Tempo de colheita

Paulo Lannes

Seguindo a iniciativa das hortas urbanas, brasilienses usam gramados de quadras e até de estações de metrô para cultivar pomares comunitários
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Comer frutas cultivadas perto de casa e tomar chá de ervas produzidas no quintal são hábitos comumente associados à vida no campo. Mas têm se tornado realidade também para moradores de áreas urbanas do Distrito Federal. Em quadras como a 312 da Asa Norte, a 102 do Sudoeste e a 301 de Águas Claras, gramados foram transformados em pomares comunitários com mais de dez tipos de alimento.

Os adeptos dessa prática, que vem se desenvolvendo em metrópoles do mundo todo, juntam forças com um duplo objetivo: usufruir produtos cultivados de modo mais sustentável e saudável e reaproximar as pessoas, recuperando o senso de coletividade que se perdeu no cotidiano das grandes cidades.

A iniciativa, descrita por alguns dos participantes locais como “um ato de desobediência civil pacífica”, procura dar funcionalidade a espaços onde antes só se plantavam espécies ornamentais e a terrenos desmatados por motivos diversos — como proteção da fiação aérea e das canalizações subterrâneas. Um desses canteiros fica vizinho ao prédio onde mora Geovana Madeira, estudante de artes plásticas da UnB, na 312 Norte.

Incomodada com o espaço inutilizado ao lado do posto policial da quadra, ela resolveu pesquisar formas de criar ali uma plantação. Juntou representantes dos blocos residenciais mais próximos e obteve um acordo coletivo. A turma decidiu se revezar de quinze em quinze dias para manter um pomar no local.

Dez meses depois, já surgiram frutos como amora, banana e abóbora, além de ervas como hortelã, arruda e carqueja. Até mesmo os policiais entraram no projeto. Eles permitem o uso da água do posto para irrigação e fazem as vezes de seguranças da horta. “Minha ideia foi criar algo em comum entre os vizinhos. E deu certo”, conta Geovana.

Em Águas Claras, o movimento é mais recente (começou em maio), porém segue a pleno vapor. Vinte pessoas cuidam da horta, localizada em um terreno baldio de 6.500 metros quadrados na quadra 301. “Buscamos criar uma organização social em que o lucro é nada mais que o alimento produzido na terra”, explica Gabriel Bizzotto, um dos líderes do projeto. A ideia motivou o cultivo de plantações em outros pontos da região administrativa, caso da quadra 205 e da Estação Concessionárias do metrô. Hoje, 470 moradores estão envolvidos nessa atividade. Para reuni-los, foi criado um grupo no Facebook, o Hortas de Águas Claras.

O movimento ganhou tanta força no Distrito Federal que sustenta uma campanha lançada, no começo de outubro, na plataforma de financiamento coletivo Catarse. Chamada de Reação, a proposta espera obter ajuda de 15 mil reais para cursos de agrologia, nutrição e educação ambiental ministrados por especialistas de renome nacional.

A meta é capacitar quarenta interessados para a criação e a manutenção de hortas ubanas em áreas públicas da capital. “Queremos que as pessoas passem a se alimentar com o que produzem, sem ter de ir ao campo para isso”, explica o geógrafo Igor Aveline, um dos quatro responsáveis pelo programa. Aveline também cuida da horta localizada na 206 Norte, que já envolve mais de 65 moradores do setor.

Trabalhar com a terra, no entanto, exige alguns cuidados para que as boas promessas não se transformem em problemas (veja como abaixo). O abandono da horta, por exemplo, pode atrair moscas, transmissoras de doenças, e provocar mau cheiro. “O ideal é pensar bem antes de fazer a horta e chamar especialistas para ajudar na manutenção”, explica o professor de agronomia da UnB Jean Cleber.

De toda forma, os efeitos positivos — sociabilização e alimentação saudável — devem ser incentivados. “Essa produção nos aproxima da natureza, algo extremamente necessário nos dias de hoje”, afirma Rogério Tokarski, idealizador do projeto Preservar, responsável por ensinar crianças de escolas públicas a plantar.

Se mais moradores aderirem a esse chamado, a vocação de cidade-pomar terá tudo para ganhar força extra na capital.

MANUAL VERDE
Dicas para manter uma plantação viva e produtiva:

– O ideal é fazer o pomar em um local que não receba sol entre meio-dia e 14 horas, porém deve-se tomar cuidado para que as plantas não fiquem sempre à sombra
– Aprenda o processo de compostagem — conjunto de técnicas que transformam matéria orgânica decomposta em adubo. Trata-se do elemento básico para a sobrevivência de uma horta
– Invista em alimentos de fácil manutenção. É o caso de pimenta (malagueta e dedo-de-moça), açafrão, mostarda, tomate-cereja e das ervas medicinais, como alecrim, hortelã, carqueja e erva-cidreira
– Pesquise sobre as plantas que serão cultivadas. Cada uma exige atenção específica: algumas crescem mais rápido e outras precisam ser irrigadas com maior frequência, por exemplo
– Cuidado para não consumir os alimentos com sujeira (bituca de cigarro e xixi de cachorro, por exemplo). Lave-os com água e sabão
– O sistema agroflorestal (mistura de cultura agrícola com vegetação nativa) é o que melhor se adapta ao clima da cidade. Necessita de pouca água e permite o cultivo de maior variedade de plantas

Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/cidade/tempo-de-colheita-hortas-urbanas-816117.shtml?utm_source=redesabril_psustentavel&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_psustentavel

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