inevitável’ que vastas áreas do planeta enfrentarão mortes crescentes a partir de altas temperaturas, novas pesquisas têm encontrado”, diz o texto do estudo.

Camilo Mora, acadêmico da Universidade do Havaí, principal autor do estudo, conversou com a equipe de reportagem do jornal britânico “The Guardian”, que publicou o relatório , e disse que as opções da humanidade, com relação às ondas de calor, estão entre “terríveis e muito ruins”.

O texto do estudo coordenado por Mora diz ainda que “a proporção de pessoas em risco em todo o mundo crescerá para 48% até 2100, mesmo que as emissões sejam drasticamente reduzidas, enquanto cerca de três quartos da população global estarão ameaçados até então se não se conseguir diminuir os gases poluentes na atmosfera”.

Durante o tempo em que os pesquisadores estavam em campo para fazer o relatório, a Europa atravessou uma forte onda de calor, em 2003, que incendiou florestas em vários países e fez baixar tanto as águas do Rio Danúbio, na Sérvia, que os tanques e as bombas da Segunda Guerra mundial, que estavam submersos ali, ficaram à mostra. Nessa trágica onda de calor, cerca de 20 mil pessoas morreram. Outras dez mil morreram em Moscou devido ao clima escaldante em 2010. E, em 1995, Chicago sofreu uma explosão de calor de cinco dias que resultou em mais de 700 mortes.

Morrer de calor, adverte Mora, “é como ser cozido lentamente, uma tortura”. A hipertermia, sobretudo conjugada com um tempo úmido, não permite que o suor se evapore. Além disso, o sangue corre para a pele com o  objetivo de proteger a pessoa, deixando vários órgãos sem auxílio. Temperaturas elevadas podem matar crianças, jovens, idosos, atletas ou sedentários.

“O impacto da mudança climática global não é um espectro no horizonte. É real, e está sendo sentida agora em todo o planeta “, disse Amir AghaKouchak, professor associado da UCI e co-autor desse estudo à reportagem do “The Guardian”.

O desmatamento, como se sabe, é uma das causas do  aquecimento global, que aumenta a chance de ocorrerem ondas de calor. E não é difícil saber como fazer para tentar minimizar o problema. São muitos, também, os estudos feitos por pessoas que se especializam em enxergar de perto formas para preservar, sem desprezar o desenvolvimento.

Com o sugestivo título de “Floresta silenciosa”, que remonta ao livro “Primavera silenciosa”, da bióloga Rachel Carson, primeira ambientalista a denunciar o avanço corrosivo do homem sobre o meio ambiente, um  trabalho de cientistas brasileiros e estrangeiros acaba de ser publicado a fim de pontuar que a Amazônia ainda sofre muitos maus tratos.  De incêndios ao saque a suas madeiras, passando pela caça ilegal e pela fragmentação, a Amazônia tem sido muito menos preservada do que se anuncia para o mundo.

A equipe de estudiosos acompanha a floresta desde 2009 e se preocupa em fazer a distinção entre degradação e desmatamento.

“Degradação florestal significa o resultado do conjunto de perturbações – perda de biodiversidade e redução de funções ecológicas – que ocorrem por influência humana e a despeito de a floresta continuar de pé. No desmatamento, também chamado de corte raso, a floresta desaparece por completo para dar lugar ao pasto, à monocultura ou, eventualmente, ao simples abandono. A degradação, por outro lado, disfarça-se melhor. Ela pode tomar as feições de uma área verde que, para olhos menos treinados, em muito se parece com uma floresta intacta. Tal característica colabora para que a degradação seja mais difícil de quantificar e seu combate, menos popular. Recente conclusão da ciência revela, no entanto, que a degradação está longe de ser um problema menor: ela vem silenciando de vida a Amazônia”, conclui o estudo, que vale a pena ser conferido.

Segundo Jos Barlow, pesquisador da Universidade de Lancaster e principal autor de um artigo publicado na revista Nature , em que demonstra como o desmatamento causa (também) perda da biodiversidade, o alerta dos cientistas que se dedicaram à Amazônia serve “para a comunidade global”. A questão é saber até que ponto essa comunidade está realmente envolvida com a questão. A julgar pelo conselho do cientista britânico Stephen Hawking, a ideia será procurar na Lua um próximo território.

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/um-terco-da-humanidade-ja-enfrenta-ondas-de-calor-insuportaveis.html

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