Madeireiras ilegais faturam com a corrupção no Peru

Homem com sua neta na região peruana de Ucayali; até 80% da madeira exportada pelo país pode ser coletada ilegalmente

Temendo que a polícia avisasse os suspeitos, o promotor Francisco Berrospi não comunicou aos agentes locais que sairia para a floresta numa investigação sobre a extração ilegal de madeira. Mas às vezes isso parecia quase não ter importância.

Mesmo quando ele conseguia apreender caminhões, serras elétricas e toras recolhidas ilegalmente, os juízes costumavam obrigá-lo a devolver o material, segundo Berrospi. Os subornos eram tão comuns, disse ele, que um funcionário encarregado do combate à corrupção o estimulou abertamente a aceitá-los.

Mais de metade do Peru é coberta por uma densa floresta, incluindo um grande pedaço da bacia amazônica. Sua preservação é considerada crucial para o combate ao aquecimento global e para a proteção de muitas espécies de plantas e animais.

Nos últimos anos, o Peru aprovou leis para combater a extração ilegal de madeira, conforme exigia um acordo comercial com os Estados Unidos. Mas a madeira continua a sair do país, e grande parte dela vai parar nos EUA.

O Banco Mundial estima que até 80% da madeira exportada pelo Peru seja extraída ilegalmente, e autoridades dizem que o material geralmente é embarcado com documentos falsificados, dando a impressão de que se trata de uma transação legal. É um padrão já visto em outras partes do mundo, incluindo a Rússia, onde ambientalistas documentaram a extração ilegal de carvalhos e outros tipos de madeira.

Aqui em Pucallpa, no coração do setor madeireiro peruano, às margens de um afluente do Amazonas, a orla fluvial está dominada por serrarias abastecidas com pilhas de toras. Elas chegam flutuando, puxadas por pequenos barcos a motor desde remotos acampamentos de madeireiros, enquanto caminhões cheios de toras e tábuas congestionam as estradas.

Um oficial militar alocado aqui para patrulhar o rio Ucayali disse que praticamente já parou de fiscalizar a madeira que chega por via fluvial. No passado, contou, ele costumava determinar a apreensão de madeiras que não tinham a papelada necessária, mas logo ficava sabendo que as autoridades florestais liberavam o material, aparentemente após criarem ou aprovarem uma documentação falsa.

Em alguns casos, relatou, cargas de mogno, madeira valiosa hoje só encontrada nas áreas mais remotas, recebiam uma documentação falsa, identificando-as como outro tipo de madeira. “É incontrolável”, disse o oficial, que não estava autorizado a falar publicamente. Referindo-se às autoridades florestais locais, ele disse: “Os chefes dão empregos às pessoas de sua confiança e aí pegam uma parte dos subornos que elas recebem”.

Lucila Pautrat, diretora da ONG Sociedade Peruana de Ecodesenvolvimento, disse que, apesar das novas leis e da regra prevista no acordo comercial, o governo não consegue combater a corrupção.

A pressão pela extração de madeira na selva peruana cresceu nos últimos anos, uma vez que o vizinho Brasil intensificou os seus esforços para limitar a extração ilegal de madeiras, segundo Pautrat.

Berrospi, 45, disse que as autoridades em Lima têm pouca noção dos obstáculos que os promotores ambientais peruanos —são cerca de 80— enfrentam. A maioria das investigações, segundo ele, exige viagens a áreas remotas, mas seu departamento não tem barco nem helicóptero para chegar a acampamentos de madeireiros inacessíveis por estrada.

O promotor contou que, certa vez, apreendeu toras que ele suspeitava serem parte de um grupo de cerca de 70 árvores derrubadas ilegalmente, mas que uma juíza determinou a devolução do material ao madeireiro. “Sabe o que a juíza me disse? Ela disse: ‘Como vou colocar uma pessoa na cadeia por 70 torinhas se posso ver milhares de árvores crescendo aqui?”

No final de maio, Berrospi apreendeu dois tratores e três caminhões. Mas os órgãos públicos locais se recusaram a ajudá-lo na busca por um lugar para guardar o maquinário e, por isso, ele precisou devolvê-lo. Aí, contou, as autoridades florestais locais restauraram o alvará da madeireira, que havia sido suspenso.

Ele foi afastado do seu cargo em agosto, no que Antonio Fernández Jerí, chefe da promotoria ambiental em Lima, disse ter sido uma realocação de pessoal por “razões internas”. Fernández afirmou que Berrospi vinha fazendo um bom trabalho e que não houve acusações de irregularidade contra ele.

Uma investigação que Berrospi deixou inconclusa envolvia a remota aldeia Saweto, dos índios ashaninka. Edwin Chota, morador que seguiu uma grande carga de toras transportada pelo rio a partir da aldeia, disse que os obstáculos à fiscalização das leis ambientais parecem intransponíveis. “Não há lei”, disse Chota durante uma visita à serraria que recebeu as madeiras que ele seguiu desde a sua aldeia. “Não há dinheiro para investigar. Só há dinheiro para destruir.”

(WILLIAM NEUMAN E ANDREA ZARATE,  New York Times)
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/new-york-times/conteudo.phtml?id=1424531&tit=Madeireiras-ilegais-faturam-com-a-corrupcao-no-Peru

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