Ver a Amazônia na sua intimidade

A nova palestra que fiz há duas semanas no auditório do Museu Emílio Goeldi, sobre a relação do jornalismo com a ciência, foi mais uma oportunidade para plantar a semente da maior ideia que me surgiu em quase meio século de peregrinação pela Amazônia: o kibutz científico.

Conforme sua aptidão e o seu zoneamento ecológico-econômico, a região receberia kibutzim espalhados por toda sua extensão. Eles seguiriam um plano global, que os articularia e complementaria. Seus alunos ficariam nesseskibutzim da graduação até obterem o título de pós-doutorado. Não com uma tese em abstrato, meramente formal e intelectual: com um experimento. Se bem-sucedido, seriam aprovados. Se fracassassem, ficariam sem o título. Levariam um comprovante de frequência e uma declaração das suas aptidões.

Para esse desafio ser bem enfrentado, os estudantes seriam instalados em locais confortáveis e adequados à pesquisa. Teriam uma bolsa de alto valor. Recursos para financiar seus experimentos. Assistência e ensinamentos dos melhores nomes da ciência no mundo. E a bonificação de se tornarem proprietários particulares quando seus experimentos se tornassem realidade. A ciência saltaria à frente de todas as frentes pioneiras na busca da harmonia entre saber e fazer. A última tentativa de salvar a Amazônia da sua descaracterização ou destruição.

Enquanto falava, me veio uma preocupação: e até que essa utopia possa se materializar, o que fazer? Nenhum dos meus auditórios reagiu à ideia do kibutz científico. Mesmo um auditório seletivo e rigoroso, como o do BNDES, que se surpreendeu com a proposta, a considerou na hora em que podia levá-la a sério. Sugeri que o banco não pulverizasse os recursos do Fundo Amazônia, criado com dinheiro da Noruega.

Podia usar toda a verba num único projeto, que mudaria o conceito da ciência para impor o conceito de Amazônia nas ações de ocupação (que deixariam de ser etimológica e semanticamente de ocupação, uma renovação histórica do colonialismo e do imperialismo). Mas acabaram fazendo o de sempre: um pouco de dinheiro para cada átomo de intenções.

Enquanto a linguagem sustentava a palestra, meu cérebro arquitetava outro sonho. Seria um programa de documentários sob o título “A Amazônia por dentro”. Uma boa equipe, composta por repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, produtores, editores, assistentes e assessores científicos, produziria a série de documentários, que cobririam todos os elos da vida na região.

O objetivo seria mostrar o efeito da interação e conflito do homem com a natureza em cada ciclo, etapa ou momento do processo. Exemplo: o percurso da água das chuvas. Um momento seria a chuva em si: como cai, seu volume, onde cai, o que significam seus índices de quantificação e qualificação. Outro momento seria o percurso da água num ambiente com cobertura vegetal original e nas paisagens formadas pelo homem, quase sempre substituindo o cenário natural.

A água retida na copa das árvores e sua descida até o solo e daí aos cursos d’água. E a trajetória de impacto direto no solo quando não há a proteção vegetal. O que acontece quando esse volume de sedimentos arrastados pelas chuvas penetra num rio? A ação sobre os peixes e outros organismos vivos. A deposição no fundo, provocando sedimentação. E assim por diante.

Bem feitos, atraentes, didáticos e dinâmicos, esses documentários seriam exibidos em salas de aula e colocados em disponibilidade na internet para que as pessoas, de dentro e de fora da Amazônia, tenham uma compreensão profunda do que o homem está fazendo nessa região, magnífica oportunidade para mostrarmos que somos realmente animais racionais. E o que estamos desperdiçando.

* Lúcio Flávio Pinto é jornalista.

** Publicado originalmente no site Adital.

(Adital)

Fonte: Envolverde

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