Cidades sustentáveis são essenciais para eficiência de recursos

Atualmente, cerca de 75% dos recursos naturais do mundo são consumidos em áreas urbanas, e a proporção da população global que vive em cidades deve subir para 70% até 2050. Além disso, essas regiões são responsáveis por grande parte da degradação e poluição gerada no planeta, tornando sua relação com os recursos e ecossistemas nada sustentável.

Para mudar essa situação, um documento publicado pelas Nações Unidas nesta quinta-feira em Nairóbi, no Quênia, afirma que é necessário investir em infraestruturas sustentáveis e tecnologias eficientes em recursos nas cidades, a fim de incentivar um crescimento econômico com menor degradação ambiental, redução da pobreza, cortes nas emissões de gases do efeito estufa e melhoria do bem-estar.

O relatório, intitulado ‘City-Level Decoupling: Urban Resource Flows and the Governance of Infrastructure Transitions’ (algo como Dissociação em nível urbano: fluxos de recursos urbanos e a governança de transições de infraestrutura), declara que, para atingir a sustentabilidade para todos, é necessário dissociar as taxas de crescimento econômico das cidades do consumo insustentável dos recursos naturais finitos, que até agora caracteriza a maior parte do desenvolvimento urbano ocorrido.

“Até agora, a tendência para a urbanização tem sido acompanhada pela crescente pressão sobre o meio ambiente e o aumento dos números da pobreza urbana”, colocou Achim Steiner, diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), no lançamento do estudo.

Segundo o texto, para ocorrer essa transformação deve haver mais esforço por parte de governantes, empresas e sociedade, pois à medida que o preço dos recursos naturais continua a aumentar, fica cada vez mais difícil manter um padrão de desenvolvimento sustentável. Caso isso não aconteça, poderá haver sérias implicações econômicas e ambientais para as futuras gerações.

Isso porque, de acordo com a pesquisa, muito da infraestrutura que será futuramente necessária nas cidades, incluindo 60% das edificações exigidas para atingir as necessidades da população urbana mundial até 2050, ainda precisam ser construídas.

Para chegar a essas exigências, as cidades precisariam de um investimento calculado em US$ 40 trilhões entre 2000 e 2030 para a criação de novas infraestruturas urbanas – principalmente nos países em desenvolvimento – e para a adaptação das instalações existentes.

“Cidades mais antigas podem ter que adaptar e substituir infraestruturas ineficientes com as quais estiveram presas por décadas para atingir essa dissociação, mas cidades mais novas e em crescimento têm a vantagem da flexibilidade. Elas podem ‘acertar’ de primeira”, explicou Joan Clos, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UN-Habitat).

Mas ao mesmo tempo em que o relatório aponta os atuais e potenciais problemas desse desenvolvimento urbano insustentável, reconhece que essa situação oferece grandes oportunidades de canalizar fundos para infraestruturas mais sustentáveis que reduzam as emissões de carbono, melhorem a produtividade de recursos e criem novas estratégias de desenvolvimento urbano.

Felizmente, há cidades que já estão aproveitando essas oportunidades, como é o caso de Lagos, na Nigéria. A cidade introduziu o sistema Veículo leve sobre pneus (Bus Rapid Transit – BRT) para resolver problemas crônicos de congestionamento e poluição.

O sistema, apoiado pelo Banco Mundial e investidores privados, contribuiu para uma queda de 13% nas emissões de carbono do transporte urbano, e a rota de cerca de 25% dos passageiros que utilizam o serviço foi reduzida em até 50%.

Outro exemplo é a área central de Singapura, que está implementando um plano para reduzir o consumo nacional de água em cerca de 10% até 2030. Tecnologias avançadas são usadas para tratar as águas residuais e os esgotos, que se tornam seguros para beber e podem ser reutilizados pela indústria.

As águas residuais tratadas podem chegar a 30% das necessidades hídricas de Singapura até 2030, e investimentos em usinas de dessalinização, consertos em vazamentos de tubulações e outros esforços podem ajudar o país a atingir sua meta de 10%.

O documento também mostra casos aqui no Brasil, como o do programa Lixo que não é Lixo, de Curitiba. O projeto incentiva a separação de resíduos em recicláveis e não recicláveis através, por exemplo, da troca de lixo reciclável por passagens de ônibus ou por produtos alimentícios para comunidades carentes.

A iniciativa estendeu o tempo de vida dos aterros sanitários da cidade, evitando o despejo de 2.400 m3 de resíduos recicláveis a cada dia, o que representa cerca de 25% da produção diária de lixo. Outro exemplo brasileiro é a cidade do Rio de Janeiro, que tem investido em reflorestamento para restabelecer os aquíferos necessários para o abastecimento hídrico da cidade.

Por fim, o estudo faz algumas recomendações para que o desenvolvimento de infraestruturas mais sustentáveis seja potencializado: investimentos governamentais na criação de estratégias sustentáveis , infraestruturas de baixo carbono e desenvolvimento urbano eficiente em recursos; investimento em pesquisas sobre o uso de recursos; especificação de metas para uso eficiente de recursos; estímulo a atividades , tecnologias, bens e serviços de baixo carbono, eficientes e verdes; e envolvimento do setor privado em investimento e compartilhamento de experiências.

“Existem oportunidades únicas para as cidades liderarem a ecologização da economia global através do aumento da produtividade e inovação de recursos, enquanto atingem grandes economias financeiras e enfrentam desafios ambientais. Embora muitas cidades estejam aproveitando essas oportunidades, uma visão holística para os centros urbanos do futuro ainda está faltando”, concluiu Steiner.

“Quando olhamos para os crescentes gastos em infraestrutura urbana pelo mundo, precisamos nos perguntar: que tipo de cidades do futuro estão previstas pelos projetistas e construtores dessas novas infraestruturas? Essas infraestruturas estão preparando cidades [...] para futuros mais justos e eficientes em recursos? Ou estão apenas fixando concreto [...] com um modo de planejamento urbano do século XIX que precisará ser desmantelado daqui a 10 ou 20 anos?”, questionou Mark Swilling, um dos coautores da pesquisa.

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(Instituto CarbonoBrasil)

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