As boas lições da Califórnia

Felipe Carneiro e Paula Pauli
Veja – Especial Água* – 29/10/2014

O estado mais rico dos Estados Unidos está em seu quarto ano seguido de seca. Entre as soluções tomadas por lá está tratar o esgoto e multar quem desperdiça, ideias que podem ser imitadas no Brasil

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Hollywood projetou a Califórnia no imaginário coletivo como o estado dos campos de golfe e dos casarões rodeados de gramados impecáveis e com cerca branca. Quatro anos seguidos de estiagem racharam essa imagem. Mais de 80% do território do estado americano está em situação de seca severa, e cientistas já temem que isso perdure até o fim do século.

Para lidarem com a falta de água, as autoridades californianas estão fazendo de tudo, com graus variados de sucesso. Entre as medidas que não vingaram está a proibição de piscinas, pois se constatou que, quando mantidas cobertas, elas gastam menos água que a manutenção de um gramado com área equivalente. Em anos normais, chovia na Califórnia um terço do que em São Paulo. Apesar do clima diferente, podem-se extrair da experiência californiana algumas lições para o Brasil.

MULTAR QUEM DESPERDIÇA
Ao constatar que uma campanha de conscientização para economizar água não surtia efeito, há três meses o governo da Califórnia permitiu que os seus distritos multassem os esbanjadores. Os valores não poderiam ultrapassar 500 dólares. Então, cada localidade decidiu quais seriam as infrações e o rigor a ser aplicado. Em San Diego, quem é pego regando o jardim com mangueira paga a multa máxima, a mesma penalidade reservada para quem encher uma banheira de hidromassagem em Los Angeles. Se houver reincidência, o valor será dobrado.

Em Santa Barbara, quem usar água corrente em fontes decorativas pagará 350 dólares. Em San Jose, moradores de casas onde são encontrados vazamentos precisam pagar 380 dólares. No Brasil, algumas prefeituras já punem os que usam água para outros fins que não o consumo humano, como beber ou tomar banho. Em Monte Carmelo, Minas Gerais, os fiscais recebem denúncias de moradores cujos vizinhos estão lavando a calçada, por exemplo, e vão até o local. Não há punição imediata, mas o infrator é obrigado a assinar uma notificação. Em caso de reincidência, a multa é de 627 reais.

CRIAR CURSOS OBRIGATÓRIOS PARA QUEM GASTA DEMAIS
A cidade costeira de Santa Cruz, a 100 quilômetros de São Francisco, estabeleceu um teto mensal de 28 mil litros de água por família. Quem passa do limite ou é pego burlando alguma norma é multado, mas pode abater parte do valor participando de um curso de duas horas. Aquele que acumula duas multas é obrigado a comparecer. No curso, os professores explicam a situação dos recursos hídricos no estado e ensinam técnicas para reduzir o consumo. “Até agora, não vi nenhum aluno repetente, ou seja, que tenha saído daqui e voltado a desperdiçar”, diz o engenheiro americano Nik Martinelli, coordenador do curso.

PRIORIZAR O CONSUMO HUMANO

A Califórnia produz quase a metade dos legumes, verduras e nozes consumidos nos Estados Unidos. Apesar de usarem 80% da água, as colheitas só representam 3% do PIB do estado. Isso levou os moradores a questionar o programa federal que fornece água aos fazendeiros.

Eles pagam pela água, pelo transporte e pelo investimento público para a construção dos canais de irrigação, que no Vale Central do estado chegam a ter 800 quilômetros de extensão. Mesmo assim, o governo cortou a irrigação de 8 milhões de acres cultiváveis nessa região agrícola. Os alimentos então passaram a ser comprados de outros países. Isso é o que se chama de “importação de água virtual”, aquela embutida em produtos agrícolas ou industriais.

No Brasil, não se cobra pela água em si, apenas pelo seu tratamento e transporte. Os produtores rurais podem coletar livremente o recurso não tratado em lagos, lençóis ou rios, sem ter de pagar nada. “Caso começassem a cobrar por isso, certamente haveria uma maior preocupação e um uso mais eficiente por parte dos agricultores”, diz Samuel Barrêto, coordenador do Movimento Água para São Paulo.

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Em Los Angeles, as piscinas estão liberadas, mas regar gramado dá multa

PREMIAR QUEM TROCA O GRAMADO POR PLANTAS QUE EXIGEM MENOS ÁGUA
A rega dos quintais californianos responde por mais da metade da conta de água dos moradores das casas. Diversas cidades já estipulam dias, horários e equipamentos específicos para molhar o quintal. Entre os apetrechos indicados estão timer paraesguichos e irrigação por gotejamento. As empresas fornecedoras de água também passaram a oferecer dinheiro a quem troca a grama por plantas nativas, menos “sedentas”. Os moradores recebem até 10 dólares por metro quadrado de grama substituído. Algumas empresas de água da Califórnia também subsidiam a compra de máquinas de lavar louça e roupa mais eficientes. Os descontos variam de 50 a 200 dólares.

EVITAR VAZAMENTOS NAS TUBULAÇÕES
Na Califórnia, cerca de 10% do volume bombeado pelas tubulações subterrâneas é perdido em vazamentos. Para localizá-los, os funcionários colocam sobre o asfalto dispositivos que detectam o som da vazão no subsolo. O processo é realizado de madrugada, quando há menos barulho. Descoberto o ponto, eles cavam um buraco e fazem os reparos necessários. No Brasil também existem técnicas para detectar falhas. A diferença é que os defeitos em tubulações respondem por perdas muito maiores, de até 28%. Considerando as ligações irregulares, os “gatos”, o desperdício chega a 37%. Uma fiscalização maior reduziria isso.

VALORIZAR A SUJEIRA
Na cidade de Ventura, as autoridades do departamento de água, em parceria com uma rádio local, criaram o desafio “Don’t wash your car” (Não lave seu carro, em inglês). Os moradores são incitados a ficar ao menos um mês sem limpar o automóvel e postar fotos dele no Facebook do departamento. Os donos das imagens que recebem mais curtidas ganham serviço completo em lava-rápidos locais que reciclam a água. Circular com o carro todo empoeirado virou sinal de status politicamente correto entre as celebridades de Hollywood. No Brasil, a ONG The Nature Conservancy tem a campanha ”Não chove, não lavo” , que estimula as pessoas a postar fotos de seus veículos no Instagram com a hashtag #naochovenaolavo, mas a campanha ainda não conseguiu mudar os hábitos da maioria dos motoristas.

DISTRIBUIR GRATUITAMENTE MEDIDORES INDIVIDUAIS, OS HIDRÔMETROS
Uma pesquisa realizada pela Agência de Proteção Ambiental americana concluiu que famílias que têm relógio para medir o uso da água gastam em média 28% menos que as que não têm. Por isso, o governo da cidade de Santa Clara passou a oferecer hidrômetros eletrônicos gratuitamente. Como resultado, a vazão dos reservatórios que abastecem o condado já caiu em um quarto desde janeiro. No Brasil, edifícios mais antigos costumam ter um único hidrômetro. Como a conta total é dividida entre todos os apartamentos, muitos moradores não enxergam incentivos para economizar. O custo para fazer a “individualização” da conta de água passa dos 300 reais e pode chegar a 3 mil reais, o que leva muitos condomínios a protelar a mudança.

REAPROVEITAR A ÁGUA DO RALO
Sem grande acesso a aquíferos nem rios, San Diego sempre foi muito castigada pelas estiagens. Na cidade, a água que vai pelos ralos e pias e pode ser reaproveitada, chamada de gray water (água cinza), é separada do esgoto, black water (água escura). Agora, San Diego está investindo em uma usina para tratar a água cinza e torná-la potável. Em vinte anos, espera-se que 40% da água consumida seja reciclada. Os prédios e shoppings no Brasil com encanamentos distintos para a água dos ralos e das privadas são muito raros.

TRATAR O ESGOTO E USÁ-LO PARA BASTECER OS LENÇÓIS FREÁTICOS
Repulsiva para muitos, essa ideia já está em pleno vigor no condado de Orange, um dos mais ricos da Califórnia, desde 2008. O esgoto passa por vários processos, como umamicrofiltração para tirar as partículas sólidas e o uso de luz ultravioleta, que mata germes e bactérias. Em seguida, o produto final, potável, é devolvido aos lençóis freáticos.

No Brasil, essa técnica não existe, apesar do uso cada vez mais intenso dos poços artesianos, dos quais cerca de 85% são clandestinos. A superexploração dos lençóis freáticos, por estarem interligados com rios e lagos, também pode secar a água da superfície. Além disso, os aquíferos dependem igualmente da chuva para se reabastecer e, é óbvio, sofrem com as secas. Por fim, muitos deles foram contaminados por esgoto, metais pesados ou outras substâncias.

TIRAR O SAL DA ÁGUA DO MAR
Por ser um processo muito caro, as unidades que retiram sal da água do mar só prosperam em lugares onde praticamente não existe alternativa, como em Singapura ou Israel. A seca na Califórnia, contudo, levou ao investimento de 1 bilhão de dólares na Planta de Dessalinização Carlsbad. A obra ficará pronta em um ano e meio. O objetivo é produzir 190 milhões de litros de água doce por dia, o equivalente a 5% do consumo da Grande São Paulo. “Se Carlsbad der certo, a técnica poderia ser reproduzida em cidades litorâneas do Brasil, para aliviar o uso dos mananciais que abastecem a capital de São Paulo”, diz Tim Quinn, diretor executivo da Associação das Agências de Água da Califórnia.

*Este texto faz parte do Especial Água
Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/as-boas-licoes-da-california-817819.shtml?func=1&pag=2&fnt=14px

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