Rio+20: ecologia rima com tecnologia

O título revela uma aparente contradição. De fato, não poucos defensores da causa de preservação do meio ambiente responsabilizam, entre outros fatores, os avanços tecnológicos pelos estragos à natureza. É o mesmo que responsabilizar uma faca por um assassinato ou um automóvel por um acidente com morte. Por trás da faca e do volante do carro existe a mão, o coração e a cabeça de um ser humano. Em ambos os casos, estão envolvidos na ação a inteligência, as emoções e os gestos de alguém.

A tecnologia é o conhecimento traduzido em instrumentos capazes de ações inovadoras. A ciência associada à técnica. Os artefatos e máquinas são como que a extensão dos braços humanos. A inteligência, mãe de novos inventos, os multiplica às dezenas, centenas e milhares. Com tais braços mecânicos, multiplica igualmente a capacidade produtiva. A Revolução Industrial (1870-1950), hoje incrementada com a revolução da informática, telecomunicações e transportes, representa a expressão máxima desse casamento entre a razão e a tecnologia aplicada. Em todos os domínios da sociedade, a produtividade por pessoa, nos últimos dois séculos e meio, deu saltos vertiginosos e jamais imaginados. Duzentos e cinquenta anos que, em termos de avanços macro-históricos, se equiparam a milênios.

Onde está, então, o problema da faca e do carro assassinos? Onde está o problema da tecnologia devastadora frente à natureza? A resposta é bem simples: no modelo político e econômico adotado. Ocorre que a Revolução Industrial amadurece e se consolida juntamente com o sistema capitalista de produção: capitalismo mercantil, depois industrial e hoje predominantemente financeiro. Este, de ideologia liberal, tem como força motriz o lucro e a acumulação de capital, num mercado de empreendedores livres, em que o Estado interfere o menos possível. Assim, não importa o que se produz, como se produz e para quem se produz! O que importa é que o círculo da produção-comercialização-consumo se reproduza rapidamente e ao infinito, elevando assim a taxa de rendimento. Quanto mais vezes se fizer circular uma determinada quantidade de capital e quanto mais capital em circulação, maior os ganhos líquidos. Iniciado o processo, a roda não pode parar. É movida a partir de sua lógica interna, férrea e crescente. A avassaladora “máquina de produzir” escapou ao controle da razão que a pôs em movimento.

A chamada “mão invisível” que teoricamente deveria regular a oferta e a demanda e, em tese, equilibrar a produção necessária ao necessário consumo, costuma ser cega e surda. Não vê necessidades nem ouve clamores, mas funciona de acordo com a lógica cumulativa do crescimento do capital investido. Cega e surda como é, acaba produzindo não o que a população mais necessita, e sim o que rende mais ganhos em menor tempo. Tampouco presta atenção à maneira de produzir. É imperativo obter o maior potencial de rendimento tanto dos recursos naturais quanto da mão de obra. Menos ainda pergunta a quem se destina este ou aquele produto. Importa apenas que ele seja consumido rapidamente para repor o capital em circulação.

Numa palavra, o sistema capitalista de produção, movido pela lógica liberal do “laissez faire”, não fabrica sapatos, não planta milho, não investe em educação. É capital que produz mais capital. Se os negócios com sapatos, milho e educação se tornam rentáveis em um determinado momento ou em determinadas circunstâncias, pode até fazê-lo. Porém, poderá migrar logo para outro tipo de produção, não de acordo com as necessidades básicas da sociedade, mas em correspondência à capacidade de maximizar lucros. Ou seja, no conceito de K. Marx, o sistema não produz bens de consumo e sim bens de troca – mercadorias! Estas não respondem necessariamente à demanda social, mas à taxa de retorno. Um exemplo: mesmo em tempos de fome e miséria, se os bens de luxo para as classes dominantes são mais rentáveis que a produção de alimentos, a lógica voraz do capital optará pelos primeiros, não pelo desejo de abrandar o sofrimento da população. Pior ainda quando ciência e tecnologia se aliam para a produção de armas e guerras, essas imensas e trágicas máquinas de matar.

Ainda mais duas outras contradições. Primeiramente, o mercado livre só o é no tempo de vacas gordas. Quando a crise bate à porta, os empresários e donos do capital não hesitam em solicitar o socorro do Estado. Este corre a salvar bancos e o sistema financeiro como um todo, muitas vezes em detrimento de políticas sociais em prol da população de baixa renda. Isso explica o lucro estratosférico dos bancos em tempos de vacas magras, bem como a precariedade crescente dos serviços públicos. A segunda contradição é que o mercado livre aprofunda o fosso entre ricos e pobres. Desencadeia uma competição entre forças desiguais. De um lado estão as classes dominantes, senhoras absolutas da riqueza, das máquinas e das leis; do outro, os trabalhadores com a força de trabalho. Luta de tubarões e sardinhas dentro do mesmo tanque. O jogo aberto entre forças desiguais tende a fortalecer o poderoso e enfraquecer o indefeso. Resulta que mercado nervoso e de mau humor mexe com os indicadores econômicos (cotação do dólar, bolsa de valores, taxa de câmbio, etc.), mas as consequências mais graves sobram para quem vive pendurado no comportamento dos indicadores sociais: situação da saúde pública, da educação, dos transportes coletivos, da política de habitação, etc. E aqui quem sofre são as camadas que formam a base da pirâmide social.

Repetindo, a questão de o que, como e para quem produzir obedece não às carências facilmente identificáveis, mas à potencialidade de multiplicar o capital investido. Semelhante lógica, evidentemente, entra em rota de colisão com o ritmo da natureza, do ser humano e a saúde de ambos. A exploração de uma e de outro entra como um dente, um simples detalhe, na engrenagem da gigantesca máquina de produção. O sistema capitalista consome recursos naturais e energia humana com a mesma voracidade com que é impelido a um crescimento sem trégua. Por isso é que, diante de qualquer crise econômica, o remédio oficial, das empresas ou do governo, é inevitavelmente produzir mais, vender mais, consumir mais. Remédio que, a médio e longo prazo, acaba por agravar o estado do doente e levá-lo à morte. Disso resulta a extinção de numerosas formas de vida animal e vegetal, bem como a deterioração da vida humana. Frente às novas catástrofes “naturais”, agravadas ou provocadas pela ação do modelo econômico que agride o planeta e a pessoa humana, a biodiversidade como um todo está em jogo. Cada espécie de vida que desaparece contribui negativamente para qualidade da vida humana. Vida e melhor qualidade de vida representam hoje o grito da terra!

A tecnologia, entretanto, pode e deve ser utilizada em outra direção, sob rígidos critérios éticos e responsabilidade política. A faca e o carro que matam, são os mesmos que cortam a fruta ou facilitam o deslocamento. Não podemos confundir o “outro mundo possível” com um retorno ao passado em termos recusar as inovações tecnológicas. As alternativas ao modelo em vigência não são necessariamente artesanais. Ao contrário, o desafio é colocar todo o potencial tecnológico a serviço de uma sociedade nova: justa e sustentável, solidária e fraterna.

O que implica, de imediato, em trocar a panaceia do crescimento a qualquer custo pelo empenho na distribuição dos recursos naturais e da renda. Implica também a busca de novos canais, instrumentos e mecanismos de participação popular em dupla função: por um lado, controle efetivo e constante das atividades exercidas por aqueles que são eleitos pelo sufrágio universal da democracia para representar os diversos setores da sociedade; por outro lado, igual controle do montante de arrecadação do Estado e do orçamento público, tendo consciência do uso correto e do destino dos recursos provindos de impostos, taxas, etc. Implica, por fim, em substituir o viver bem daqueles que tudo podem e tudo querem porque se encontram no topo da pirâmide, pela noção indígena do bem viver, numa relação sadia com as coisas, as plantas, os animais e as pessoas… Em com as novas tecnologias. Estas devem estar a serviço do bem como, da política com “P” maiúsculo, como se diz, e não da manutenção dos privilégios de poucos. O que significa em escala local e global, uma nova relação com a natureza, os diferentes ecossistemas e com o outro. No limite ideal, é evidente que isso deverá levar não à inversão da pirâmide, mas à destruição de todo e qualquer tipo de sistema piramidal.

Fonte: Adital

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