Um impulso ao negócio do lixo

A Dorsal, empresa de Curitiba especializada em consultoria ambiental, viu a demanda por seus serviços disparar desde a entrada em vigor da Política Nacional de Resíduos Sólidos em dezembro de 2010. Desde então, o número de contratos que fechou para elaborar planos de gestão de lixo cresceu 150%. Entre os clientes estão desde grandes empresas, como a rede varejista de pneus DPaschoal, até pequenos negócios, como restaurantes e oficinas mecânicas. “Todos estão preocupados em se adaptar à legislação”, diz o químico ambiental Renato Nakayama, um dos sócios da Dorsal, criada há três anos. “Eles temem perder o direito de continuar operando por falta de documentação ou por descumprir as novas exigências.” Um dos planos da consultoria é oferecer seus serviços a prefeituras, já que a maior parte dos municípios brasileiros não dispõe de equipe técnica preparada para atender às exigências da nova legislação – só os que cumprirem os requisitos, como a apresentação do plano municipal de gestão de resíduos até agosto de 2012, poderão disputar verbas públicas federais.

Com a nova legislação, o Brasil finalmente ganhou um marco regulatório para o lixo, tema que se arrastou no Congresso Nacional por duas­ décadas. Abriu-se, dessa forma, espaço para o surgimento de novos negócios ou para a expansão dos existentes. Espera-se, por exemplo, que a reciclagem ganhe impulso agora que a lei estabelece uma distinção entre os conceitos de “resíduo” e “rejeito” – resíduo é todo lixo produzido pela população e pelas empresas, enquanto rejeito é a parte desse lixo que não pode ser reciclada com as alternativas técnicas disponíveis. Na situação ideal vislumbrada pela nova política, somente os rejeitos poderão ser descartados nos aterros sanitários. Essa determinação deverá levar à busca de soluções economicamente viáveis para a reciclagem de vários outros tipos de produto além das tradicionais latinhas de alumínio e garrafas PET, os dois únicos produtos, até agora, considerados bem-sucedidos no país, com elevados índices de reciclagem. Segundo uma estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o potencial dos benefícios econômicos e ambientais com o aproveitamento de resíduos que poderiam ser reciclados, mas hoje são enviados a aterros e lixões a céu aberto, chega a 8 bilhões de reais por ano.

Outro nicho considerado promissor é a construção e operação de aterros sanitários. A nova legislação estabelece que os lixões a céu aberto – encontrados em metade dos municípios brasileiros – devem ser eliminados até 2014. Para erradicar os lixões, um estudo da Associação Brasileira de Resíduos Sólidos e Limpeza Pública (ABLP) estimou que seja necessário construir 256 aterros sanitários regionais e 192 de pequeno porte, com um investimento total de 2 bilhões de reais. Mas isso é só o começo. “A construção dos aterros é a primeira etapa. A fase mais delicada vem depois, com a necessidade de recuperar as áreas degradadas e de operar corretamente os aterros para evitar novas contaminações”, diz Ariovaldo Caodaglio, diretor da ABLP.

Como os lixões são encontrados com mais frequência em cidades menores, que dispõem de menos recursos para investimentos, o governo federal estimula pequenos e médios municípios a se reunir em consórcios para construir aterros sanitários que atendam uma população de pelo menos 150?000 pessoas, o que possibilitará ganhos de escala e redução de custos. Como um incentivo aos projetos compartilhados de municípios, o governo definiu que os consórcios – com regras claras de divisão de responsabilidades entre os municípios – terão mais facilidade para obter financiamentos na segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), que reservou 1,5 bilhão de reais para obras na área de resíduos sólidos.

Fonte: Planeta Sustentável

Aterro sanitário: a construção de instalações adequadas para receber os resíduos deve crescer com a proibição dos lixões a céu aberto
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