Rio+20: a mudança político-cultural necessária

Planeta pode assegurar vida frugal, porém confortável, para todos. Mas isto implica transformar radicalmente padrões de consumo da energia disponível.

As alternativas de energia são vistas em geral do lado da oferta: as fontes de energia, como hidroelétrica, de combustíveis fósseis, nuclear, eólica, solar, geotérmica ou ainda que aproveita os movimentos do mar. O esforço planetário para reduzir os impactos climáticos e para poupar petróleo está levando – ainda que lentamente – a amplos investimentos na mudança do perfil da oferta, diversificando as fontes, priorizando as energias renováveis e limpas.

O outro lado da moeda, no entanto, e complementar, reside nos esforços para influenciar o uso da energia. É interessante lembrar que, quando das grandes crises mundiais do petróleo, em 1973 e 1979, os preços aumentaram de forma radical. Na época, houve estudos sobre a mudança de comportamento dos norte-americanos, frente ao aumento do custo energético: fábricas aprenderam a economizar energia, casas passaram a utilizar material isolante para enfrentar o frio ou o calor, os carros começaram a ser vistos já não apenas do ponto de vista do luxo, mas da eficiência energética. Pelos excelentes resultados obtidos em curto espaço de tempo, se constatou que havia um imenso desperdício de energia. Assim, a sustentabilidade energética exige trabalhar tanto no lado da oferta da energia como na racionalização do seu uso.

No caso brasileiro, algo semelhante ocorreu quando do apagão no início da década passada. Foram adotadas medidas de emergência envolvendo uma ampla campanha de conscientização da população, os que reduziram o consumo se viram premiados nas suas contas, os que se excederam foram multados, mas no conjunto houve uma fortíssima redução de consumo, sem que as pessoas se vissem obrigadas a se privar. Constataram simplesmente que estavam desperdiçando energia em quase todas as formas de uso, e que podiam reduzir fortemente o consumo de energia sem sacrifícios nem sofrimento: bastaria atentar para um uso inteligente do recurso.

A população brasileira, da ordem de 200 milhões de pessoas, tem um nível de consumo muito desigual. À medida que a desigualdade se reduz e os pobres passam a consumir, o consumo energético do país deverá se expandir fortemente. Como ordem de grandeza, temos cerca de 50 milhões de pessoas que constituem o nosso “quarto mundo”, e certamente outro tanto de gente que deve passar a consumir decentemente, e em muitos casos atingir o nível de consumo mais amplo das classes mais abastadas. O consumo vai se expandir no conjunto, exigindo mais energia tanto para utilização direta sob forma de equipamentos domésticos e de transportes, como para a indústria e a agricultura.

A composição inteligente, mais eficiente e menos poluidora, da matriz energética pelo lado do consumo é portanto essencial. O Brasil, evidentemente, não está sozinho neste processo. O enriquecimento geral do planeta, que impacta diretamente no consumo de energia das pessoas e das empresas que as abastecem, não poderá, nem deveria, ser evitado. Somos sete bilhões de habitantes no planeta, com os dois terços mais pobres consumindo menos de 10% dos bens e serviços produzidos. Mas a generalização do tipo de consumo perdulário dos Estados Unidos – 4% da população mundial e 25% das emissões de gases de efeito de estufa – simplesmente não é viável. Isto é importante porque o Brasil será levado a participar, com o resto do mundo, de um amplo esforço de mudança do perfil de consumo. O eixo central não consiste na privação e no sacrifício, e sim na organização e na inteligência do uso.

O uso da energia vincula-se praticamente a todas as nossas atividades. Portanto, trata-se de um desafio civilizatório, de uma mudança cultural. Até hoje, continuamos na corrida por consumir mais, pois isto aumenta o PIB, e gera mais empregos, reduzindo a nossa angústia principal que é a de não podermos sustentar a nossa família. Com sete bilhões de habitantes no planeta, e 80 milhões a mais a cada ano, esta visão é simplesmente suicida. Este planeta, constatamos cada vez mais, não é tão grande assim. Nesta espaçonave todos têm de começar a se comportar como tripulantes, e não como passageiros – isto sem falar dos que querem se comportar como passageiros de primeira classe, confortáveis e bem servidos, gerando um rastro de custos que nos oneram a todos.

Uma ilustração simples, trazida pelo relatório das Nações Unidas, mostra de forma resumida a articulação que desponta. Na Coreia do Sul, frente aos desafios climáticos e à crise financeira mundial de 2008, decidiram lançar um programa de US$ 36 bilhões para a modernização do transporte público urbano. As repercussões são várias: ao dinamizar o transporte público, torna-se mais eficiente a mobilidade urbana, tanto em termos de tempo gasto pelas pessoas, como pela redução da poluição; o programa gera 960 mil empregos, o que melhora a situação social; como os empregos geram salários e demanda, melhora a conjuntura e reduz-se o efeito da crise financeira; e como o investimento está condicionado a tecnologias mais avançadas nas empresas, ajuda o país a se manter em boa posição no plano do avanço científico-tecnológico que está se tornando estratégico. E, naturalmente, reduz-se drasticamente o consumo de energia no transporte das pessoas. Não é sacrifício, é articulação inteligente.

É natural que esta evolução do “consumir mais” para o “consumir melhor”, da corrida pela quantidade para a visão da qualidade, da análise individual dos projetos – interesse de uma montadora em vender mais carros – para o interesse social final, só comece a se materializar hoje, quando estamos sentindo a pressão das ameaças do fim do petróleo fácil, da mudança climática, do esgotamento de tantos recursos, da revolta dos dois terços da população mundial que sabem que estão sendo mantidos fora do sistema. O Banco Mundial explicita isto de maneira delicada, ao se referir aos quatro bilhões de pessoas que “não têm acesso aos benefícios da globalização”. Como diz bem Ignacy Sachs, somos condenados a reinventar.

O Brasil se urbanizou. Cerca de 85% da população vive em cidades, e cerca de um terço em grandes metrópoles, mas, mesmo nas cidades médias, o problema do trânsito está se tornando crítico. Pesquisa da Rede Nossa São Paulo mostra que nesta cidade se perdem diariamente 2:43 horas por dia no trânsito, tempo em que as pessoas nem descansam nem trabalham, nem estão com a família. Levantam cada vez mais cedo para conseguir chegar a tempo, e a vida em família fica prejudicada. Quando têm carro, andam numa velocidade média de 14 quilómetros por hora, em primeira e segunda marchas, com imenso gasto de combustível, deslocando duas toneladas de equipamento por pessoa de 70 quilos. Um corredor de ônibus leva 23 mil pessoas por hora, na faixa de automóveis ao lado passam três mil no mesmo período. O gasto de combustível por pessoa/quilômetro é dezenas de vezes superior ao que seria se andassem de ônibus. Isto sem falar do transporte por metrô, incomparavelmente mais eficiente, usando energia limpa, e permitindo imensa economia de tempo da população.

Matriculam-se diariamente milhares de novos automóveis nas metrópoles. Não por necessidade, mas por massacre publicitário, e sobretudo porque não há alternativa pública de transporte. Na realidade, todas as famílias da periferia também terão automóvel, e o problema não é o automóvel em si. Ter carro para grandes compras, para fins de semana e deslocamentos familiares não é o problema. O problema é, numa cidade de 11 milhões de pessoas como São Paulo, 6,5 milhões de pessoas se deslocarem diariamente na mesma hora na ida e na volta, todo dia no mesmo trajeto, para ir trabalhar e para levar os filhos na escola. Este deslocamento em massa no mesmo horário, quando transferido para uma densa rede de metrô e de corredores de ônibus e trólebus, libera as vias para um uso mais diversificado.

Uma pesquisa econométrica em Lisboa mostrou que, quanto mais carros entram na cidade, mais devagar andam os ônibus, e mais gente decide optar pelo carro por não aguentar o ônibus. O planejamento integrado do desenvolvimento do sistema de transporte coletivo da cidade é portanto vital, para mudar a matriz energética que desperdiça petróleo, polui a cidade, e gera uma perda de produtividade sistêmica. A pessoa, individualmente, não tem como resolver, precisa chegar ao trabalho, e opta pela solução individual que é o carro, ainda que o orçamento o obrigue a se privar em áreas essenciais.

É interessante constatar que não se calcula o desperdício, mas sim a contribuição para a elevação do PIB que representam o aumento da venda de automóveis, o número de oficinas mecânicas, as hospitalizações, as motos que agora vêm preencher o que resta de espaço entre as ruas. Os jovens nas motos morrem diariamente, numa tragédia silenciosa que já não indigna. A realidade é que são as empreiteiras e as montadoras que mais financiam as campanhas políticas dos administradores urbanos, e o resultado são mais carros, túneis e viadutos, e, no caso de São Paulo, ridículos 74 quilómetros de metrô. Shanghai, que começou a construir em 1995, tem 420 quilometros.

O imenso desperdício de energia pela opção errada na matriz de transportes urbanos é evidente. Mas a opção rodoviária é igualmente trágica. O Brasil transporta quase dois terços da sua carga por caminhão, gastando diesel, pneus, asfalto, e com custo tonelada/quilômetro absurdo. Em um país de grandes distâncias como o Brasil, o sistema gera sobrecustos para todos os produtores, diretamente nos fretes, ou indiretamente via impostos e pedágios para a manutenção das estradas. Se olharmos o Brasil no seu conjunto, quase todos os centros econômicos são portuários, de Manaus a Porto Alegre, com a exceção de Belo Horizonte e região. A matriz de transporte necessária ao país é evidentemente a priorização do transporte por água, incomparavelmente mais barato, interligando a nossa economia atlântica, e com uma rede ferroviária servindo o interior, enquanto o caminhão fica apenas para curtas distâncias e carga fracionada. Isto gerará economia de combustível, e, por meio da redução do componente custos de transporte em todas as regiões produtivas, gerará economias externas e aumento de produtividade sistêmica.

Outra mudança muito significativa no perfil de consumo energético está no prosaico chuveiro elétrico. Com chuveiros tipicamente de 2500W, quando as lâmpadas frias têm um nível de consumo da ordem de 15W, o banho tornou-se um poderoso consumidor de energia doméstica. Além do volume do consumo em si, pesa muito o fato dos banhos serem tomados em milhões de domicílios quase à mesma hora. Como se trata de energia elétrica, e a eletricidade não é estocável, a sobrecarga na rede torna-se muito elevada. Para não haver colapso na rede, as geradoras da energia têm de arcar com investimentos muito maiores, no nível do pico de consumo. Em numerosos países, as empresas de fornecimento de energia financiam a instalação de painéis solares nas casas, pois sai mais barato para elas investir neste equipamento doméstico e equilibrar o nível de consumo, do que investir em capacidade maior de geração.

Na realidade, enquanto a produção de eletricidade com células fotovoltaicas já está chegando ao nível comercial, ainda que com dificuldades, o aquecimento solar da água que utilizamos está plenamente dominado em termos tecnológicos, barato e confiável. Em termos de gastos domésticos, a redução de custos é muito significativa, e o investimento mesmo individual se recupera em pouco tempo. Aliás, o teto das casas é um espaço imenso dentro de uma zona urbanizada, usado apenas para fazer escorrer a chuva, quando em numerosas regiões já serve tanto para aquecer água como para captar água de chuva que vai servir para diversos usos que não exigem potabilidade. Muitas casas inclusive aproveitam a parte superior com uma laje impermeabilizada em vez de telhado, permitindo a existência de jardins que tanto absorvem água como permitem a produção de plantas úteis e estabilizam a temperatura da casa, reduzindo o uso do ar condicionado. Um terraço entre estas plantas, inclusive, pode ser bem agradável.

A água é um elemento essencial do nosso perfil de consumo, e com amplo impacto energético. De forma geral, em vez de entendermos a sua dinâmica natural, e a aproveitarmos, tentamos impor a nossa lei. Cobrimos os córregos naturais, as várzeas, todo o sistema natural de escoamento, com asfalto para carros, depois canalizamos o que resta para acelerar o escoamento, e em seguida aprofundamos a calha porque o acúmulo da água é mais acelerado, e como não é suficiente construímos piscinões – tudo com muito gasto de concreto, e muita densidade em energia. Mas também com belos contratos para as empreiteiras. Um dia estas obras serão desestruturadas, e os rios e riachos voltarão a ser limpos, piscosos, com muito verde e espaço para passeios, humanizando a cidade, quando hoje na realidade apenas servem para empurrar esgoto. Entender a natureza, e adaptar-se a ela, pode ser muito mais barato, tanto em termos financeiros como energéticos.

No caso da água que bebemos, foram feitos numerosos estudos. Assegurar água limpa na torneira de cada residência constitui um sistema simples e barato. Vender água em garrafas no supermercado gera custos energéticos calculados por Lester Brown, no seu belíssimo Plano B 4.0, em cerca de mil vezes mais do que vendê-la na torneira da nossa casa. Este gasto desmedido envolve a produção de garrafas de plástico, o seu transporte, a sua manipulação, a sua disponibilização nos supermercados, a energia que usamos para buscá-la, frequentemente de carro, o tempo despendido, o descarte e transporte final até o aterro, os plásticos que utilizamos para acondicionamento em diversas etapas, inclusive no saco de lixo. Estudos do Idec mostram que, em geral, não há muita diferença em termos de conteúdo de coliformes fecais entre a água na torneira e a maioria das águas engarrafadas disponíveis no comércio. Mas parece mais chique comprar água. Na realidade, um bom filtro, e há os que refrigeram bem a água, não só torna tudo mais barato, como gera impressionantes economias familiares no uso de refrigerantes. Um copo de água fresca e limpa ainda é uma das coisas simples que nos fazem sentir bem.

Pensar a casa, o nosso domicílio, e o seu balanço energético, é muito interessante. Hoje há contadores de uso de energia elétrica que permitem detalhar quanto estamos usando em ar-condicionado, aquecedores, torneira elétrica, geladeira, e os inúmeros pontos de stand by – aquela luzinha vermelha que permite ligar os aparelhos. Os sistemas que permitem desligar luzes e eventual ventilador quando não há pessoas no quarto constituem um excelente fator de economia. Mas muitas vezes fica difícil as pessoas resolverem individualmente os problemas. O stand bytipicamente consome 4W, o que é muito, dado o número crescente de aparelhos domésticos. A exigência, por parte de organismos reguladores, de que o stand by não consuma mais de 1W obriga as empresas a avançar nas tecnologias, tal como a exigência de maior eficiência energética e a instalação de conversores catalíticos levou a carros com muito mais performance. As tecnologias devem nos liberar de custos, facilitar a vida, e não dificultá-la.

Na realidade, as mudanças exigem ação articulada tanto dos poderes públicos, como das empresas e da população em geral. As pessoas seguirão indo de carro para o trabalho enquanto não houver transporte público adequado, continuarão a usar chuveiros elétricos enquanto não se generalizar a oferta de sistemas de aquecimento solar e de manutenção adequados, comprarão água nos supermercados – os de classe média para cima – enquanto não se assegurar melhor qualidade de água como serviço público. O modesto gás de cozinha continuará a ser transportado e vendido em pequenos botijões que circulam por toda a cidade, com impressionante ineficiência energética, enquanto as prefeituras não generalizarem o acesso ao gás de rua, inclusive aproveitando a produção de gás dos aterros sanitários.

A eficiência energética dos equipamentos domésticos melhorou muito depois que a lei passou a exigir que, nas lojas, uma geladeira, por exemplo, exiba o seu nível de uso de energia. Trata-se assim de um processo de construção de consciência na população, por meio de sistemas adequados de informação, mas também de pressão sobre as empresas, tanto por parte do consumidor como dos órgãos reguladores. A eficiência do consumo energético se organiza, e deve ser administrada. Trata-se de uma política pública, não apenas de governo.

* Ladislau Dowbor é formado em economia política pela Universidade de Lausanne, Suíça, doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia (1976).

** Publicado originalmente no site Outras Palavras.

(Outras Palavras)

Fonte: Envolverde

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