Pesquisadores cobram incentivos para reduzir uso de agrotóxicos – Bloco 3

Na última matéria da série especial sobre agrotóxicos no país, acompanhe o que tem sido feito para incentivar a mudança de hábitos e práticas na agricultura brasileira.

Os agrotóxicos, juntamente com os fertilizantes, as técnicas de melhoramento de sementes, a irrigação e mecanização no campo, começaram a chegar aos produtores após a Segunda Guerra Mundial, no fim da década de 40. Em todo o mundo, a promessa era de mais produção e facilidades ao agricultor. Os anos se passaram e, se é verdade que a chamada Revolução Verde no campo possibilitou a ampliação das colheitas, hoje não se pode dizer que ela veio sem impactos negativos.

No Brasil, pesquisa da Universidade Federal do Mato Grosso, em parceria com a Fiocruz, mostra que o número de agricultores intoxicados por agrotóxicos passou de 5 mil, em 2007, para 10 mil, em 2012. O número de mortes passou de 200 para 313 no período. O país é recordista mundial no consumo de defensivos, com inúmeras consequências sobre a saúde e o meio ambiente.

Agricultora e coordenadora da Frente Parlamentar pelo Desenvolvimento da Agroecologia e Produção Orgânica, a deputada Luci Choinacki (PT-SC) testemunhou no campo a popularização dos agrotóxicos:

“Não se preparava ninguém para produzir alimentos sem veneno. Ele saía da universidade preparado para colocar veneno. Chegava para colocar veneno. Chegava para pai e mãe na roça e dizia: pai, mãe, vocês estão fazendo tudo errado.”

A deputada percebe que o excesso no uso de agrotóxicos já foi maior.

Na avaliação de Waldyr Stumpf, da Embrapa, hoje o agricultor encontra alternativas ao uso massivo de agrotóxicos, oferecidas, inclusive, pela própria estatal.

“Nós trabalhamos desde a recuperação de plantas, o fortalecimento de sistemas, a integração de sistemas produtivos, a diversificação da matriz produtiva, com rotação de cultura, descanso de cultura, manejo integrado de praga, a busca de fertilizantes alternativos, biofortificantes, a questão de agregação de valor aos alimentos de uma forma menos impactante, para que esses agricultores possam fazer ou nas suas comunidades, suas casas, um conjunto de soluções.”

Mas, na prática, nem sempre a informação chega a todos, como destaca o estudioso do tema e professor do Departamento de Genética e Morfologia da Universidade de Brasília César Koppe Grisóglia:

“Os governos estaduais enfraqueceram as chamadas Emater, as empresas estaduais de apoio ao produtor rural. Toda uma cadeia tem que ser fortalecida, como as Emateres, a Embrapa e os centros de pesquisa. Não adianta proibir simplesmente agrotóxico. Tem que mostrar ao agricultor que existem práticas alternativas igualmente eficientes. Agora, o lobby das empresas multinacionais que vendem agrotóxicos é fortíssimo, porque faturam milhões. Então, a pressão deles sobre parlamentares, pressão deles sobre Ministério da Agricultura, Ibama e Anvisa é muito grande, porque envolve quantias astronômicas de dinheiro. É uma questão também política.”

O pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz Luiz Cláudio Meireles atuou como gestor de toxicologia da Anvisa durante 13 anos e confirma que o lobby dos fabricantes e a precariedade na assistência rural dificultam uma mudança de hábitos no campo. Segundo ele, outros fatores interferem nesse quadro, como baixo financiamento e concentração de mercado.

“Esse mercado é extremamente concentrado. Eu falei de 431 ativos hoje registrados no país. Muitas vezes, o pequeno e médio produtor não têm acesso a substâncias que são menos tóxicas, porque todo o mercado está organizado de maneira que ele não tenha muitas vezes esse acesso.”

Apesar dos problemas, Meireles vê espaço para uma produção mais saudável no campo:

“Entendo que é muito difícil você reduzir agrotóxico para uma produção de milhares de hectares de soja, que muitas vezes têm a mesma composição genética. Milhares de hectares de cana, de café. Mas, para a produção de alimentos, que hoje, inclusive, 70% vêm do pequeno e médio produtor, é absolutamente factível que exista uma estratégia de produção orgânica, agroecológica, para que não se utilize agrotóxico ou se utilizem aqueles produtos hoje com baixíssima toxidade e representem pouco perigo para produtor.”

No fim do ano passado, o governo lançou o Plano Brasil Agroecológico, pelo qual pretende investir, até 2015, quase R$ 9 bilhões no fortalecimento de uma agricultura em bases mais sustentáveis. Em debate sobre o assunto na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, em julho último, o secretário de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Valter Bianchini, avaliou que a ninguém interessa manter com o Brasil o recorde mundial de consumo de agrotóxicos:

“É quase que uma unanimidade entre os grande agricultores, entre os tecnocratas e nós, da agroecologia, que precisa se fazer uma transição para reduzir os agrotóxicos, eliminar os agrotóxicos mais prejudiciais ao meio ambiente e à saúde, avançar muito no manejo de pragas.”

O Plano Brasil Agroecológico prevê, entre outras ações, o financiamento com taxas menores para o setor, a pesquisa e transferência de conhecimento para os agricultores e um programa de compra de sementes pelo setor público.

Reportagem – Ana Raquel Macedo
Edição – Regina Cunha
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http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/REPORTAGEM-ESPECIAL/476882-PESQUISADORES-COBRAM-INCENTIVOS-PARA-REDUZIR-USO-DE-AGROTOXICOS-BLOCO-3.html
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Áudio da reportagem:
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