Pesquisador tenta reativar experimentos para fertilização dos oceanos

A geoengenharia, ciência que estuda os meios de manipulação do clima através da tecnologia, tem suscitando muitas discussões internacionalmente. Há críticos ferrenhos que temem os efeitos colaterais do seu uso e defensores determinados que alegam ser a única forma de deter o aumento dos gases do efeito estufa na atmosfera.

A fertilização dos oceanos com ferro, incentivando a absorção de dióxido de carbono (CO2) pelo fitoplâncton, é talvez a mais conhecida. O ferro é um elemento fundamental para a produtividade dos oceanos e é fornecido pelos detritos carregados pela atmosfera.

Os críticos do processo alertam especialmente sobre o perigo de eutrofização dos oceanos, ou seja, o excesso de nutrientes, que por sua vez induz à multiplicação de microorganismos (as algas) que habitam a superfície da água, formando uma camada densa. Esta última impede a penetração da luminosidade, prejudicando a fotossíntese nas camadas mais abaixo e, consequentemente, as taxas de oxigênio disponível para os organismos caem.

Contudo, Victor Shahed Smetacek7, pesquisador do Instituto Alfred Wegener da Alemanha e do Instituto Nacional de Oceanografia da Índia, defende que sejam retomados os experimentos no oceano antártico para realmente se ter certeza dos processos que podem ser desencadeados pela fertilização. Ele destaca que isso deve ser conduzido por cientistas, e regulamentado e monitorado internacionalmente.

“De fato, a perspectiva de frotas comerciais guiadas por capitalistas de risco especulando no mercado de carbono, jogando ferro no oceano antártico prístino e transformando-o em uma sopa de ervilha cheia de algas tóxicas é um pensamento aterrorizante”, alertou Smetacek.

“Os experimentos precisam ser feitos por cientistas, sem interesse de lucro”, completou.

Histórico

O pesquisador coloca que o interesse pela fertilização cresceu após a realização de dois experimentos, o IRONEX I e II, no Oceano Pacífico equatorial em meados da década de 1990. O florescimento do fitoplâncton foi estimulado em meio a águas pobres em nutrientes, absorvendo CO2 e demonstrando que o florescimento é limitado pela oferta de ferro.

Então, relata, algumas empresas anunciaram planos de fertilização em escala comercial para a venda de créditos de carbono, patenteando algumas técnicas. Em reposta, a comunidade cientifica começou a publicar projeções de cenários sobre os potenciais efeitos negativos da ação em larga escala, como a produção de GEEs potentes – metano e óxido nitroso – e de florescimentos de algas tóxicas.

Os alertas embasaram a mídia e ONGs, que começaram a fazer campanha divulgando os males da fertilização, gerando uma forte oposição.

O ex-chefe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Robert Watson, chegou a dizer: “Estou muito, muito nervoso com isso [com a geoengenharia]. Isso demonstra um nível de arrogância de que nós sabemos gerenciar nosso meio ambiente. Certamente precisaremos de muita pesquisa.”

O próprio Instituto Alfred Wegener8 declarou que deseja resolver as questões científicas para poder avaliar o papel do ferro no sistema oceânico e que “se opõe à fertilização com ferro em larga escala com o objetivo de reduzir o CO2 para regular o clima”.

Desde então, a Convenção de Londres (Convenção sobre Prevenção da Poluição Marinha por Alijamento de Resíduos e Outras Matérias) proibiu a fertilização em larga escala, mas permitiu experimentos científicos. Porém, Smetacek critica a enorme burocracia para tal.

“Não há mais experimentos sendo feitos, pois todos estão assustados”, enfatizou. “Precisamos fazer experimentos antes de qualquer coisa maior, mas os procedimentos que foram estabelecidos são um pouco difíceis”.

A última reunião da Convenção sobre Diversidade Biológica também resolveu manter a moratória sobre experimentos de geoengenharia relacionados às mudanças do clima, especialmente a fertilização dos oceanos. As decisões já tomadas exigem que esses experimentos sejam restritos às águas territoriais e que devem ser feitos em pequena escala.

Smetacek está correndo o mundo para tentar sensibilizar a população sobre os potenciais benefícios da fertilização dos oceanos para que os experimentos sejam retomados e vistos mais positivamente.

Poço de carbono?

A teoria de que após o florescimento de algas estimulado pelo ferro essa biomassa afunda, levando consigo o carbono e sequestrando-o da atmosfera por longos períodos, foi confirmada pelo experimento EIFEX, nota Smetacek.

Um artigo publicado na revista Nature em 2012 afirma que o EIFEX – realizado em 2004 ao longo de 167 Km2 por 37 dias – teve sucesso na fertilização das algas (diatomáceas) com a finalidade de sequestro do carbono.

“O grupo relatou que grande parte do carbono capturado foi transportado para as profundezas do oceano, onde permanecerá sequestrado por séculos”, reportou a Nature.

Entretanto, em um estudo subsequente (LOHAFEX), foi constatado que a florescência de pequenos flagelados não contribuiu para o aumento do sequestro de CO2.

Comparando os dois estudos, Smetacek explica que se pode concluir que, entre o fitoplâncton, as diatomáceas são os principais responsáveis pelo sequestro de CO2.

Outro estudo publicado em março no periódico Geophysical Research Letters afirma que a fertilização pode não levar a um sequestro do CO2 em longo prazo.

A pesquisa avaliou o impacto da erupção de 2010 do vulcão Eyjafjallajökull, que lançou grandes quantidades de ferro no Oceano Atlântico norte, perto da Islândia. A conclusão é que o efeito de fertilização rapidamente se dissipou devido ao rápido esgotamento do nitrato nas camadas mais superficiais do oceano, privando o fitoplâncton do nitrogênio, um nutriente essencial para o seu crescimento.

Tamanhas são as dúvidas, tanto relacionadas ao melhor ambiente quanto aos efeitos colaterais destes projetos, que Smetacek coloca que as hipóteses apenas podem ser testadas com mais experimentos ‘in situ’.

“O sequestro do carbono em regiões onde o florescimento das algas ocorre regularmente é um processo bem documentado”, nota.

“A aplicação da fertilização no oceano antártico poderia, no máximo, aumentar a exportação anual natural em cerca de 10%, ou em uma gigatonelada (Gt). Em comparação com a atual taxa de acumulo atmosférico de cerca de quatro Gt, não é muito. Porém, não existe outra técnica disponível que possa remover tanto em um longo período: é muito pouco para ser uma solução, mas muito para ignorar”, enfatiza.

Um boom para a biodiversidade?

O pesquisador indiano chama a atenção para outro possível benefício da fertilização dos oceanos, a disponibilização de nutrientes suficientes para possibilitar uma recuperação dos estoques de fitoplâncton e de toda a cadeia alimentar.

Os estoques de krill – pequeno crustáceo da base da cadeia alimentar marinha – supostamente deveriam aumentar com a dizimação das baleias, porém o contrário tem sido visto, em conjunto com o declínio da produtividade primária no oceano antártico.

“Agora está bem estabelecido que a produtividade nas águas ricas em nutrientes do oceano antártico é controlada pela oferta de ferro”, coloca Smetacek.

Ele relaciona o declínio do krill à reciclagem do ferro pelas baleias, que no passado mantinham altos níveis de produtividade, ou seja, o krill era um gigantesco reservatório de ferro, elemento que era reciclado pelas fezes das baleias.

“A fertilização em larga escala poderia ser implementada para facilitar a recuperação do krill e das baleias, sendo equivalente à restauração ecossistêmica do alto mar”, defende.

Smetacek explica que o florescimento das algas atinge um nível equivalente ao que acontece naturalmente, por isso não seria algo ‘novo’. Todos os anos ao longo da costa de Portugal são registrados florescimentos naturais de algas tóxicas e nunca se constatou nenhum impacto, coloca.

“O efeito do florescimento seria acompanhado através de imagens de satélite. Em cinco a sete semanas o florescimento das algas desapareceria, assim como nos eventos naturais, que vêm e vão”.

O pesquisador comentou que a sua ideia é que o experimento começaria com uma área pequena – a área dos experimentos anteriores era de cerca de 10 km2 – , mas que em longo prazo teria que se chegar a milhares de km2.

“Para ter um real impacto na absorção de CO2 seria preciso muito mais, algo como 50 milhões de km2”.

Quando questionado sobre se o efeito da fertilização sobre a biodiversidade seria mais importante do que o impacto para a absorção do carbono ele respondeu: “Uma [coisa] leva à outra”.

Smetacek conclui ressaltando que o efeito do experimento é muito abrangente para ser avaliado em curto prazo, assim, é preciso que o empreendimento seja monitorado continuamente e que esse processo seja, sobretudo, transparente para que todos possam acompanhar seus resultados.

(Carbono Brasil)

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