Em busca do zero sustentável

As discussões sobre o aquecimento global que balançaram o mundo nos últimos anos colocaram em evidência o impacto causado pelas indústrias no meio ambiente. Procurando dar resposta a uma cobrança da sociedade e dos governos, elas passaram a assumir metas cada vez mais ambiciosas, sendo que algumas delas se lançaram ao desafio de zerar emissão de poluentes, utilização de materiais tóxicos, geração de resíduos e até mesmo o uso de matéria-prima. O zero passou a ser almejado, mas será que é possível alcançá-lo? Ou seria isso apenas uma estratégia de marketing? Afinal, é inegável a dificuldade de tais objetivos e há um grande apelo da meta zero – que é ambiciosa, simples de entender e bastante atraente.

Para avaliar a questão é preciso primeiramente entender qual é o prazo em que se encaixa uma meta deste tipo. Isso porque hoje, com a abordagem predominante End-Of-Pipe (que prega a redução do impacto ambiental das atividades realizadas sem modificar o processo de produção), é impossível alcançar o zero. Para isso, se fazem necessárias metas de longo prazo que, no caso, vão além dos dez anos comumente estabelecidos pelas empresas. É preciso uma janela de tempo de mais de uma geração humana, algo por volta de 20, 30 ou 40 anos, alcançando, portanto, até meados de 2050.

No mundo atual, na prática de definição de metas corporativas há uma contraposição em relação às empresas com metas agressivas de crescimento e economias em desenvolvimento. Nesse sentido, por exemplo, há diferenças fundamentais na definição de metas aqui no Brasil, onde as expectativas da maioria das empresas, assim como do País como um todo, visa pleno desenvolvimento econômico.

Isso tem implicações na definição de linhas de base e também de metas, pois a produção em expansão aumenta, quase inevitavelmente, a pegada ecológica em termos totais. Assim, algumas das empresas brasileiras que tem metas sólidas definidas (por exemplo, a divisão brasileira da Tetra Pak) se comprometem em manter o total das emissões constantes, o que, em alguns casos, já é consideravelmente uma meta ambiciosa. Por outro lado, na Europa há um cenário de crescimento no máximo moderado ou estagnando, favorecendo redução de emissões.

Tais metas, todavia, não se encaixam na abordagem de longo prazo (intergeracional), porque, em teoria, precisariam contar, além de tecnologias End-Of-Pipe, com as inovações disruptivas, que são aquelas que permitem mudanças nos parâmetros de processos industriais mais complexos ou aproveitamento de materiais que hoje são considerados resíduos.

Apesar dessas dificuldades, o World Business Council for Sustainable Development(WBCSD), uma iniciativa das lideranças das maiores empresas mundiais, considera em um estudo sobre o futuro intitulado Vision 2050 que até 2020 estaremos na década da eficiência e, até 2050, a economia se focará consistentemente em fechar seus ciclos, assim chegando ao zero. Nessa visão otimista o WBCSD está bem próximo do que pensam algumas das consultorias e Think Tanks mundiais de ponta.

Entretanto, o caminho até lá não será nada fácil. O maior argumento contra o zero é certamente a relação de custo-benefício. Além disso, uma meta zero pode trazer trade-offs, isso é, quando a eliminação de um problema cria outro (exemplo: uso de água zerado, mas com custo energético explodindo). Há ainda o fato de a gestão ambiental das empresas ser ainda muito ineficiente – o que é uma triste realidade, que fica percebível na hora de se levantar a base de dados básicos para modelar as projeções. Há também o receio em se deixar apenas nas mãos das empresas toda a agenda ambiental, sem ao menos pautar o assunto via acordo político ou legislação definida pelo poder público.

Dúvidas à parte, e chegando à conclusão de que faz sim sentido colocar uma meta como a do zero – desde que se levado em consideração o tempo necessário para implantá-la –, podemos afirmar que esse modismo representa um momento em que o setor privado está tomando a liderança no desenvolvimento sustentável? Isso porque as metas, com exceção das referentes ao uso de materiais tóxicos, estão muito mais ambiciosas do que pede a legislação ambiental dos países em que as empresas atuam. Mas é preciso ficar atento, afinal, metas corporativas nada mais são do que objetivos voluntários e é preciso que haja regulamentação de fato. Os reais resultados dessas iniciativas? Somente a próxima geração poderá dizer.

* Martin Studte e Isabel Santos são consultores da unidade de negócio de sustentabilidade da Keyassociados.

(Envolverde)

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