Aquecimento Global

O mais contundente estudo sobre as mudanças climáticas conclui, em definitivo: a ação do homem aquece o planeta e, com isso, o destrói. Mas ainda podemos reverter a situação

A última parte do quinto relatório do Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU, reafirma, desta vez com ainda mais dramaticidade, quão severas são as consequências para o planeta dos excessos do comportamento humano. Lançado No começo de outubro, o documento, com ênfase nos efeitos do aquecimento global, conclui um trabalho realizado por mais de 800 pesquisadores de todo o mundo ao longo de cinco anos.

Sobressaem três pontos fundamentais. Primeiro: os milhares de dados que relacionam ações do homem àsmudanças climáticas tornam inegável nossa culpa no descompasso do planeta. O IPCC afirma que a probabilidade de essa informação estar correta é de 95%. Segundo: apesar da saudável e sensata cultura de sustentabilidade que se espalhou na sociedade, tanto na iniciativa privada quanto na pública, continuamos a aumentar o ritmo de emissão de dióxido de carbono (o CO2), o grande vilão da história, a uma taxa alarmante.

Terceiro: é preciso cortar entre 40% e 70% das emissões globais até 2050, e em 100% até 2100, para assegurar um futuro suportável. Disse o climatologista indiano Rajendra Pachauri, presidente do IPCC: “Para evitar o caos, sabemos que temos de mudar de forma drástica. Há pouco tempo pela frente antes que não tenhamos mais a oportunidade de permanecer abaixo dos 2 graus de aquecimento”.

Mesmo nesse cenário de menos de 2 graus, a esperança de Pachauri (e de todos os que prezam pela saúde do planeta) para o amanhã, haverá consequências (confira no infográfico abaixo). Felizmente, os estragos são mitigáveis. Se continuarmos a emitir CO2 na quantidade atual, estima-se que a temperatura global se eleve em 4,8 graus até o fim do século. Isso faria diminuir a produção agrícola mundial a ponto de a fome se espalhar (o cultivo de soja na região amazônica, por exemplo, teria uma queda de 44% da produção até 2050, e seria impossível plantar café no sudeste do país até o fim do século).

O ritmo de extinção de espécies de animais e vegetais assumiria contornos irreversíveis. Em 2080, o número de pessoas sem acesso a água potável de qualidade se tornaria 38% maior do que era na década de 80. Em locais onde tempestades seriam intensificadas, como no Brasil, as enchentes se multiplicariam. Soa apocalíptico, e talvez seja mesmo, se não houver um freio, ancorado nos extraordinários avanços da pesquisa científica em busca, sobretudo, de fontes alternativas de energia.

“Mesmo se as emissões de CO2 cessassem hoje, sofreríamos”, disse a VEJA o climatologista peruano José Marengo, do IPCC. O Ártico deve ver sumir espécies endêmicas da região, um dos atalhos para a mudança definitiva do ecossistema. Áreas da Amazônia devem se transformar em savanas similares às africanas. A acidificação dos oceanos já destrói recifes, que podem desaparecer quase que por completo. E esse é o cenário ameno, ao qual só chegaremos com o corte total de emissões de gases de efeito estufa ainda neste século. Mas, afinal, é possível atingir esse objetivo, em uma sociedade tão dependente da queima de combustíveis fósseis? O relatório do IPCC, apesar das tintas sombrias, é otimista.

Para atingir a meta, é necessária uma mudança de cultura e de comportamento de governos, e também de indivíduos. Já há tecnologias capazes de implementar fontes de energia alternativa em larga escala. Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, todo país do mundo tem ao menos um recurso renovávelabundante que poderia ser usado. Um relatório do órgão prevê que essa é a situação dos próprios Estados Unidos, o segundo maior emissor de gases de efeito estufa. Se seguirem planos sustentáveis, os americanos devem dobrar o uso de energias solar, eólica e geotérmica até 2040. A China, o maior emissor, agora lidera também em investimentos em fontes renováveis. No ano passado, injetou 56,3 bilhões de dólares em obras nesta área, o equivalente a 61% dos gastos de países emergentes. No Brasil, a meta será atingida apenas se o mal maior, o desmatamento, especialmente o da Amazônia, for interrompido.

Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, deixou um recado: “A ciência se pronunciou, o tempo não está ao nosso lado e os líderes devem agir”. Na primeira semana de dezembro, os governantes se reunirão em uma nova edição da Cúpula do Clima (COP), no Peru, para definir políticas sustentáveis. O evento é anual, mas a expectativa é grande, porque se construirão ali as linhas gerais do tratado a ser assinado em 2015 na Cúpula de Paris, substituto do Protocolo de Kyoto, publicado nos anos 90 e que regula as emissões globais de gases de efeito estufa.

Mesmo diante das evidências, muitos cientistas ainda defendem a tese de que o aquecimento não é causado pelo homem, mas sim por ciclos naturais da Terra. Ressalte-se que as medidas cautelosas que pretendem conter as mudanças climáticas são benéficas de qualquer forma. Agir com responsabilidade é um generoso aceno a todos os ecossistemas, à manutenção da qualidade de reservas de água (cada vez mais escassas) e do ar que respiramos. O zelo ambiental faz a sociedade mais rica tecnologicamente. Cuidar é sinônimo de inteligência.

http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/a-culpa-e-nossa-818804.shtml

Raquel Beer / Veja 12.11.2014

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