“Salvem as tainhas”, grita o Ministério Público gaúcho

 Na semana que antecedeu o último Natal, defensores das tainhas ganharam de presente uma ótima notícia. Acolhendo uma ação civil movida pelo Ministério Público Federal/RS em março de 2011, a Justiça Federal determinou que a União – através dos Ministérios da Pesca e Aquicultura (MPA) e do Meio Ambiente (MMA) – defina e quantifique parâmetros técnicos e normativos para o ordenamento sustentável das próximas safras da tainha ovada. A medida vale a partir desde 2012.

Esse movimento, que pode ser denominado de “salvem as tainhas”, tem sido comandado – e justificado – pela procuradora da República, Anelise Becker, desde a classificação feita pelo Ministério do Meio Ambiente, em 2004, segundo a qual a espécie vem sendo sobre explorada, isto é, está com um índice de captura tão elevado que coloca em risco sua preservação.

A ameaça veio num crescendo, na medida em que as ovas da tainha passaram a ser consideradas uma iguaria semelhante ao caviar. Sua valorização no mercado internacional, especialmente na Comunidade Européia, obrigou a medidas como o estabelecimento de um limite máximo de 60 embarcações para a frota industrial de cerco, as chamadas “traineiras”. São elas que vêm atuando sobre os cardumes de forma descontrolada e colocando em risco as agregações reprodutivas da espécie.

A limitação do número de traineiras em 60, que agora deverá ter uma efetiva e rigorosa fiscalização, já constava de Instrução Normativa de nº 171/2008, do Ministério do Meio Ambiente. A elaboração do método de controle e a cobrança de informações regulares quanto à manutenção dessa ordem – que visa evitar que os estoques da tainha entrem em colapso – ficam a cargo do
Ministério Público Federal. No caso de uma embarcação descumprir as normas estabelecidas, já está defino o valor da multa: R$ 500 mil.

Ovas de tainha: iguaria caríssima

As ovas de tainhas não são apenas iguarias que alimentam o desejo da comunidade européia. No litoral do Sudeste e do Sul do Brasil já ocupam espaço importante do mercado turístico e gastronômico.

De formato alongado, essas ovas, após lavadas, salgadas e secas, ganham o nome de “bottarga”. Fatiada, essa iguaria cara pode ser utilizada em diversos pratos, sobre massas e ovos, de forma delicada, pois seu sabor é intenso e picante. Chefes de cozinha recomendam não ultrapassar de 15g o uso sobre cada prato.

O valor das ovas, hoje tão apreciadas, se tornou de tal forma elevado que as tainhas passaram a se tornar até “descartáveis”. Tanto que no ano passado os Ministérios da Pesca e Aquicultura, e do Meio Ambiente, publicaram documento proibindo o desembarque de ovas de tainha desacompanhadas das respectivas carcaças. A proibição tem como objetivo evitar o descarte de peixes aptos ao consumo humano.

De acordo com dados recentemente divulgados pelo Grupo de Estudos Pesqueiros da Universiodade do Vale do Itajaí (SC), no trajeto entre o pescador e o consumidor final as ovas podem ter uma valorização de 1000%, sendo exportadas a US$ 30 o quilo. Já a bottarga, ou seja, a ova trabalhada e desidratada, semelhante ao caviar, pode custar mais de R$ 700 o quilo.

Artigo escrito por Nico Noronha, jornalista, com passagem pelo jornal Zero Hora de Porto Alegre e portal UOL.

Fonte: Gastronomia Sustentável

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