Concedendo o poder às mulheres, uma tonelada de carbono por vez

Buscando o empoderamento das mulheres em países em desenvolvimento, uma organização está adicionando mais um padrão ao mix do mercado de carbono, usando a renda dos créditos de carbono para melhorar seus modos de vida.

Jeannette Gurung, especialista em florestas e igualdade de gênero, fundou a Organização das Mulheres para Mudanças na Agricultura e Gestão dos Recursos Naturais (WOCAN, em inglês) em 2004 após concluir que ela e outras mulheres que desejavam desenvolver programas para mulheres agricultoras pobres estavam sofrendo restrições das suas próprias instituições. A WOCAN foca e trabalha com instituições para mudar suas atitudes e comportamento em relação aos conflitos de gênero nos setores de agricultura e gestão dos recursos naturais.

“Resumindo, a história da minha carreia tem sido uma mulher tentando integrar questões de igualdade de gênero e atividades de empoderamento das mulheres dentro de um setor que na verdade não liga muito para isto”, comentou. “É uma luta de cerca de 30 anos”.

A empreitada mais recente da WOCAN, divulgada nesta semana na conferência American Carbon World, em San Francisco (Estados Unidos), é a criação de um padrão de carbono para o empoderamento das mulheres. O novo padrão social certificaria os benefícios do aumento da participação das mulheres no desenvolvimento de projetos de compensação de carbono e energias renováveis, apoiando iniciativas que criam benefícios econômicos diretos e indiretos para elas.

“O carbono é uma ótima base para iniciar”, disse Margaret Bruce, consultora da WOCAN. “É um mercado bem estabelecido, com metodologias bem estabelecidas. Mas certamente não é limitado ao carbono.”

A ideia por trás do novo padrão é usar o mercado voluntário para fornecer benefícios sociais e econômicos para o empoderamento das mulheres no meio rural através de atividades de adaptação e mudanças climáticas.

“Compreendi que a mitigação das mudanças climáticas é uma área considerada intocável para as mulheres”, notou Gurung. “Qualquer pequena discussão sobre gênero e mudanças climáticas é limitada a aspectos de adaptação. Acho que é devido à percepção das mulheres como vulneráveis, vítimas e causas de caridade que precisam de ajuda. No meu mundo, nada pode estar mais distante da verdade. A mitigação está conectada com tecnologia, negócios e empreendedorismo, e as pessoas não associam nenhum destes termos às mulheres agricultoras pobres. Existe uma desconexão”.

A certificação examinará seis elementos centrais: ativos e renda – permitir o empoderamento das mulheres ao controlar seus próprios ativos – saúde, segurança alimentar, tempo e liderança. O projeto não precisa cumprir todos os elementos do padrão, mas deve alcançar 51 pontos ou mais para receber a aprovação da WOCAN.

As mulheres serão empoderadas, pois são as reais proprietárias destes créditos de carbono e podem usar a renda como acharem melhor, talvez para programas de alfabetização ou saúde, comentou Gurung.

A iniciativa recebeu apoio do Banco de Desenvolvimento da Ásia, que financiou projetos piloto no Camboja (biodigestores), Laos (melhoria de fogões) e Vietnã (gestão de resíduos). “Eles estavam relutantes”, ponderou. “Eles acham que isso é algo arriscado, mas decidiram tentar e investiram alguns milhões de dólares”.

O esforço, chamado ‘Incentivando Iniciativas de Mitigação das Mudanças Climáticas em Beneficio das Mulheres”, visa facilitar modos de vida mais seguros com o uso de tecnologias modernas para reduzir o tempo que elas passam na coleta de lenha e dar acesso a fontes mais limpas de energia e a condições ambientais mais seguras.

“Achamos isso tão excitante por que realmente pensamos que pode ser transformador para as mulheres”, enfatizou Gurung. “Elas não precisam mais ir à floresta cortá-la, o que é uma tarefa difícil e fisicamente exigente. Elas não precisam ficar em uma cozinha cheia de fumaça suja.”

As líderes da WOCAN não estão preocupadas com a possibilidade de “fadiga de padrões”, apesar das inúmeras iniciativas já existentes voltadas para projetos de corte de emissões através de organizações como o Gold Standard ou Verified Carbon Standard.

“O mercado suportará o que aguentar”, comentou Bruce. “O mercado mostrará se isso será bem recebido.”

Pelo contrário, Gurung tem ouvido que a organização nunca terá projetos suficientes para satisfazer a demanda dos potenciais investidores por um produto popular que combinará investimentos verdes com benefícios para as mulheres. “Isso é algo estimulante”, comemorou.

* Traduzido por Fernanda B. Muller, Instituto CarbonoBrasil

Leia o texto original (em inglês)

(Instituto CarbonoBrasil)

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