Revolução dos Baldinhos: agricultura urbana e consumo consciente transformam uma comunidade

Motivados por uma epidemia de ratos, os moradores da localidade de Chico Mendes, em Florianópolis (SC), transformaram sua realidade e passaram a olhar de maneira diferente para o próprio consumo de alimentos e para o lixo que produzem. A chamada Revolução dos Baldinhos é uma iniciativa local de gestão de resíduos e de produção de fertilizante natural que viabiliza o plantio de alimentos por meio de agricultura urbana. No início, atendia cinco famílias. Agora mais de 200 são beneficiadas. O Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro) coordena a iniciativa executada localmente.

Para entender o que vem sendo construído com essa revolução e como ela transformou a vida dessas pessoas, o Akatu entrevistou Marcos José de Abreu, engenheiro agrônomo e Coordenador dos Projetos Urbanos do Cepagro. O que a agricultura urbana tem a ver com consumo consciente? Que mudanças de hábitos podem ser promovidas quando se vive o ciclo completo de um alimento?

Confira os principais trechos da entrevista.

Instituto Akatu – O que é a Revolução dos Baldinhos?

Marcos José de Abreu – É um projeto de gestão comunitária de resíduos que viabilizou iniciativas de agricultura urbana. Tudo começou por conta de uma epidemia de ratos que invadiu a comunidade de Chico Mendes, em Florianópolis, ocasionando doenças e mortes. Em novembro de 2008, moradores, responsáveis pelo posto de saúde local, líderes comunitários e o Cepagro se reuniram para tentar resolver a epidemia e não deixar que o problema se perpetuasse. O Cepagro já fazia um trabalho de educação nas escolas nessa região e uma de suas especialidades é a compostagem. A comunidade percebeu que preparar o material para compostagem fazia com o que o lixo produzido fosse mais limpo. Ou seja, separar resíduos orgânicos para compostagem retirava da rua restos de comida e não alimentava os ratos. Essa podia ser uma solução para o problema e vimos juntos que a iniciativa poderia ter outros desdobramentos, como de fato teve.

A partir do interesse de jovens do bairro pela atividade de compostagem, conseguimos, em parceria com a Eletrosul [companhia elétrica do estado de Santa Catarina], viabilizar bolsas de apoio para iniciar o trabalho. Começou com cinco famílias e hoje atende cerca de 200. Temos disponíveis aproximadamente 40 PEV [Ponto de Entrega Voluntária] na região. O Cepagro coordena o trabalho que é executado por sete jovens da localidade com o apoio da população. Esses jovens recebem uma bolsa de estudo vinculada à frequência escolar. Eles sensibilizam as famílias para a separação do material para compostagem, gerenciam a coleta e a transformação do resíduo orgânico em compostagem. Oferecem palestras nas escolas, creches e recebem grupos para conhecer o trabalho.

Instituto Akatu – Então o projeto foi bem além de resolver a epidemia de ratos…

Marcos José de Abreu – Sim. Cada família tem um baldinho usado para recolher os resíduos orgânicos para compostagem. O lixo que vai para a coleta pública hoje não é mais misturado a restos de comida – e não alimenta mais os ratos, resolvendo o nosso problema inicial.

Produzir o composto acaba também tendo a função de fazer as pessoas separarem o lixo, mandando o que é possível de ser reciclado para a reciclagem e usando o resíduo orgânico na compostagem. O grande objetivo do nosso trabalho é promover agricultura urbana para gerar alimentos saudáveis e alimentar a população. O processo de recolhimento do resíduo orgânico nas casas, escolas e creches para levar às composteiras é seguido da devolução do composto para a comunidade, e fez a produção de alimentos aumentar muito na região. Junto com isso, a população sentiu que, ao colocar os resíduos orgânicos nos baldinhos, o lixo ficou seco, deixou de ter mau cheiro ou sujar a rua. O lixo seco é fácil de ser manuseado. O ambiente na comunidade mudou.

O processo foi acontecendo participativamente. Hoje temos métodos de sensibilização, coleta, transporte, confecção das composteiras, compostagem. Mas tudo isso foi sendo desenhado diante do que encontramos na nossa realidade. Não foi uma ideia imposta, uma grande solução que veio pronta. Nós todos tínhamos elementos a contribuir na construção dessa mudança de realidade. O meu projeto de mestrado hoje é exatamente sobre isso. Quero sistematizar o conhecimento produzido e deixar disponível para quem quiser replicá-lo.

Instituto Akatu – Qual a principal ideia da agricultura urbana? Qualquer cidade pode ter esse tipo de solução?

Marcos José de Abreu – A agricultura urbana é qualquer processo de produção de alimentos agrícolas que acontece nas cidades. Ela tem por princípios a eficiência na ocupação de pequenos espaços, a reciclagem de resíduos orgânicos, transformando-os, e o reaproveitamento de água. Pequenas hortas caseiras, hortas escolares ou em creches, instituições de atendimento ao público, hortas comunitárias, canteiros elevados – tudo isso pode ser considerado agricultura urbana. As pesquisas sobre a prática de agricultura urbana indicam que aproximadamente 80% das pessoas afirmam ter dificuldade em encontrar terra boa para plantio. Na agricultura ecológica com adubação natural, na zona rural, o agricultor tem esterco dos animais para adubar a terra – isso é a base para plantar de forma orgânica. Na cidade, a fonte de adubo orgânico é o lixo orgânico. Aproximadamente metade dos resíduos que produzimos nas cidades é orgânico.

O composto preparado a partir do tratamento do resíduo orgânico pode resolver essa dificuldade de preparação da terra para plantar. E a gente viu isso acontecendo aqui em Florianópolis. As pessoas fazem! Nós vimos sementes e mudas de plantas sendo trocadas, terra sendo tratada e gerando de alimentos.

Instituto Akatu – A Cepagro identifica essa atividade como promotora de consumo consciente?

Marcos José de Abreu – Com certeza. As pessoas passaram a tomar conta do seu resíduo. Quando tomam conta do seu resíduo passam a prestar atenção no que consomem. Logo que o projeto começou, ouvimos muita gente dizendo “Poxa, uma comunidade tão pobre e com tanta comida sobrando”. Ou seja, as pessoas tomaram consciência da quantidade impressionante de alimento que circula entre elas e que pode ser aproveitada.

As pessoas perceberam também que é possível produzir o próprio alimento. Elas sentem o impacto de consumir aquilo que cultivaram. Tanto no sabor, quanto no bolso. Além da satisfação pessoal de cozinhar alimentos como temperos, tomate, alface, brócolis, que cresceram no próprio quintal. Sem contar que passam a ter outra percepção sobre o tempo dos alimentos. A alface leva 2 meses para ser colhida. Tomate e brócolis, de 3 a 4 meses. Ter contato com o ciclo todo da comida e cuidar dele é consumir conscientemente. O tomate não aparece pronto na feira ou no mercado. Ele demora a ser produzido. Só vivendo a experiência conseguimos perceber isso.

Instituto Akatu – O que o consumidor consciente pode fazer para replicar essa experiência em sua localidade?

Marcos José de Abreu – A comunidade que desenvolveu esse projeto é muito adensada, quase não tem espaço disponível para plantio. Os quintais têm entre 10 e 20m², as casas são todas muito próximas umas das outras, com poucas árvores. E isso não impediu as pessoas de plantar, mostrando que é possível agricultura urbana em qualquer lugar. Dá pra fazer uma mini composteira em casa, se tiver um pouco de espaço. Se não tiver, dá para combinar no condomínio, com os vizinhos, na rua, no prédio, enfim. É possível encontrar meios de produzir coletivamente e de viabilizar espaço para plantio. Pode ser em casa, em vasos, por exemplo. O processo de agricultura urbana acontece, no entanto, a partir do interesse e da sensibilidade de cada um. É uma questão de consciência e ação. Somos nós, pessoas comuns, que temos esse poder de transformação nas mãos.

Instituto Akatu – Que outros projetos desenvolve o Cepagro?

Marcos José de Abreu – O Cepagro existe há 23 anos. Na última década vem atuando especificamente com a produção da agroecologia em Santa Catarina e, em cooperação com outras entidades, em outras regiões do Brasil. Nosso trabalho é promover agroecologia fornecendo assessoria e acompanhamento técnico às pessoas interessadas em fomentar a agricultura urbana, sempre a partir da noção de agroecologia. Atuamos nas duas frentes: rural e urbana.

Fonte: Instituto Akatu

Em Florianópolis, comunidade gere os próprios resíduos orgânicos e produz alimentos localmente
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