Produção consciente

A pele do pirarucu, peixe amazônico de fundamental importância para a alimentação e a economia da população local, já desfilou nas passarelas internacionais em forma de bolsas, tênis, roupas – no melhor estilo de uma moda que une o chique com o sustentável. Restos de fraldas ou de absorventes, desperdiçados durante o processo industrial, tornaram-se charmosas espreguiçadeiras feitas com madeira plástica. E até mesmo o isopor, vilão da família dos plásticos, agora pode ser visto no figurino de molduras para espelhos, porta-retratos, rodapés e deques para área de lazer.

Os exemplos acima parecem exóticos, mas têm um ponto de convergência bem especial. São reflexos da ideologia de Oscar Metsavaht, dono da grife de roupas Osklen, do Rio de Janeiro; da multinacional Kimberly-Clark, conhecida por fabricar o papel higiênico Neve; da carioca Ecowood, que faz madeira plástica; e da catarinense Santa Luzia, que trocou a madeira pelo isopor reciclado para fazer seus produtos. A lista inclui ainda a Butzke. Localizada em Timbó, SC, a ex-fabricante de carroças com mais de 100 anos carrega o mérito de ter sido a primeira empresa moveleira do Brasil a obter o selo verde FSC – que garante a procedência e o manejo sustentável de toda a madeira de eucalipto utilizada no processo de fabricação. Em comum, essas empresas apostaram em um conceito conhecido como Triple Bottom Line – people, planet, profit (pessoas, planeta e lucro) – antes mesmo de a palavra sustentabilidade se tornar uma bandeira a ser empunhada na vida e nos negócios. Afinal, nos dias de hoje o consumidor está preocupado, sim, com o meio ambiente.

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Ambiente da Casa Cor Rio 2012, decorado com deque na cor tabaco feito pela Ecowood com madeira plástica. A matéria-prima vem do refugo industrial de fraldas e absorventes da Kimberly-Clark

Pesquisa divulgada pelos institutos Akatu e Ethos, sob o nome Percepção do Consumidor Brasileiro – Responsabilidade Social Empresarial, mostra que 78% dos brasileiros têm interesse em saber o que as empresas estão fazendo no quesito responsabilidade socioambiental. Outro estudo do Akatu revela que 37% dos entrevistados se dispõem a pagar mais por um produto com um selo ambiental. Ambas as pesquisas comprovam que ninguém mais quer conviver com estatísticas vergonhosas como a do plástico, que representa 90% do lixo depositado nos oceanos. Cada case citado nesta reportagem ilustra a trajetória particular de iniciativas sustentáveis. Metsavaht guardou o diploma de médico na gaveta para tocar a Osklen, um negócio que começou com uma pequena loja em Búzios e se materializou numa rede com 64 lojas no Brasil e nove no exterior. Cresceu ao sabor do que o empresário chama de luxo sustentável. Ou seja: criar uma moda diferenciada, respeitando o meio ambiente e toda a cadeia produtiva. Para viabilizar essa dinâmica nos negócios, Oscar Metsavaht fundou o Instituto-e, caldeirão de iniciativas sustentáveis de onde saem diretrizes para a Osklen.

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Poltrona e cadeira da linha Tajá, criadas pelo designer Sergio Rodrigues no fim da década de 70, foram repaginadas pela Butzke – a primeira fabricante de móveis do Brasil a ter o selo FSC. A nova versão vem com proteção solar extra

Uma delas, a etiqueta e-fabrics, identifica se as matérias-primas usadas nos produtos da marca respeitam critérios de comércio justo e desenvolvimento sustentável. De lá também saem ideias de projetos socioambientais. Um deles é programa Recuperação da Costa Brasileira, que reabilitou 17 dunas e a vegetação nativa que margeiam o calçadão carioca nas praias de Ipanema e do Leblon. No Rio também está sediada a Ecowood, empresa que compra resíduos de fraldas e absorventes da Kimberly-Clark e desenvolve móveis e revestimentos. Isso só é possível porque a fabricante, fundada em 2005, tem uma tecnologia capaz de transformar resíduos diversos – fundindo polímeros com fibras naturais – para produzir um material com características da madeira. “Fazemos produtos sem cortar árvores”, conta orgulhoso Rodolfo Queiroga, proprietário.

Feito de madeira, um deque com 100 m² demanda o corte de dois ipês. Na Ecowood, as árvores são substituídas por 2,2 toneladas de resíduos plásticos e fibras orgânicas. Já a Kimberly-Clark, fonte dos resíduos usados pela Ecowood, deu novos rumos à sua história ao procurar alternativas para a redução do lixo industrial. “A companhia decidiu que não mandaria mais resíduos para nenhum aterro sanitário”, diz Janaína Coutinho, gerente de qualidade, segurança e meio ambiente da K-C. Após pesquisa com 248 negociantes de diferentes segmentos, a empresa descobriu que os resíduos – compostos de celulose, polímero e plástico – poderiam servir de matéria-prima em 184 negócios. Passou, então, a vender 100% dos descartes da produção para parceiros.

Buscar insumos alternativos revigorou a tradicional Santa Luzia. Fabricante de molduras, perfis e revestimentos, a companhia tomou conhecimento de uma fórmula, inédita no Brasil, para reciclar o isopor. Com tecnologia trazida da Alemanha, transforma o material numa placa de plástico que substitui a madeira. “Até 2000, 95% das nossas matérias-primas eram madeira e apenas 5% eram material reciclado. Hoje, é o inverso”, diz um dos proprietários, Marcos Zanette. Na reciclagem do isopor, a empreitada gerou também trabalho para os detentos de um presídio próximo a Curitiba: são eles que higienizam os recipientes de isopor usados nas refeições.

Já na história da Butzke a madeira não foi substituída. O caminho escolhido foi buscar o uso consciente do material. Em 1998, tornou-se a primeira indústria moveleira do país a ter o certificado FSC – Florest Stewardship Council, criado na década de 90 em resposta ao uso predatório das florestas. “Se não encontrássemos uma maneira sustentável, estaríamos prejudicando a nossa própria longevidade”, diz Michel Otte, sócio-diretor.

Fonte: Planeta Sustentável

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O projeto de recuperação da vegetação native na orla carioca

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